Imaginação e sentimento desmedidos numa releitura de “Meu Primeiro Amor”
A obsessão se caracteriza pela presença regular e intrusiva de determinados pensamentos que devem causar desconforto no portador da obsessão, aparecendo de modo independente da sua vontade. Vada Sultenfuss (Anna Chlumsky), de 11 anos, é uma garota que tem uma infância normal, mas talvez particularmente marcante para uma menina da sua idade: seu pai, Harry (Dan Aykroyd), tem uma funerária e prepara os mortos dentro da casa onde vive com sua mãe e sua filha no pacato distrito de Madison, na Pensilvânia (hoje com uma população estimada em módicos 490 habitantes – mas nunca muito além ou aquém disso). O filme, de 1991, é ambientado duas décadas antes.
É justo que uma garota cuja mãe faleceu dois dias depois do parto – fato pelo qual se sente culpada -, cujo pai recebe todos os dias mais e mais mortos – a maioria daquela cidade e, de se supor, de conhecidos – e cuja avó esta mesma garotinha vê, talvez não conscientemente, cada vez mais próxima de um caminho parecido com o dos clientes do seu pai… enfim, é justo que esta garota de onze anos tenha algum tipo de obsessão pela ideia de morte? Se não é justo que uma criança tenha este tipo de sofrimento tão latente, ao menos é perfeitamente compreensível. Afinal, se não ela, quem mais?
Dr. Welty (Peter Michael Goetz), o médico da cidade (na minha mente, numa cidade destas há apenas espaço para um médico; talvez um recém-formado tenha, por um certo período, tentado dividir a clientela. Mas ora, pelos dados geográficos, podemos supor que a idade média da população de Madison, desta Madison [porque há mais de vinte outras localidades nos Estados Unidos chamadas Madison], seja um pouco alta e seus habitantes gostem de algo chamado tradição. Por isso penso que o jovem médico, se um dia tentou se fixar ali, logo foi procurar outra Madison pra atender) atende Vada sempre que ela vai ao consultório achando que tem pouco tempo de vida. Provavelmente – seguindo minha tese de que é o único médico dali – ele compreende a obsessão de Vada não apenas por ser médico, mas por ele mesmo tratar os pacientes que, depois de mortos, passam aos cuidados do pai da menina. Ele presencia as mortes, ele lida com isso, e sabe melhor que Harry como aquilo pode mexer com o emocional infantil.
Afora algumas consultas por semana no hospital para check-ups gerais, Vada tem a infância tranquila e sobressaltada de uma futura escritora (ela já quis ser muita coisa, mas quando conheceu seu professor de Inglês, o Sr. Bixler, interpretado por Griffin Dunne), ela soube o que queria), cujo mundo interior é ainda maior do que o mundo exterior. Muito da infância que levava se devia ao seu único (e, não necessariamente por isso, o melhor) amigo, Thomas J., com quem compartilhava e explorava os seus dois vastos mundos. Thomas é, em quase todos os aspectos, muito diferente de Vada: ela é extrovertida e comunicativa, e ele é tímido e calado; ela é quem tem as idéias, e o papel que cabe a ele é o de acompanhá-la; ela é passional e inconseqüente, e ele sempre é contraponto prudente e medroso. Enquanto o pai de Vada parece sempre dar muita atenção aos mortos (e veja: o que numa primeira vista parece negligência talvez seja uma forma de protegê-la daquele ambiente, não lhe negando a liberdade para que saia do mesmo lugar em que a “morte” está sempre que quiser), os pais de Thomas J. sempre o mimaram demais. Não se sabe se eles o mimavam tanto por conta da sua “alergia a tudo” ou se, justamente por conta de tamanha proteção, o garoto não criou os anticorpos suficientes que o mundo exige de nós… mortais. E o que os dois têm em comum, então? Ora, você sabe. Uma afinidade, dessas que não se consegue explicar com outra palavra que não seja amizade.
Os vivos sempre morrem, e o trabalho para Harry começa a aumentar. Quando o anúncio de emprego que ele colocou no jornal é respondido por Shelly DeVoto (Jamie Lee Curtis), uma mulher meio colorida que vive num trailer (nos anos 70? Uma hippie, é claro) nem ele acredita que ela iria ficar. No anúncio, ele não menciona que a maquiadora teria defuntos como clientes, e nem ela imagina isso. Mesmo visivelmente incomodada com o fato, ela aceita. Imagino que precisasse de dinheiro, além do fato de que era fugitiva, já que o trailer também era do seu marido. Talvez mais dele do que dela, mas ora, isso não importa.
