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Chamam-no de gótico, de fúnebre, de sombrio; sua aparência chama a atenção para os traços delgados, quase caricaturais, como se ele próprio fosse um personagem; seus textos, extremamente ricos no uso da língua inglesa, impressionam pela intensa carga psicológica e por provocar medo com a mesma freqüência com que exercem fascínio. Pergunta: de quem estou falando? Resposta: de Edgar Allan Poe. E de Nick Cave.

O leitor há de concordar comigo quando digo que a descrição acima faz jus tanto ao poeta quanto ao cantor. Poe, um dos maiores realizadores da literatura estadunidense, foi apresentado ao mundo pelo francês Charles Baudelaire – antes, se resumia a um sombrio homenzinho (o poeta era pequeno, tinha pouco mais de um metro e meio) cuja escrita causava tanta estranheza quanto o homem por trás da pena.

Cave, por sua vez, alcançou a fama liderando a banda de pós-punk The Birthday Party (cujo primeiro nome era The Boys Next Door), na qual vociferava letras agressivas e desesperadas – característica que o acompanharia em seu mais duradouro e bem-sucedido projeto: os Bad Seeds. De 1977 (ano da formação do Boys Next Door) até hoje, Nick Cave já concebeu centenas (!) de hinos mórbidos, baladas funestas e verdadeiros tratados sobre a obscuridade humana.

As semelhanças artísticas entre o escritor norteamericano e o cantor australiano são tantas que julguei conveniente compartilhar algumas impressões de ordem crítica e estética em dois textos, um de cada autor – deixando claro que Cave também compõe, e de acordo com as conclusões tiradas no artigo “Palavra sonora, som textual” (para ler o texto, clique aqui), é possível utilizar letra de música como objeto de uma análise literária. Pois bem, às obras:

“Annabel Lee”, o poema de Edgar Allan Poe, foi um dos últimos textos escritos pelo autor, em 1849, ano de sua morte. Trata-se de uma sentimental e melodiosa balada sobre amor, solidão e morte narrada em poucas estrofes (6 no total), da qual a inspiração ainda rende incertezas – embora se costume creditar a esposa de Poe, Virginia Eliza Clemm, morta em decorrência de uma pneumonia, como real inspiração para o poeta.

“Henry Lee”, a canção de Nick Cave, integra o álbum “Murder Ballads”, de 1996, nono de estúdio dos Bad Seeds. Trata-se (e lá vem o déjà-vu) de uma sentimental e melodiosa balada sobre amor, solidão e morte narrada em poucas estrofes (5 no total), da qual a inspiração vem de uma canção folk escocesa chamada “Young Hunting” – adaptada por Bob Dylan em seu disco “World Gone Wrong” com o título “Love Henry”. Mas não apenas por Dylan: há pelo menos 30 diferentes registros da canção, com títulos e letras diferentes.

A proposta de análise parece perder força, após estas informações sobre “Henry Lee”. Só parece mesmo, porque o que torna possível esta correlação é justamente a roupagem de Nick Cave para a tradicional balada. Inicialmente, reparem em alguns títulos creditados à mesma narrativa: “Young Hunting”, “Love Henry”, “Lowe Bonnie”. A versão utilizada neste artigo, no entanto, chama-se “Henry Lee”, realizando a primeira aproximação com “Annabel Lee”, o poema.

É importante, agora, resumir a história contada por ambos os textos: em “Annabel Lee”, o enunciador ama intensamente a mulher que dá nome ao poema, e o amor entre eles é tão forte que provoca a ira dos anjos. Estes, por sua vez (na compreensão do eu-lírico), levam a vida de sua amada, mas não conseguem diminuir a intensidade de seu sentimento, uma vez que ele continua amando Annabel Lee, acreditando que suas almas ainda estão conectadas, embora fisicamente afastados.

“Henry Lee” é sobre um impasse: o rapaz ama uma mulher que está distante, em outra terra, mas é constantemente assediado por outra mulher a deitar-se com ela. Após negar veementemente o convite, Henry é esfaqueado pela mulher e atirado a um poço. Seu corpo, boiando, torna-se pouso de um singelo passarinho. A versão de Cave vai até aí, mas a canção original avança até a descoberta do crime e a condenação de sua executora – o que, evidentemente, não interessa a esta análise.

Ficou entendido que, apesar de a premissa não ser original, a versão de Cave pode ser assim admitida pela construção diferenciada e, principalmente, pelo refrão adicionado ao fim de cada estrofe – recurso ignorado pelas demais versões. A repetição dos versos “La la la la la/La la la la lee/A little bird lit down on Henry Lee” reforça a noção de balada, afastando-a da clássica estrutura narrativa (e sem repetições) das canções folk.

Foi dito que “Annabel Lee” é também uma balada, correto? Pois bem: os recursos utilizados por Poe na construção de seu texto são parecidos, se é necessário mencionar um refrão como marca estilística de uma balada. A diferença se dá na maneira com que os versos deste refrão se relacionam, diferentemente do que ocorre em “Henry Lee”: se a imagem do passarinho pousado no cadáver de Henry é revisitada ao fim de cada estrofe, o poeta estadunidense brinca com os versos em diferentes pontos das estrofes.

