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Meu primeiro contato com a obra de Clarice Lispector se deu graças a um professor de inglês do ensino médio (salve, Ricardo!) e, na ocasião, fui apresentado a um de seus últimos livros lançados em vida (Clarice teve três de suas obras publicadas postumamente, sendo elas o romance Um Sopro de Vida, o infantil Quase de Verdade e a coletânea de crônicas Para Não Esquecer, ambos de 1978, ano seguinte ao de sua morte). O livro em questão? A prosa liquefeita e sinestésica de Água Viva, “romance” lançado em 1973.

Escrevo “romance”, assim entre aspas, porque quem teve a oportunidade de ler esta pérola de nossa literatura sabe do que estou falando. Ainda que não desconstrua a linguagem, como Joyce em seu Finnegan’s Wake ou (o contemporâneo de Clarice) Guimarães Rosa em toda a sua obra, Água Viva passa muito, muito longe de qualquer lugar-comum da estética moderna – que já propunha, como matriz comportamental, a fuga dos lugares-comuns de toda a literatura (e arte, de um modo geral) produzida até então.

A abertura de Água Viva é fascinante e ao mesmo tempo não dá nenhuma dica para o leitor: “É com uma alegria tão profunda. É uma tal aleluia. Aleluia, grito eu, aleluia que se funde com o mais escuro uivo humano da dor de separação mas é grito de felicidade diabólica. Porque ninguém me prende mais”. No mínimo, o leitor franziu o cenho. Mas isso está previsto, principalmente porque esse tom ambíguo acompanha a obra por todas as suas pouco menos de cem páginas (88, na edição da Rocco, responsável por todas as obras da autora).

Quem diria que esta escritora, considerada por muitos hermética e ininteligível, única brasileira convidada para um congresso de bruxas em Bogotá, no ano de 1975, “porque sua obra não é literatura, mas sim feitiçaria” (recomendo a leitura da biografia Clarice, escrita pelo norteamericano Benjamin Moser, publicada pela Cosac Naify), quem diria que esta autora peculiar em nossa cultura se tornaria pop e cult ao mesmo tempo, uma espécie de guru espiritual e sentimental dos solitários pós-modernos corações brasileiros.

Até aí tudo bem, afinal de contas a obra de Clarice Lispector está repleta de aforismos estupendos sobre amor, vida, morte, Deus e inúmeros outros assuntos de interesse coletivo. Uma de suas mais famosas reflexões, inclusive, está em Água Viva, quando ela recomenda que seu interlocutor “Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em ‘entender’. Viver ultrapassa todo entendimento”. Quem conhece esse trecho dá RT.

Redes sociais, a propósito. Foi quando o fenômeno apontado no título desta postagem começou a acontecer com maior expressividade e Clarice Lispector, de romancista e contista consagrada, se transformou em exímia frasista de uso emocional-pedagógico e recebeu status de autora de autoajuda, mais do que de qualquer outra denominação que lhe possa ser atribuída. A primeira perda (se é que assim podemos chamar) então se configura: muito se cita Clarice em Twitter e Orkut – aproveito para fazer coro com meu colega de blog, Ricardo Alves, em seu mais recente artigo: “céus, alguém ainda usa isso?” –, mas pouco se discute sobre sua obra.

O problema maior nem é o que compartilhei no parágrafo anterior, não. Afinal de contas, a obra está aí para que as pessoas desfrutem da maneira que bem entenderem, e se optaram transformar os contos e romances de Clarice em aforismos protossocráticos o que se pode fazer é aceitar. Mas a orkutização está além disso, a orkutização é mais nociva e está mais na cultura internauta do que se imagina.

Pra quem não sabe, a orkutização é um fenômeno próprio das redes sociais, que consiste na irrelevância de certa plataforma de comunicação online, dentre as inúmeras que pipocam pela web atualmente. A origem do nome vem da também rede social Orkut, a primeira a fazer sucesso no Brasil – na verdade, é um dos países que mais utiliza seus serviços ainda hoje, mesmo que o Facebook e o Twitter tenham conseguido expressivo reconhecimento em terras tupiniquins. Quando uma rede social está orkutizada, portanto, é o mesmo que dizer que esta chegou a um nível tão insuportável de compartilhamento de informações que muitas delas acabam se tornando mero engodo.

