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Para algumas pessoas a vida é muito longa, e eu realmente não sei o que pensar. Só sei que vinte e sete me parece um bom número de anos pra se viver – que o digam Kurt, Janis, Jim, Jimmy… e todos os anônimos cuja tristeza eu nunca poderei conhecer.

Uma nostalgia do que não vivi é um sentimento recorrente em mim: talvez seja o que chamam de melancolia – e talvez eu receba um atestado que me permita voltar pro meu quarto e não sair de lá. Até os vinte e sete anos.

Eu nunca tive ninguém, então não posso ter certeza do que estou sentindo: pode ser amor, mas talvez seja desespero – que, acredite, é um sentimento muito mais forte e duradouro.

Imagine (mas não por muito tempo; isso pode te deixar louca): um garoto, ouvindo o seu vinil dos Smiths, e com a metade de cima do corpo pendendo para fora da janela do seu quarto. As lágrimas se formam tão rapidamente a cada verso proferido por Morrissey (o único suicida vivo que conheço – além desse garoto que descrevo) que o garoto, olhando o chão do prédio de lá do oitavo andar, observa as gordas gotas geralmente salgadas e momentaneamente amargas se espatifarem, penetrando o concreto, se desfazendo, deixando de ser salgadas, deixando de ser amargas, deixando de ser. E inclina seu corpo um pouco mais.

Não, minha querida. Eu não estou falando de mim. Esse garoto, coitado, é louco. Mas acredito que ele só faça isso nos seus dias ruins – todos temos dias ruins, não? Tenho certeza de que, se ele tivesse algum amigo, eles sairiam pra beber e faria o que as pessoas normais fazem: se recuperaria. Apesar de que, bem, eu não sei bem do que se recuperar. Digo, ainda falando desse pobre garoto, que de modo algum sou eu: é que eu sei que ele é assim e que, se isso for embora, nada vai ficar no lugar. Aí ele vai se olhar no espelho de madrugada e se procurar no reflexo quase tomado pela sombra noturna, e não vai se encontrar. Não vai.

“Onde estou eu de verdade?”, ele vai se perguntar quando vir o seu próprio reflexo com um sorriso conformado e anestesiado. Vai repetir “este não sou eu, este não sou eu” até saber quem é de verdade. Até encontrar aquela tristeza, aquela saudade, aquela perda, aquela falta de tudo, que tentou esconder, mas que, ele sabe, é o único lugar onde se encontra. E que agora tem um rosto: o seu. Amor e desespero são coisas muito próximas pra que a gente finja saber exatamente a diferença, afinal.

Mas não estou falando de mim. Este não sou eu.

[imagem que ilustra o post: Cena do filme "O Grito" (Michelangelo Antonioni]

(“Egotrip” é a coluna deste blog com os arroubos literários de seus colunistas. Na estréia, uma série sobre a Saudade. Acompanhe, nos próximos dias, as egotrips de todos nós sobre o tema. Confira mais, AQUI.)


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