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É bíblico: o amor é importante. Está lá na primeira epístola de São Paulo à igreja de Corinto, quando o autor da missiva, no décimo terceiro capítulo da referida carta, inicia uma belíssima e famosa reflexão acerca do amor genuíno, que seria o amor cristão. Vale ressaltar que Paulo, quando na escrita desta epístola, refere-se ao amor enquanto sentimento liberto de juízo de valor, voltado unicamente para a satisfação do indivíduo em relação ao objeto desse amor. Já na Grécia Antiga, uma palavra específica apresentava, em sua literatura, tendência a expressar tal comportamento: αγάπη, transcrita para o latim como agape – em português ágape.

A diferenciação deste para os demais tipos de amores se faz importante quando na própria cultura clássica encontramos mais vocábulos que, de uma maneira ou outra, também traduzem o sentimento que modernamente conhecemos apenas como amor. Na obra de Aristóteles, deparamos com a palavra φιλíα, que no Latim ficou conhecida como philia, e chegou à modernidade como algo semelhante a amizade (mas pode ser, também, entendida como amor). Além deste, há o que se pode definir como amor apaixonado, ἔρως, transliterado para o Latim como eros e famoso em nossa cultura graças à apropriação do vocábulo pela Psicanálise.

Voltando a ágape: C.S. Lewis, famoso escritor cristão do século XX, reconhecido pela série de livros infanto-juvenis “As Crônicas de Nárnia“, escrevera certa vez um livro de não-ficção explorando a temática apresentada por Paulo em sua primeira e mais famosa epístola: “Os Quatro Amores” é uma breve, porém aprofundada reflexão sobre os amores cristãos, tomando como base suas origens filológicas e seus usos culturais através das épocas. Deste modo, apresenta a nós um novo vocábulo (στοργη, em Latim fraternal, para nós afeição) e inclui em seu exame os três já citados nos parágrafos anteriores: eros (mantido por Lewis na forma latina), amizade (ou philia) e caridade (eis ágape).

Quando Paulo escreve, portanto, que “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse Amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse Amor, nada seria”, o mais correto é supor que “amor”, neste contexto, é igual a “caridade”. Mas nossa cultura sampleou este texto à exaustão, e hoje em dia este mesmo amor sem o qual seu autor nada seria recebe as mais diversas leituras sem muita preocupação etimológica.

É quando entra em cena a coleção Amores Expressos, da editora paulista Companhia das Letras. Na ocasião do lançamento do projeto – inédito no Brasil e no mundo -, o meio literário e jornalístico causou certo frisson em relação ao mais novo empreendimento da empresa de Luiz Schwartz, cuja proposta era a seguinte: propor a dezesseis autores contemporâneos brasileiros uma viagem de um mês – custeada pela produtora RT Features, de Rodrigo Teixeira, idealizador do projeto – com a condição de que este autor, em sua estada, escrevesse um romance ambientado na cidade para a qual foi enviado. Não bastava, contudo, ser um romance: a ideia era que cada autor escrevesse, a sua maneira, uma história de amor.

Foi quando surgiu a polêmica – mencionada no último artigo da Estante, “O cinema vai à literatura” – envolvendo a editora, os autores e a Lei Rouanet (colocada em xeque recentemente ao liberar captação de R$1,3 milhão para a realização de um blog com poesias declamadas pela cantora Maria Bethânia). Na ocasião do lançamento, algumas revistas formadoras de opinião forçaram associação entre o projeto, a Lei, o contribuinte, a editora, a literatura, Deus e o mundo. Em linhas gerais: a proposta inicial do projeto previa, à Lei Rouanet, R$1,2 milhão em renúncia fiscal para a realização plena de seu projeto. Com a polêmica iniciada, Rodrigo Teixeira e a Companhia das Letras dividiram todos os custos e todo o projeto, enfim, foi inteiramente bancado por iniciativa privada. À editora, ficaram reservados os direitos de publicação.