Aconteceu com Clarice Lispector, acreditem ou não. Inúmeros sites de “textos e frases para Orkut” iniciaram a real prática de mutilação de sua obra, cometendo os erros mais absurdos que se possa imaginar. Compartilharei três dos exemplos mais curiosos (e enervantes) nesta postagem.

Me chamou a atenção este parágrafo encontrado em um site destinado a formaturas, cujo menu oferecia a opção “textos para convite e discursos”, ou algo do tipo. Reparem:

“Gastei uma hora pensando um verso, que pena não quer escrever. No entanto ele está cá dentro inquieto, vivo. Ele está cá dentro e não quer sair. Mas a poesia deste momento inunda minha vida inteira. Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender. Viver ultrapassa todo o entendimento.” (Clarice Lispector)

O trecho é metade correto e metade completamente absurdo. Correto porque o trecho que começa por “Renda-se” e vai até o final da citação corresponde, como vimos, a um trecho do romance Água Viva, de 73. O absurdo vem da primeira metade do parágrafo, na verdade um poema chamado Poesia, de Carlos Drummond de Andrade – ou seja, escrito em verso, e não em prosa. Pobre Clarice, pobre Drummond.

Este é clássico, fez muito sucesso no Orkut (já que o tema é orkutização):

“Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais amargas, das drogas mais poderosas, das idéias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes… tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos. Você pode até me empurrar de um penhasco que eu vou dizer: – E daí? Eu adoro voar!” (Clarice Lispector)

Desafio o leitor a ler toda a obra de Clarice Lispector, e se ele encontrar este texto em qualquer um de seus escritos – ainda que um original nunca publicado – eu lhe deixo todos os meus bens materiais. Ainda que não vá (porque meus bens materiais não despertam interesse de ninguém, estou ciente disto), se o leitor procurar por este trecho na obra de Clarice nunca o encontrará, e a resposta é simples: este texto nada tem a ver com nada que ela tenha escrito.

Como confiar no que digo? Simples: este texto em prosa passa pelo mesmo problema que o de Drummond, no exemplo anterior: trata-se de um poema, desta vez de Bruna Lombardi, chamado Alta Tensão. Ainda não acredita? Confira no site oficial da atriz e poetisa. O pior de tudo é que o texto atribuído a Clarice é muito maior do que o mostrado aqui, e há um duplo erro: primeiro porque é um poema, segundo porque sequer este poema foi respeitado, sendo diluído em um texto imenso e completamente pueril. Digitem as duas primeiras orações do trecho apresentado e surpreendam-se. Pobre Clarice, pobre Bruna.

Preparem-se para o exemplo mais absurdo de todos:

“Não te amo mais.
Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis.
Tenho certeza que
Nada foi em vão.
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada.
Não poderia dizer jamais que
Alimento um grande amor.
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
EU TE AMO!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais…”
(Clarice Lispector)

Tenho pouco a comentar sobre este texto. Na verdade, é simples encontrar o erro nele: Clarice Lispector nunca escreveu um único poema em toda a sua carreira. É factual. Com um pouco de conhecimento sobre sua obra é possível perceber a fragilidade autoral desse texto, se atribuído a ela. A repercussão deste poema (inicialmente, de autoria anônima) é tamanha que chegou a ser analisado pela poeta e contista Betty Vidigal em seu Textos Apócrifos na Internet, coluna em que se propunha a investigar textos atribuídos a autores famosos cuja procedência era duvidosa. Aos interessados, eis a análise assaz pertinente do poema feita por Betty.

A própria Betty, em seu texto, confessa desconhecer a origem desta atribuição errônea da autoria do poema do último exemplo. O mesmo se aplica aos dois anteriores e a inúmeros outros que se encontram por aí, induzindo a mente dos internautas que ainda não tiveram contato direto com nenhuma de suas obras a um erro que transcende a questão da autoria e se dilui enquanto proposta estética. Pobre Clarice, pobre anônimo.

Combater a orkutização de Clarice Lispector é batalha que se começa perdida – a internet é mais viral do que se imagina (atribua o sentido que quiser ao adjetivo “viral”). O mínimo que se pode fazer é esclarecer, mas não é mistério de que ainda é pouco, principalmente porque ela não é a única autora cuja obra está mutilada: Shakespeare, Chaplin, Fernando Pessoa, Caio Fernando Abreu e Arnaldo Jabor são clássicos exemplos do fenômeno da orkutização autoral, que certamente, como tudo na internet, é maior do que se imagina.


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