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Três obras do século XX revelam como a Literatura assimilou e converteu em tema os novos paradigmas da vida a dois.

Discutir a relação é atitude moderna. Pelo menos para a literatura. Não é necessário pesquisar muito para perceber que cânones mundiais como Jane Austen, Stendhal, Flaubert, Balzac e Tolstói, apesar de seus célebres romances, nunca escreveram um capítulo sequer que fosse uma inflamada discussão entre casais em seus livros, a hoje famigerada DR. Apenas casais de romances escritos a partir do século XX levam suas angústias e frustrações conjugais ao conhecimento do outro gerando assim brigas de proporções épicas, separações traumáticas ou nada além de um acerto de contas emocionais digno, maduro – e raro nos muitos casos reais.

Se à literatura de épocas anteriores não interessava o registro desta peleja psicanalítica, a razão é simples: não havia Psicanálise. Chega a ser estúpido, de tão óbvio, mas é a verdade. A resposta está na própria produção literária do século XX, da qual a grande maioria dos autores foi buscar na obra de Freud material psicológico para sustentar suas pretensões estéticas – não por acaso resultando em obras onde os casais discutem em escala muito maior a do século anterior. Um escritor contemporâneo a Freud e também austríaco, no entanto, soube desenvolver no campo artístico as mesmas questões apresentadas pelo pai da Psicanálise em sua obra científica: Arthur Schnitzler.

Uma de suas obras mais famosas, Traumnovelle (1926), traduzida para o português como Breve Romance de Sonho, é uma das primeiras novelas a apresentar aspectos temáticos comuns à Psicologia e, com mais ênfase, à Psicanálise. Na trama de Schnitzler, o casal protagonista enfrenta uma fase difícil do matrimônio, provocada pela revelação de um sonho erótico de Albertine ao marido, Fridolin. Neste sonho, Albertine está não com seu cônjuge, mas com um marinheiro com o qual – revela depois – havia pensado em fugir numa viagem feita pelo casal. Fridolin, então, passa a questionar sua moral e sua conduta em relação à esposa, ao mesmo tempo em que busca coragem em si mesmo para consumar aventuras amorosas nunca vividas e desejos íntimos nunca revelados.

Menos nebuloso que a trama de Schnitzler (adaptada para o cinema por Stanley Kubrick com o título De Olhos Bem Fechados, em 1999) é Cenas de um Casamento Sueco (1973), livro que é também roteiro do filme Cenas de um Casamento, do cineasta Ingmar Bergman. A obra realiza o flagra de seis diferentes momentos do casamento de Johan e Marianne ao longo de 20 anos de matrimônio, da irretocável harmonia conjugal à mais violenta crise. Onde o autor austríaco faz uso da sugestão, Bergman substitui pelo escancaramento: praticamente tudo o que um casal poderia dizer em relação ao outro fica aqui expresso, palavra por palavra. O texto de Bergman não subentende confissões, não mascara argumentos e – mais do que qualquer outro comportamento adotado pelo casal – faz com que um declare ao outro suas mais ferinas perversões.

Pouco mais de duas décadas após o estudo de Bergman, uma peça inglesa não só atualiza o tema como deixa de girar em torno de um casal protagonista. Closer – Perto Demais (1997), de Patrick Marber (levado às telas em 2004 por Mike Nichols), apresenta quatro personagens distintos, duas prováveis combinações na formação de um casal e apenas um caminho possível: o da extrema frustração. Aqui o casamento, enquanto instituição familiar, não é visto como modelo falido: ele sequer existe. A sociedade contemporânea já superou sua fragilidade e a única exigência emocional continua sendo a fidelidade. O texto de Marber, então, evidencia que é justamente por causa dela (ou por causa de sua ausência, pode-se contrapor) que os quatro se decepcionam e decepcionam, por conseqüência, uns aos outros.

Esta específica abordagem das relações humanas, com suas naturais variáveis de acordo com a época em que as obras foram concebidas, apresenta uma nova preocupação temática levantada por muitos outros escritores no decorrer do século XX. Nota-se, por exemplo, que nos 50 anos entre Breve Romance de Sonho e Cenas de Um Casamento Sueco, o não-dito do primeiro vira o tudo-dito do segundo texto; o fato sonhado se torna fato vivido; o divórcio como rompimento da união civil passa a existir; e o breu da infidelidade converte-se em mera sombra.

De Bergman a Marber (24 anos entre um e outro, menos da metade do tempo entre aquele e Schnitzler), a mudança é tão grande a ponto de eliminar o casamento como uma realidade e borrar fronteiras entre quem são os casais e os amantes, além de deixar cada vez mais complexa a definição de vontade (como necessidade individual) e de fidelidade (como bem de valor compartilhado). O que se observa, neste percurso de quase 100 anos, é que a literatura descobriu, como recurso estético, outras situações além do matrimônio na compreensão do comportamento do sujeito moderno – fator social determinante nas narrativas dos séculos anteriores.

Social e historicamente falando, é certo afirmar que as revoluções morais acerca da questão de gênero possibilitaram, também, essa mudança de paradigma. Mas a primeira grande contribuição no campo científico e artístico ocorreu, seguramente, através do desenvolvimento da Psicanálise. Portanto, se você é frequentemente convidado para uma DR, não culpe sua namorada (considerando que, pra você, o casamento também já era): culpe Freud – e inclua no rol de inimizades intelectuais 90% dos artistas do século XX – ou apenas lamente o fato de ser um sujeito moderno.

Breve romance de sonho, de Arthur Schnitzler. Companhia de Bolso, 2008. 103 págs.

Cenas de um casamento sueco, de Ingmar Bergman. Nórdica, 1973. 155 págs.

Closer, de Patrick Marber. Groove Press Books, 1999.  123 págs.


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