Explico: o verso que pode ser chamado de refrão de “Annabel Lee” é “in this kingdom by the sea”, este articulado a vários outros versos terminados em “me”, “sea”, “we” ou mesmo “Lee”. Deste modo, cada estrofe do poema contém o verso “in this kingdom by the sea” e algum outro com as terminações dadas acima. Para ilustrar, um exemplo:

“It was many and many a year ago,
In a kingdom by the sea,
That a maiden there lived whom you may know
By the name of Annabel Lee;
And this maiden she lived with no other thought
Than to love and be loved by me”.

Em “Henry Lee”, Cave vale-se do mesmo recurso com: “Lee”, “me” e “thee”. Veja:

“Get down, get down, little Henry Lee
And stay all night with me
You won’t find a girl in this damn world
That will compare with me
And the wind did howl and the wind did blow
La la la la la
La la la la lee
A little bird lit down on Henry Lee

Se “Annabel Lee” possui apenas um enunciador, “Henry Lee” admite dois: o próprio Henry do título e sua pretendente. Cedendo uma estrofe a cada personagem, alternadamente, Cave dinamiza o desenvolvimento de seu texto, com o poema situado apenas no tempo presente, sem qualquer ação no passado – ao passo que Poe, com seu único “narrador”, explora outros tempos de enunciado quando pretende apresentar mais informações sobre a história. Em “Henry Lee”, por ser um diálogo, essas informações são passadas na enunciação de cada personagem, evitando deslocamentos temporais.

(o único momento em que “Henry Lee” não reproduz a fala de nenhum dos personagens é a estrofe em que a mulher dá cabo da vida de Henry – o deslocamento da primeira para a terceira pessoa então ocorre, mas não volta a se repetir no texto)

A primeira estrofe da composição, no entanto, antecipa o desfecho trágico através do refrão. Sabe-se que “a little bird lit down on Henry Lee”, mas o motivo ainda não é conhecido. Brincando com a expectativa do leitor/ouvinte ao repetir este refrão, o eu-lírico conduz sua narrativa até seu clímax – o assassinato do protagonista – e “junta as peças” cantadas no meio do caminho. O poema, nesse sentido, dá também suas pistas na primeira estrofe, através do verso “a maiden there lived whom you may know”.

É válido lembrar que, além de ser uma balada, a letra de Cave é 50% persuasiva (na porção que cabe à mulher) e 50% negativa (no que diz respeito à resposta de Henry), o que justifica as repetições dentro de cada verso, em quase todos os versos de todas as estrofes. Annabel Lee, no entanto, é mais reflexivo, avançando cronologicamente até o tempo do enunciador, ou seja, o momento em que o eu-lírico está contando sua história.

Outro elemento interessante em cada texto é a causa mortis de seus personagens principais (embora Annabel Lee não seja a principal do texto com seu nome, é a razão da existência do mesmo). Poe escreve sobre a inveja dos anjos, criaturas divinas que manifestam emoções humanas e agem contrariando as expectativas do enunciador. Os seres que deveriam protegê-los do mal são quem, na verdade, causam a tragédia.

“Henry Lee” nega a presença de figuras místicas, centralizando todas as ações no próprio Henry e em sua pretendente. Na ausência de anjos que invejassem o amor do jovem por sua “girl in the marry green land”, a mulher ignorada é quem dá cabo da vida de seu amado. O vento, no entanto, é marcado por ambos os textos: em “Annabel Lee”, “A wind blew out of a cloud, chilling (…) Annabel Lee”, ou então “the wind came out of the cloud by night/Chilling and killing (…) Annabel Lee”.

No texto de Nick Cave, o vento é registrado de diferentes maneiras ao longo das estrofes. Pode-se dizer que os verbos atribuídos ao vento, no poema, atendem à gradação do drama desenvolvido entre Henry e sua pretendente. Assim, “Henry Lee” registra quatro manifestações do vento: “and the wind did howl and the wind did blow” sendo a principal delas, e “and the wind did roar and the wind did moan” no momento em que Henry Lee é esfaqueado por sua interlocutora rejeitada.

Quanto às conclusões, “Annabel Lee” é mais dramático e igualmente belo: o eu-lírico está à espera do momento em que poderá estar com sua amada novamente, e enquanto isso fica no “reino ao pé do mar” tecendo loas a seu amor tragicamente afastado de si. Versos como “And neither the angels in heaven above,/Nor the demons down under the sea,/Can ever dissever my soul from the soul/Of the beautiful Annabel Lee.” falam por mim mais do que qualquer coisa que eu pudesse dizer a respeito.

Em “Henry Lee”, quem dá a última palavra é a algoz do próprio Henry, ao tornar (para o leitor, uma vez que Henry está morto, embora ela dirija-se a ele) explícito o motivo de ter feito o que fez: “Lie there, lie there, little Henry Lee/Till the flesh drops from your bonés/For the girl you have in that merry green land/Can wait forever for you to come home”. Prova de que os tempos e as histórias mudaram, as situações idem, mas uma boa história de amor ainda parece rimar muito bem com aquela outra palavra: dor.

Clique nos links abaixo para ler os textos na íntegra:

Poema “Annabel Lee” original e tradução (feita por Fernando Pessoa).
Letra de “Henry Lee” original e tradução.

“Annabel Lee” em versão feita pela banda alemã Sweet Sister Pain (cantada em inglês):

Videoclipe oficial de “Henry Lee”, com participação de PJ Harvey:


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