A adaptação de Shelly à casa dos Sultenfuss foi gradual e no começo sua técnica era “vívida” demais para uma maquiadora de defuntos. Aos poucos, ela percebe que também teria a aprender ali, apesar de ainda achar que Harry não devia ter desistido de tudo. Ele parecia deixar aquela iminência surda da morte entrar pelas suas narinas e impregnar seus pensamentos, forte como cheiro de formol. Ela sabia que gostava de algo nele, mas ele escondia isso muito bem (não usava isso desde a morte da sua esposa, e isso, pra ela, era um desperdício). Depois do período de adaptação, quando Vada já tinha Shelly como amiga, foi duro pra garota saber que Shelly e seu pai estavam mais próximos do que ela imaginava que fossem ficar. O natural medo da perda, dessa vez do pai para uma estranha, veio à tona.
A ausência do pai e a ideia da perda dele para uma outra pessoa fizeram com que Vada fosse propositalmente negligente quanto aos cuidados de sua avó, e a Sra. Sultenfuss acabou por dar um show de senilidade no funeral alheio, zombando um pouco da morte enquanto ainda lhe restava essa possibilidade. A tentativa de chamar atenção de Vada deu certo: seu pai obviamente a repreendeu por não ter cuidado de sua avó, e ela foge de casa, chamando Thomas J. para ir com ela. O garoto não tem muita motivação pra ser um fugitivo e depois de um tempo, se cansa – e fica preocupado em ser repreendido pelos seus pais, voltando para sua casa. Vada, depois de uma looonga estadia numa árvore, volta pra casa e… nada mudou muito por lá. Ninguém pareceu estar preocupado com ela. Bem, ela mesma percebeu que já tinha ficado até mais tarde na rua antes (mas quando estamos nos divertindo nunca parece muito tempo).
Thomas J., seu querido amigo, percebia a mudança em Vada. Ele, assim como ela, era apenas uma criança. Talvez nutrisse algum outro sentimento por Vada além de amizade – a mais pura possível -, mas quem sabe exatamente o quê? Só sabia que Vada havia perdido o seu anel do humor perto do local em que ele havia (pela primeira vez, tomando a iniciativa em algo) mexido numa colmeia. Depois de terem virado “irmãos de sangue” e, sabendo que da confusão e tristeza da sua amiga, foi buscá-lo. Imagino que tivesse em mente a conversa que tiveram antes dessa busca solitária:
- Você pensa em mim? Se não se casar com o professor Bixler…
- Acho que sim.
Afinal, no mesmo dia, eles se beijaram, só pra ver como é que era.
Na busca de Thomas, ele encontrou a colméia de novo. Não era muito provido de agilidade, apesar de querer ser acrobata quando crescesse. Estava sem Vada, e ela era mais importante pra ele do que parecia. Até pra se livrar de colméias inconvenientes. A sua alergia a “tudo” também englobava, por definição, picadas de abelhas…
Vada está dando comida para o seu peixe, que sobreviveu a uma queda no parque de diversões – em mais uma cena sutil, para uma criança, em que se fala da morte – quando seu pai lhe dá a notícia mais triste da sua breve vida. Permito-me analisar um dos aspectos técnicos do filme, dos quais havia tentado fugir até agora, para dizer que, a partir desta cena, Anna Chlumsky – que já estava perfeita no papel de Vada Sultenfuss desde o início do filme, bem como o sempre incrível Macaulay Culkin – cresce ainda mais, dando uma carga dramática incrível para uma criança de 10 anos a partir daí, e até o fim do filme. Seu despero inicial, sua ida ao Dr. Welty para relatar a maior dor que sentiu desde que havia nascido, a sua fuga, a ida ao velório, aquelas cenas todas que seguiram foram realmente dignas de uma das melhores atrizes da época. Mirins ou não.
