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Segundo artigo da série sobre o maior poeta em língua portuguesa do século XX fala sobre as “outras pessoas” de Pessoa e sobre como seu poema “Autopsicografia” é uma chave para o entendimento do mistério psicanalítico que envolve outros três poetas famosos e dezenas de outras vidas criadas a partir da imaginação do mesmo homem.

Na semana passada, a Estante deu início à série de textos sobre Fernando Pessoa, relacionando seu poema Autopsicografia – e sua obra como um todo, indiretamente – a pressupostos estéticos sobre a arte ocidental apresentados ainda na Antiguidade Clássica por pensadores como Platão e Aristóteles. Não há a necessidade de ter lido o artigo anterior para entender este, mas vale a recomendação (para visualizar o texto “Fernando Pessoa e a mimesis” clique aqui).

É sabido que Fernando Pessoa possui outros três nomes famosos: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis. Ou melhor, ele não os possui, eles os é. Esta complexa definição – que será explicada posteriormente – é elemento central deste texto, uma vez que parte daí toda a discussão a respeito do quadro clínico de Pessoa, diagnosticado como Psico Maníaco Depressivo pela psicologia moderna. No entanto, o estudo da heteronímia e da ortonímia em Fernando Pessoa transcende tais conclusões e realiza interessantes descobertas a respeito da arte, do artista e do cidadão moderno.

Heterônimo, por definição etimológica, é o nome diferente. Diferente do pseudônimo, cujo significado é nome falso, a heteronímia é um processo de ficcionalização de uma pessoa, conferindo à ela personalidade própria. O pseudônimo, por outro lado, é apenas um nome, sem qualquer profundidade. Um exemplo, ainda na literatura, seria o de Lewis Carroll, autor de Alice no País das Maravilhas, cujo nome verdadeiro é Charles Lutwidge Dodson. O caso de Fernando Pessoa, contudo, é completamente diferente.

Tomando como exemplo Álvaro de Campos, pode-se perceber que este pouco tem em comum com seu criador: estudou Engenharia Mecânica e Naval na Escócia, escreveu poemas inspirado no Futurismo e possui extensa obra. Pessoa, por sua vez, escreveu muito pouco e seu único livro em língua portuguesa é Mensagem – os outros três títulos foram escritos integralmente em inglês. O que se pretende, com estes dados, é tornar evidente a independência de cada heterônimo de Pessoa, seja em vida ou em obra.

Cabe aqui um comentário curioso: cataloga-se, entre heterônimos, pseudônimos, personagens fictícios e outras figuras específicas de pouca expressão em sua obra nada menos que 72 nomes – dentre os quais os destaques são os três poetas já citados e Bernardo Soares, que de tão parecido com o próprio criador chega a ser confundido com ele na autoria de Livro do Desassossego. Outras pessoas inventadas por Pessoa são: David Merrick, Gabriel Keene, Joaquim Moura Costa, Antônio Gomes, Pero Botelho e João Craveiro, entre outros.

A ortonímia, por sua vez, pode ser entendida como o nome real. Diz respeito, então, ao próprio Fernando Pessoa, evitando maiores confusões entre criador e criaturas. O que se vê, no entanto, é que após tantos heterônimos o próprio criador tornou-se criatura de si mesmo, ou seja, passou a ocupar a posição de apenas mais um desdobramento de sua imaginação. Costuma-se, por isto, referir-se a Pessoa (o criador) como “Fernando Pessoa ele-mesmo”, chamando a atenção para a obra publicada em seu próprio nome.

Autopsicografia, o poema apresentado no artigo anterior, é de autoria de Fernando Pessoa ele-mesmo, não sendo atribuído a nenhum de seus heterônimos. Trata-se de um poema-chave, escrito pelo personagem-chave da história que diz respeito ao intenso processo de criação artística e – no caso particular de Pessoa – criação do próprio ser humano. Retomando, então, a primeira estrofe do poema, tem-se:

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

Observando o todo semântico do quarteto inicial do poema, fica evidente a relação de seu autor com o fingimento apontado logo em seu primeiro verso. Sendo o próprio Fernando Pessoa um poeta, torna-se óbvia a associação de sua figura com a denúncia do artista sobre o processo de criação artística. A dor de Pessoa, entretanto, parece não ter bastado em si mesma, levando-o a criar diferentes vidas no intuito de fingir, através destes heterônimos, a tal dor que sente e que é fingida pelo poeta.

Linha temática fundamental na poesia de Fernando Pessoa, a fragmentação do “eu” lança luz sobre estes aspectos peculiares de sua vida. O poeta é, a um só tempo, ele mesmo e tantos outros que não o permitem ver sua real identidade. Não se vê, por exemplo, Ricardo Reis referindo-se a Pessoa como um pai, um Deus, nada do tipo. Cada personalidade é única, veio de si mesma, não atende a qualquer desejo ou vontade do poeta principal deste texto. Ou seja, Fernando Pessoa não é superior a nenhum de seus heterônimos, está sempre em pé de igualdade ou até mesmo abaixo de suas obras.

O conceito de espaço interior foi criado pelo filósofo português José Gil, que cunhou este termo enquanto estudava a obra de Pessoa. Diz-se do espaço interior que é o local psíquico da criação metafórica, poética, e que comporta desdobramentos de um mesmo ser. Sendo interior, este espaço é o que resguarda o ser humano de entregar-se à loucura, pois as realiza internamente. O poeta, nesse sentido, as realizou também externamente, porém conservando o equilíbrio de seu espaço interior – para Gil, dado fundamental.

Mesmo assim, sua obra não está isenta de conflitos estilísticos: a poesia de Fernando Pessoa ele-mesmo é marcada, entre outros fatores, por uma inquietação constante no que diz respeito ao conflito entre pensamento e sentimento. Talvez por desejo de alcançar a harmonia entre duas correntes tão específicas é que o autor tenha criado outros nomes, experimentado outras vidas, de modo que nelas pudesse entrar em contato com os meandros de sua angústia existencial.

É curioso voltar, porém, ao poema e perceber a ironia lançada pelo autor em sua breve dissertação sobre o fingimento do poeta. Organizando as informações já coletadas, vê-se que: o poeta sente a dor, transforma a dor em fingimento, cria a partir da dor fingida – e sua criação é completamente sincera quanto ao processo pelo qual o próprio autor teve de passar na feitura de seu texto. A sinceridade que, dentro de um fingimento, fala de outra sinceridade. Um nó psíquico digno de A Origem.

[imagem na página principal que ilustra este artigo: João Beja]


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