Segundo romance do cantor Nick Cave promove o revés do feminismo com a figura decadente de um protagonista pervertido, imoral e emocionalmente nulo.
Desde que as francesas, em Maio de 1968, saíram às ruas queimando seus sutiãs em gesto simbólico e definitivo do fim da repressão masculina, o comportamento sexual passou a ser tratado como assunto intelectual e político, rendendo uma extensa e controvertida bibliografia até hoje revisitada – seja para apontar erros ou acertos, teóricos ou práticos, dos homens ou das mulheres. Uma das leituras que constantemente se faz do feminismo, nesse diálogo entre passado e presente, aponta o fracasso do movimento como frente política cujo objetivo é (ou foi) a igualdade sexual e a garantia dos direitos e interesses da mulher.
Tomando ou não tais reflexões como verdadeiras, o que se vê desde então é que a sociedade assimilou como naturais as querelas sexistas estimuladas, em sua maioria, pelas mulheres – no que pode ser considerada uma anacrônica mistura de confiança adquirida e liberdade vigiada. Por outro lado, falido ou não o movimento feminista, a inversão de papeis ocorreu de maneira sutil no que concerne ao entretenimento de natureza erótica. Em outras palavras, pode-se dizer que o cada vez menos velado interesse feminino no assunto as colocou em absoluta evidência.
Não é o que pensa Nick Cave. Após 25 anos como líder da icônica Nick Cave & The Bad Seeds, o cantor australiano resolveu descansar fazendo… mais música, só que com um projeto diferente: acompanhado de três integrantes dos Bad Seeds, criou Grinderman, banda que presta tributo ao rock de garagem com canções diretas e pesadas cujas letras versam, predominantemente, sobre o universo masculino. Além disto, Cave encontrou espaço para realizar outra abordagem deste mesmo assunto também na literatura.
É nesse sentido que A Morte de Bunny Munro, segundo romance de Nick Cave (o primeiro, And The Ass Saw The Angel, permanece inédito no Brasil), representa uma espécie de refluxo dos movimentos feministas, ao colocar um imoral e insensível pai e marido como protagonista de uma trama que aborda, entre outros assuntos, as raízes familiares e a predisposição masculina ao sexo. Bunny é, a um só tempo, teoria e prática de uma anti-tese do feminismo levantada pelo autor e levada às últimas consequências.
Consagrado por suas longas, complexas e simbólicas composições, Cave investe em uma escrita mais flexível e despojada para a condução do romance, aproximando leitor e personagem pela via do léxico. Se a narrativa, em terceira pessoa, já se apresenta bastante simples, o discurso dos personagens (com destaque, obviamente, para Bunny) é voltado para a coloquialidade, eliminando qualquer arroubo estilístico do texto.
É importante falar da linguagem do romance para que a intenção comunicativa de Cave seja entendida sem criar empatia, o que seria uma injustiça. Ora, se Bunny é a síntese do comportamento masculino em seu estágio mais irracional e primitivo, deve-se entender que o caminho escolhido pelo autor para demonstrar sua tese tem de estar alinhado ao pensamento de seu protagonista, independente de concordar com ele. O leitor do sexo masculino, no entanto, viverá momentos de identificação imediata com algumas situações vividas pelo caixeiro-viajante moderno do livro, no que pode ser considerada uma abertura da caixa de Pandora do inconsciente masculino.
A relação de Bunny com suas clientes (e com todas as outras mulheres do planeta) é um dos muitos pontos altos do segundo trabalho de Cave como escritor, que se aproveita da doentia e obsessiva libido de seu protagonista para criar situações bizarras e engraçadas, com o mínimo possível de enfeites no texto. Bunny é um hedonista autodidata que sequer domina alguma técnica de conquista; sua abordagem não possui qualquer sutileza ou charme, aproximando-o de um animal irracional em busca de uma cópula.
Deste modo, Bunny Munro é o clássico personagem que se ama odiar. Extremamente irresponsável na vida familiar, emocionalmente nulo e guiado apenas por sua intensa e insaciável libido, a peça fundamental do texto de Cave é uma impressionante máquina de processar imoralidades, visualizar perversões e seduzir solitárias clientes em suas tardes de trabalho vendendo produtos de beleza. No entanto, o mesmo intragável pai relapso, marido omisso e homem obsessivo com sexo é, também, o único referencial do leitor que, obrigado a acompanhar sua errante trajetória, acaba se identificando, ainda que a uma distância segura, com o drama de Bunny. Sim, pois há um drama para ele.
Libby Munro, sua esposa, comete suicídio nos primeiros capítulos do romance, configurando a grande reviravolta na vida do protagonista imoral que, diante da situação, se vê incumbido de uma responsabilidade que nunca teve: cuidar de seu filho, Bunny Junior. Fracassado em sua tentativa de deixar o garoto com a avó materna, Bunny pai apresenta a Junior sua rotina itinerante de trabalho e Cave se aproveita deste acontecimento para transformar seu livro em uma tocante e depravadamente cômica aventura envolvendo pai e filho pelo litoral da Inglaterra.
Mesmo morta antes da página 70, Libby faz pontuais aparições em outros momentos do romance, todas para seu filho, configurando cenas de natureza onírica, completamente diferentes das narradas pelo autor antes de sua morte. Deixado pelo pai no carro em diversos momentos, quando Bunny aborda a casa (e a genitália) de suas clientes, Junior conversa com a figura tranquila da mãe, expondo seus medos e desfazendo suas dúvidas existenciais, uma vez que com o pai as mesmas não seriam explicadas.