Enfim, abandonando a polêmica: dentre os dezesseis autores selecionados para o projeto, estão os mais competentes romancistas brasileiros contemporâneos. Lourenço Mutarelli, Daniel Galera, Bernardo Carvalho, Antônio Prata e Luiz Ruffato são alguns dos nomes que integram o seleto grupo de escritores enviado para diferentes capitais ao redor do mundo (Xangai, Tóquio, Berlim, Cairo, Havana, Bombaim, Istambul, etc), cidades que sediaram as mais variadas histórias de amor desde que o primeiro autor chegou a seu destino previsto. Além disto, cada romancista recebeu a tarefa de manter um blog durante o mês em que vivera em sua respectiva capital, registrando impressões e compartilhando ideias que poderiam ou não ser usadas no futuro romance. Uma estratégia moderna e interativa de um projeto curioso.

Os amores expressos fazem menção tanto ao caráter intinerante do projeto quanto à necessidade de expressar amor através da arte. Há quem acredite – até mesmo autores – na presença do amor em todas as narrativas, como elemento intrínseco à expressão humana. Ainda que não seja o amor tal como estamos acostumados a reconhecer nas artes em geral (os “quatro amores” diagramados por Lewis), a ideia de que todos somos movidos por uma mesma busca – a do amor, logicamente – é potencializada em uma proposta literária como esta, que se assume pós-moderna desde sua constituição, admitindo a fragilidade das relações humanas (para citar Bauman e Fromm) na construção de um “rico mosaico literário, retratando em diferentes instantâneos o estado das relações e do amor contemporâneo pelo planeta“, como descrito na própria síntese do projeto. Independente das definições do autor britânico, o amor é importante também para estas pessoas.

O primeiro romance publicado pelo selo Amores Expressos foi “Cordilheira”, de Daniel Galera. Enviado para Buenos Aires, o autor deu início aos lançamentos da editora e foi seguido por seus colegas Luiz Ruffato (“Estive em Lisboa e Lembrei de Você” – Lisboa), Bernardo Carvalho (“O Filho da Mãe” – São Petersburgo), o também curador do projeto João Paulo Cuenca (“O Único Final Feliz Para Uma História de Amor é Um Acidente” – Tóquio), Joca Reiners Terron (“Do Fundo do Poço se Vê a Lua” – Cairo) e, ontem, Chico Mattoso (“Nunca Vai Embora” – Havana). Cada romance registra, além das impressões dos autores sobre as cidades em que viveram durante um mês, uma história de amor que, dependendo do autor e da leitura, pode ser um ou todos os amores ao mesmo tempo.

Recentemente, a TV Cultura anunciou a exibição de uma série de documentários diretamente envolvidos com o projeto da Companhia das Letras. Trata-se de nada menos que uma série de dezesseis episódios sobre os autores e as cidades com as quais tiveram de conviver durante 30 dias em suas pesquisas para os romances. Os cineastas Tadeu Jungle e Estela Renner (responsáveis pelo especial “Amor em 4 Atos”, baseado em canções de Chico Buarque e exibido pela TV Globo em Janeiro de 2011, acompanharam os autores em suas cidades-destino e realizaram filmes de vinte minutos que alternam entre a rotina dos autores nas capitais selecionadas e depoimentos dos mesmos durante o processo criativo.

A exibição dos documentários, na própria TV Cultura, já começou: no último dia 28 o primeiro episódio foi ao ar, tendo Antônio Prata e Xangai como protagonistas. De Maio a Agosto, uma vez por semana, um documentário será exibido na emissora, com direito a uma reprise. A série Amores Expressos vai ao ar toda quinta-feira, às 23h15m, e reprisa aos sábados, às 21h45m. Para mais informações sobre o projeto, a série de documentários e os autores envolvidos, o site mais recomendável é o do próprio projeto, a saber, http://www.amoresexpressos.com.br/

Teaser da série Amores Expressos:

Mais links interessantes:

- Entrevista dos cineastas Tadeu Jungle e Estela Renner ao programa Metrópolis, da TV Cultura

- Matéria no site O Globo Online sobre o projeto e a série de documentários


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