Pela fresta
Alguém sempre me segue
Eu sinto
Que alguém me segue sempre
Esse alguém sempre me olha
(E está me vendo agora)
Eu grito!
Mas meu grito não me cala
Esse alguém calado está
E calado esse alguém fica
E se demora…
Não sei quem é esse alguém
Só sei que esse alguém existe
Nos cantos da minha vista
Sua sinistra sombra incide
Ele acompanha o meu rastro
Porque ouve cada galho
Que eu estalo ao pisar
Percebo:
É melhor eu ir embora
Penso dever do divã
Ligeiro me levantar
Porque se me aconchego
Logo chega minha hora
Mas se acaso comemoras
Breve sua hora chega.
Japeri
Encaro de modo analítico
A semibalbúrdia da tarde
Bafejo um alívio crítico:
Vou-me embora dessa cidade
Minha alegria contida
Julgam ser seriedade
Quando por dentro desabo
Grito, choro e me gabo
Vou-me embora dessa cidade!
Sabes há quanto que sonho com isso?
Permanecer nunca foi opção
O sangue e o barro e o ódio e o riso
Riso de escárnio, choro de cão
O sangue é de Cristo; o barro é meu pão
Meu Pai, nunca fiz, nunca quis nada disso!
Essa gente, essa hora, essa porra
Isso, não.
Vou-me embora dessa cidade
E nunca haverá em meu peito saudade
Mas na verdade ela não é ruim
Só que nada dela foi feito pra mim.
[A imagem que ilustra o post é do filme As Confissões de Henry Fool, de Hal Hartley]


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