A união entre Shelly e Vada, nesse momento, é fundamental para que a garota se sinta segura com a nova integrante da família. Shelly mostra-se presente e Vada sente o peso disto: ela nunca havia sentido essa segurança antes, e agora há um equilíbrio entre a liberdade que seu pai lhe dava e a preocupação de alguém que entende as “coisas de mulher” pelas quais está passando neste momento, além da perda do seu melhor amigo. Quando Vada encontra a mãe de Thomas J., ela o entrega o anel que ele havia resgatado daquela floresta em que tantas vezes haviam andado juntos. Ele não está mais negro, como sempre havia estado: sua cor é de um azul sereno, bem como a superação de Vada perda de Thomas sugere.
“Meu primeiro amor” é uma linda tradução, mas que, no alto dos meus nove anos, teve o poder de me enganar: o título se refere ao primeiro amor de Vada que, mesmo que eu quisesse muito que fosse (porque me projetasse em) Thomas J., era, na verdade, o Sr. Bixler. E o filme não é sobre essa paixão de momento: o filme, aliás, relativiza o sentimento de Vada pelo Sr. Bixler quando mostra o quão pequena era dor da decepção da garota com seu professor perto do que a amizade de Thomas significava pra ela. Portanto, eu entendo que essa história versa principalmente sobre a amizade entre Thomas J. Sennett e Vada Sultenfuss, e sobre como a dor da perda de uma amizade é grande – das maiores que se pode ter. Este filme mostra o mais cruel (e talvez único) meio que se tem de se levar um amigo realmente embora, mas também mostra lindamente que o amigo que se vai pode deixar conosco. O anel é só o que, de físico, ele pôde com ela; podemos imaginar o que ele deixou naquele outro mundo de Vada, o interior, vastíssimo, depois que a ouvirmos recitar a sua nova poesia:
“Salgueiro chorão com lágrimas escorrendo
Por que você chora e fica gemendo?
Será porque ele lhe deixou um dia?
Será porque ficar aqui não mais podia?
Em seus galhos ele se balançava
Ainda espera a alegria que aquele balançar lhe dava?
Em sua sombra abrigo ele encontrou
Imagina que seu sorriso jamais se acabou
Salgueiro chorão, pare de chorar!
Há algo que poderá lhe consolar
Acha que a morte para sempre os separou
Mas em seu coração para sempre ficou”
E se eu, homem-recém-feito, pensava ter tido sucesso na tentativa de me distanciar emocionalmente para não comprometer a já assumidamente parcial análise da obra, me desengano assim que vejo essa cena. Gordas lágrimas descem do meu rosto (desta vez cinco; um avanço, acredite) até que eu me recomponha e finja não estar chorando mais uma vez com o mesmo filme. Acontece, e provavelmente acontecerá em todas as outras vezes em que ele passar na Sessão da Tarde…
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Esse filme é muito maior pra mim do que seus 102 minutos de duração. Peço perdão por ter me alongado durante os parênteses – quase todos eles eram interpretações livres demais sobre a obra: as tais metainterpretações do título. Também tive que deixar muitas coisas de fora, mas me dei esta liberdade porque espero sinceramente que os leitores já tenham visto ao menos uma vez o filme. Até porque o post é feito de spoilers: assim como a vida. A gente só não acredita muito neles, até que aconteçam.
Ficha técnica:
Nome: My Girl (Meu Primeiro Amor/PT-BR)
País: Estados Unidos
Ano: 1991 (EUA) – 102 min.
Direção: Howard Zieff
Elenco: Dan Aykroyd, Jamie Lee Curtis, Anna Chlumsky, Richard Masur.
Gênero: Drama
Estúdio: Columbia Pictures Corporation / Imagine Entertainment




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5 mandaram ver
leo disse:
18 mar, 2012
Ola Rodolfo gostei do argumento me ajudou a entender algumas partes em que
eu estava confuso. voltarei mais vezes
Raul Roque disse:
3 mai, 2011
Outro filme muito bom…
Gostei da relação das imagens com o texto também.
gus Vilela Fofolete disse:
3 mai, 2011
chorei com resenha, porra.
Rodf disse:
3 mai, 2011
Seja bem-vinda, Jacqueline! Bom saber que você vai voltar aqui =)
Abraço!
Jacqueline disse:
2 mai, 2011
Linda resenha! Sempre fui apaixonada por este filme, que é cheio de metáforas sobre a vida. Continuarei a ler suas resenhas e metaimpressões
Abraços!