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Uma análise da fuga no primeiro filme de Michael Haneke.


A “militância” da psicologia, que, por sua meticulosidade, é abordada de maneira quase acadêmica no cinema de Michael Haneke, é algo muito curioso (para o bem e para o mal) e que foi se refinando ainda mais com o tempo. Seus filmes, antes muito mais parecidos com teses filmadas, ou em certo aspecto, documentários, foram equilibrando cada vez melhor a apresentação de uma tese e a realização de uma obra artística através dos anos, como mostraria em A Fita Branca, seu último filme até agora.

Em O Sétimo Continente (Der Siebente Kontinent, no original, de 1989), vemos o início de tudo: neste, que é o primeiro filme da chamada Trilogia da Era Glacial – cujos outros filmes são, respectivamente, O Vídeo de Benny (1992) e 71 Fragmentos de uma Cronologia do Acaso (1994) e que formam, juntamente com o filme ora analisado, uma espécie de trilogia da incomunicabilidade – sua proposta já é muito interessante e promissora. Enquanto eu via o filme, entendi que o que Haneke queria era matar o espectador de tédio pra mostrar, rasamente falando, o tédio com o qual a família protagonista (que realmente existiu, e realmente deixou de existir) se contamina, e o seu suicídio como consequência de tudo isso.

E ele conseguiu. Apesar de, numa análise mais cerebral, o filme ser extremamente feliz em retratar o que propõe, imagino que, assim como em Violência Gratuita (de 1997 – seu primeiro filme após a trilogia), que tinha como objetivo único testar os limites do voyeurismo sanguinário do espectador (o mesmo que anda mais devagar com o carro pra ver o acidente na estrada, ou que assiste com inconfessável sadismo à mais nova tragédia eleita pela mídia como absurda e intolerável – e que invariavelmente leva a passeatas pela paz na orla do Leblon), O Sétimo Continente tem apenas o objetivo de passar, com o máximo de fidelidade e sem despertar no espectador qualquer sentimento que não seja o que a família parece sentir ao longo da fita, a rotina daquela gente, e tentar, com isso, mostrar o que os levou àquela situação. Portanto, O Sétimo Continente está na seleta lista dos filmes que me fazem separar a qualidade da sua mensagem do prazer em vê-lo. Não senti exatamente prazer em ver este filme – e muito menos em ver Violência Gratuita, que por duas vezes não consegui terminar – mas entendo plenamente que alguns filmes não são feitos para agradar do jeito mais fácil. E os filmes de Haneke são deste tipo.

O que vemos na tela não é a história de uma família apenas, mas parte-se dela para mostrar a doença – literalmente – mortal que acomete a sociedade moderna. Émile Durkheim, cuja obra (o também psicólogo e filósofo) Michael Haneke certamente conhece melhor que eu, já apontava para este fato, e o conceito durkheimiano de anomia é o cerne deste filme. Uma vez que o homem moderno percebe, com a constante mudança das estruturas sociais, a perda gradual das instituições a que se apegava, esta perda de referências faz com que ele não mais encontre seu lugar na sociedade.

Há que se falar na emblemática cena em que a filha do casal, aparentemente carente de atenção, alega estar cega na escola. O que chama a atenção no desenrolar da história é o fato de que, quando a mãe descobre a farsa, dá um tapa em sua filha – algo visivelmente exagerado. Percebe-se, então, que o tédio da mãe era superior ao da menina, e que a frustração por descobrir que a rotina não realmente mudara (mesmo que a mudança custasse a visão da filha) causara-lhe tal reação: a frustração da expectativa de mudança, qualquer que fosse, foi forte o suficiente para levá-la a uma atitude violenta e completamente destoante do resto do filme.

Muito se ouve falar da, para nós, brasileiros, geralmente indecifrável depressão em massa que assola os países cuja população teoricamente menos teria problemas. Mas uma parte do problema estaria justamente nisso: muita educação provoca maior sensibilidade às coisas banais; uma vida cujo ideal já foi atingido – se seu único problema é o seu chefe e ele é demitido? – causa a perda de referências futuras – uma vez dada a perda daquelas referências superiores, que seriam as instituições, hoje em constante processo de falência; e quando lhe sobra apenas idealizar uma distante Austrália, mas, no fundo, você sabe que não vai fugir de si mesmo, é hora de partir não para este sexto continente, mas para outro lugar. Um sétimo, desconhecido, onde talvez você não tenha a pressão de ser você mesmo e de encontrar um lugar no mundo. Assim como fazemos quando vamos viajar, a família planeja essa viagem.

Nem na iminência da morte as coisas fogem à rotina da família. É uma repressão, uma contenção extremamente forte. A mãe faz o café da manhã, o pai amarra seus sapatos, a filha faz a sua oração. O filme faz questão de repetir à exaustão o ritual familiar de uma família que só peca por ser perfeita e que não sabe mais pra onde ir – só que precisa ir. A única parte que foge ao conformismo de não mudar as coisas em volta, mas simplesmente fugir delas, é a da meticulosa destruição de tudo o que representava a vinculação da família a este mundo. Todos os móveis, as roupas, os objetos da casa foram destruídos, aparentemente com um grande prazer. Aliás, a palavra “prazer” não é nem de longe a apropriada, mas sim a palavra alívio.

Na destruição dos objetos da casa, houve uma exceção e um arrependimento, e eles são particularmente importantes como objeto de análise. A exceção foi a TV: eles se matam vendo shows musicais; a arte como instrumento de fuga levado ao limite – e eu sinto que o Haneke me jogou uma indireta. Mas eles não são maus. Isso não tem a ver com perversão: é niilismo, escapismo puro. A cena em que o pai quebra o aquário – o arrependimento supracitado – mostra bem isso. Eles, na verdade, não desejam fazer mal a mais ninguém, e nem querem que pensem que a decisão que tomaram é algum mal para eles, como certamente explicam na carta de despedida. Carta esta que seus familiares ignoram, pedindo uma investigação do caso e preferindo acreditar, mesmo contra todas as evidências, num assassinato. Fugindo, assim, da verdade – e comprovando que a fuga, nos mais variados níveis, tende a atingir a todos nós.

Ficha técnica:

Nome: Der Siebente Kontinent (O Sétimo Continente/PT-BR)

País: Áustria

Ano: 1989 – 105 min.

Direção:  Michael Haneke

Roteiro Michael Haneke e Johanna Teicht

Elenco: Birgit Doll, Leni Tanzer

Gênero: Drama

Estúdio Wega Film


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