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Ele acordará às 9h27min, mesmo tendo a permissão divina do seu próprio despertador para ficar na cama até as nove e meia. No entanto, ficará esperando o bip bip incessante do relógio para levantar e recomeçar a vida. E nesses três minutos pensará em Rebeca. Pensará nos olhos castanhos de Rebeca, nos cabelos compridos até a cintura de Rebeca, e pensará no jeito que Rebeca arruma seu cabelo, jogando-o para trás da orelha, e automaticamente pensará em como ele não gosta de cabelos que se escondem atrás das orelhas, e então pensará que nada pode fazer a respeito, afinal os cabelos não são seus, e nem dela, pois, apesar da menina ser real, tudo isso é a sua imaginação.

Às 9h44min terá terminado de tomar seu banho. Escolherá seu melhor perfume, fará a barba, e se vestirá com uma das suas camisetas favoritas, a cueca e o par de meias que estiver mais próximo do seu alcance (fato curioso este, de vestir a camiseta antes de qualquer outra peça), os mesmos jeans que se encontram pendurados na porta do armário do seu quarto. Não calçará seus sapatos, não suporta sapatos, e calçar os seus sapatos é a última coisa que fará antes de sair de casa.

Quando o relógio da cozinha marcar dez horas, que é a hora em que ele sempre sai de casa, já terá sido 10h05min, porque os relógios nem sempre detém a verdade, e assim como os humanos, que têm opiniões diferentes sobre diversos assuntos, os relógios também têm opiniões que diferem entre si no único assunto que lhes diz respeito, informar as horas. Mas consideraremos o horário correto, 10h05min, sem levar em conta a indecisão de alguns relógios, que, por motivos desconhecidos, formam oposição na tão conturbada política dos horários. Às 10h07min, Joaquim, esse é o nome do nosso protagonista, estará correndo atrás do ônibus, que decidiu se precipitar por alguns segundos, dificultando a organização exagerada de Joaquim e de tantos outros que sofrem do mal da pontualidade. Porém, doze minutos depois, também precipitado, estará passando outro ônibus, e desta vez não haverá motivos para que Joaquim não embarque.


No ônibus, Joaquim pensará muito em Rebeca, nos dedos repletos de anéis de Rebeca, na tatuagem do pé esquerdo de Rebeca, que só se deixa mostrar nos dias de temperaturas mais altas, quando a predileção por sandálias deixa à mostra três estrelas muito pequenas, uma rosa, uma amarela, e uma azul. Esse devaneio involuntário (ou não) de Joaquim durará exatos catorze minutos e 29 segundos, tempo que começará a ser contado a partir do momento que Joaquim escolhe um banco no ônibus, até o momento em que levanta do mesmo banco, pois finalmente chegará – atrasado, contra qualquer expectativa tanto de quem o espera quanto dele próprio, se não tivesse confiado seu destino ao relógio da cozinha – ao restaurante em que combinara de se encontrar com Paola, sua namorada.

Joaquim verá Paola acenando do outro lado da rua, e então pensará mais uma vez em Rebeca: os olhos, o cabelo, as mãos, a tatuagem, e a sua pele branca, muito branca, tão branca quanto a de Paola, e talvez por esse motivo essa lembrança vá aparecer justamente neste momento tão inoportuno. Às 10h34min, Joaquim, que estará quatro minutos atrasado – a não ser que consideremos o seu próprio relógio da cozinha, piada esta que Joaquim pensará em fazer para explicar o seu inesperado atraso – não notará que o sinal acabara de ficar verde de novo, atravessará a rua correndo, e, talvez pela ânsia de chegar o mais rápido possível ao outro lado, ao encontro de Paola, ou simplesmente porque a sorte não estará, talvez porque nunca esteve, ao seu lado, será atingido por um carro, cujo motorista será demitido algumas horas depois deste acidente, por justa causa (o motorista apressado perguntará ao chefe Porquê, e o chefe responderá calmamente que não tolera atrasos, ainda mais em excesso, como vinha acontecendo). O impacto será fatal, e às 10h35min, Joaquim pensará em Rebeca pela última vez, coincidentemente também será a última vez que ele irá respirar.

Às 10h35min, Rebeca, que nunca trocou uma palavra com Joaquim, e que possivelmente nem saiba o seu nome, por sentarem em lados completamente opostos no local aonde trabalham, acordará subitamente, assustada com alguma coisa que ela não sabe o quê, como um pesadelo que se esvai no primeiro milésimo de segundo com os olhos abertos, olhará para o relógio, que estará apontando 10h40min, e pensará, Acho que perdi o sono, e então irá para a cozinha preparar um café.

(“Persistence Of Memory”, de Salvador Dali, ilustra o post.)


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