Nick Cave, assim como em suas letras, orquestra e agrupa símbolos como poucos em A Morte de Bunny Munro: assim como Bunny pai representa a decadência do homem que insiste em chafurdar em sua própria miséria existencial, Bunny Junior deveria ser, por associação onomástica, a progressão deste modelo doentio de “consciência masculina”. O filho, no entanto, é inocente e sensível, contrariando as expectativas genéticas numa representação clara de que Bunny Munro é o último espécime de sua sub-raça.
Ainda nesta linha de pensamento, Libby pode ser admitida como o principal símbolo do feminino que, morto física e socialmente, interfere na trama através da única figura masculina que não está impregnada de vileza (vale mencionar que Libby, uma forma reduzida de Elizabeth, teria como significado a sentença “meu Deus é uma promessa”). Bunny, o nome que resta, é a própria irresponsabilidade personificada, um homem que não tem nome, mas um apelido débil que o associa a um coelho – animal que, não por acaso, é símbolo da fertilidade.
Incomodado com a figura do anônimo e caricato Assassino Chifrudo, personagem de que só se fala nos noticiários a que Bunny assiste na companhia de seu filho em TVs de lanchonetes de beira de estrada, o protagonista sente que está marcado para morrer. Não sabe onde, nem como, nem onde, mas sente que sua morte virá, e o ridículo assaltante de lojas de conveniência no norte do país representa um sinal deste acontecimento. A partir de então, o já atormentado Bunny vê sua (pouca) dignidade se esvair a cada novo passo errado, a cada tentativa frustrada de arrebatar uma dona de casa para a cama, a cada diálogo com seu filho – em que fica evidente sua falta de tato para entender a inocência e ser responsável por uma vida. O Assassino Chifrudo, que mesmo pela TV intriga profundamente a Bunny, se transforma em uma maldição televisionada, em um registro tosco de sua própria falida trajetória.
Se Nick Cave, com sua nova banda, está interessado em contar episódios debochados e bem humorados do cotidiano masculino, em A Morte de Bunny Munro este mesmo comportamento contrário aos interesses femininos é dissecado sob uma ótica que não exclui o humor, mas admite tons dramáticos e reflexivos ao texto. A anti-tese do feminismo, personificada no protagonista do romance, se revela um modelo comportamental igualmente falido ao representar, também, a imaturidade emocional de seu protagonista, e sua inevitável morte é a compensação encontrada pelo autor para esterilizar o terreno venoso que é a mente e o corpo de Bunny.
Leia um trecho do livro (o texto a seguir possui conteúdo adulto):
“Deitado de costas com sua cueca de zebrinha no hotel Queensbury da Regency Square, dando cabo de uma garrafa de uísque e assistindo com olhos injetados à TV minúscula que tagarela no canto do quarto, Bunny coloca um dedo com cuidado sobre o dorso do nariz e dois filetes de sangue fresco e escuro saem de dentro dele, escorrendo pelo queixo e pingando silenciosamente no seu peito. Ele pragueja baixinho, enrola dois lenços de papel na forma de tampões e enfia um em cada narina.
O quarto é uma mistura berrante de papel de parede psicodélico e um carpete de lã estampado cor de sangue que parece ter saído dos pesadelos em tecnicolor do dono de uma clínica de abortos clandestinos australiana. As cortinas escarlates parecem tiras de carne crua penduradas e dragões chineses ferozes e bigodudos se contorcem na luminária de papel que pende do teto. O lugar fede a esgoto e a água sanitária e não há serviço de quarto ou frigobar.
Bunny Junior está deitado na outra cama, de pijama, travando uma batalha épica contra suas pálpebras atormentadas – cochilando, acordando sobressaltado, e então cochilando novamente. Ele boceja, dá uma coçadinha no corpo e entrelaça as mãos para dormir.
– Papai – murmura ele, retoricamente, tristemente, para si mesmo.
Bunny para de pensar no traseiro de Sabrina Cantrell e passa a imaginar sua boceta e pouco depois está pensando sobre a vagina de Avril Lavigne. Ele tem quase certeza de que Avril Lavigne tem a Valhala de todas as bocetas e, em resposta a essa reflexão noturna, dobra com cuidado um exemplar do Daily Mail sobre seu membro semiereto. Afinal de contas, tem uma criança no quarto.
Bunny acende um Lambert & Butler e se concentra na televisão. Uma mulher em um talk show “confessional” está admitindo ser viciada em sexo. Isso não desperta nenhum interesse em especial em Bunny, exceto pelo fato de ele não entender como aquela mulher – com seu queixo triplo, seus braços flácidos e sua bunda gorda – consegue encontrar homens dispostos a satisfazer sua libido descontrolada. Mas, pelo jeito, isso não tem sido problema, pois ela oferece um relato pavoroso e detalhado das suas façanhas sexuais. Algum tempo depois, seu marido, um homem abatido e intimidado pelas câmeras, é chamado ao palco e ela lhe pede perdão. A câmera se aproxima lentamente do seu rosto encharcado de lágrimas e a mulher diz: ‘Ah, Frank, eu fiz coisas terríveis. Coisas muito, muito terríveis. Você teria a bondade de me perdoar?’
Bunny se serve de outra dose de uísque e acende um Lambert & Butler.
– Mata essa vagabunda – murmura ele.
Bunny Junior abre os olhos e, com uma voz distante que vem das profundezas do sono, diz:
– O que você disse, pai?
– Mata essa vagabunda – responde Bunny, porém os olhos do menino já se fecharam novamente.”
A Morte de Bunny Munro, de Nick Cave. Record, 2008. 348 págs.




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