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O que um início de relacionamento pode fazer pela vida pessoal do artista, o término pode fazer por sua carreira. Exemplos não faltam ao longo dos tempos: dos pintores aos escritores, dos compositores aos escultores, muitas obras de arte foram concebidas graças a um – na falta de termo mais comunicativo – pé na bunda. O Tópico Livre já dissertou a respeito de alguns trabalhos em que, de uma forma ou de outra, a plenitude de um relacionamento influenciou na constituição de algum trabalho artístico, a saber: “Toque Dela”, segundo álbum solo do carioca Marcelo Camelo, e “Direito de Ser Nada”, sexto trabalho de estúdio da banda goiana Violins.

A ideia desta postagem é, portanto, explorar o outro lado, a contraparte melancólica, o momento de reclusão, a expulsão dos demônios lânguidos que se apossam dos artistas quando encerram um capítulo vivido a dois em suas respectivas vidas. Discos que, criados a partir do suprassumo da tristeza (ou não), são capazes de elevar seu ouvinte a um patamar ímpar na experiência musical – até porque se o patamar fosse par então não seriam discos sobre términos. Com o perdão da piada.

A seguir, os cinco álbuns mais fossa que o escriba desta postagem conseguiu listar, partindo do princípio da novidade no ranking e de um mínimo de qualidade estética para tanto:

5º Marilyn Manson – “Eat Me, Drink Me” (2007)

Vida: O shock rocker Marilyn Manson, uma das figuras mais controversas da década de 90, casou-se em 2005 com a modelo e artista burlesca Dita Von Teese, em uma cerimônia bizarra envolvendo um castelo irlandês e o cineasta surrealista Alejandro Jodoroswsky, de quem Manson é fã declarado. Cerca de um ano após o casamento, Von Teese entrou com um pedido de divórcio alegando “diferenças inconciliáveis”. Foi o bastante para lançar o eterno Anticristo Superstar na depressão, incluindo até mesmo tentativa de suicídio. Seu então parceiro de banda, Tim Skold (ex-Shotgun Messiah, ex-KMFDM) foi quem o tirou do fundo do poço e, juntos, deram vida ao sétimo e mais confessional álbum de sua carreira (vale lembrar que neste mesmo período Manson começou um relacionamento com a atriz Evan Rachel Wood, portanto se trata de um disco tão down quanto up).

Obra: Como dito anteriormente, “Eat Me, Drink Me” transita entre a depressão e a excitação, entre o exorcismo e o arrebatamento. Apresenta 11 canções tão melódicas como nunca acontecera em sua discografia, dentre as quais cinco são marcadas por inspirados solos de guitarra do parceiro Tim Skold – recurso raro em suas músicas. Como em todo trabalho de Marilyn Manson, o disco possui uma temática bem definida, e a escolhida pelo frontliner da banda para este envolve vampirismo e referências literárias como Lewis Carroll, Charles Baudelaire e até mesmo Luís de Camões (!). “Eat Me, Drink Me” também rendeu a Manson o single mais alegre de sua carreira – Heart-Shaped Glasses (When The Heart Guides The Hand) – sobre seu relacionamento com Evan Rachel Wood. Os dois terminaram em 2009, Manson lançou outro disco expurgando suas mágoas (“The High End Of Low”), aí reataram, depois terminaram de novo e agora Manson prepara seu próximo álbum, a ser lançado ainda este ano.

Trecho:love is a fire/burns down all that it sees/burns down everything/everything you think/burns down everything you say/I knew that our love was/just a car crash away/knew that our love was/just a car crash away” Just A Car Crash Away, faixa 5.

4º Adele – “21″ (2011)

Vida: A nova queridinha da América é uma britânica que, desde seu debut, “19”, vem chamando a atenção para a maneira com que transforma experiências pessoais em canções de apelo universal, com especial ênfase para seus relacionamentos amorosos. Seu segundo trabalho, “21”, já foi comentado por aqui, e rendeu a Adele o primeiro lugar em inúmeras listas internacionais, incluindo a Billboard. A própria cantora confessou que todo o álbum gira em torno de seu último relacionamento, registrando a degradação da vida em casal pela ótica da garota que soube converter a dor e a raiva em pequenas pérolas musicais que não apenas vai além do clássico chororô como mostra uma compositora de mão cheia e uma intérprete ainda mais competente.

Obra: Adele é jovem e, a exemplo de Amy Winehouse, tem um domínio impressionante sobre sua voz e performance. O disco é uma coleção de canções que vão da delicadeza a agressividade (dentro dos limites colocados pela própria cantora) e explora diferentes estados de espírito, variáveis emocionais documentadas pela cantora e convertidas em puro desabafo. Não bastasse tudo isso, Adele ainda resgata a estética soul, que cai muito bem em sua voz encorpada, e transforma o que poderia ser um disco extremamente primário – por sua temática – em um trabalho que explora todas as potencialidades de seu formato (desde a explosiva Rolling In The Deep até a soturna Something Like You.

Trecho:cause there’s a side, to you, that I never knew, never knew/all the things you say they where never true, never true/and the games you’d play, you would always win, always win/but I set fire to the rain/watched it pour as I touched your face/when it burned, well I cried/cause I heard it screaming out your name, your name!” Set Fire To The Rain – faixa 5

3º Otto – “Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos” (2009)

Vida: O representante brasileiro desta singela lista já foi considerado um dos cantores mais esquisitos de nossa música, apostando em uma linguagem pouco acessível da música eletrônica desde sua estreia pós-Mundo Livre S/A, “Samba Pra Burro” (2001). Casado com a atriz Alessandra Negrini deste então, Otto viu seu relacionamento se desfazer em meados de 2008, por motivos que não ficaram muito claros. Uns dizem que o casal, pai de uma menina, brigava bastante; outros alegam que a rotina de Alessandra atrapalhou a relação e optaram pela separação amigável. Independente da versão, o fato é que o término serviu de matéria-prima para o sexto trabalho solo do cantor, que o consagrou definitivamente como um dos melhores lançamentos do ano em questão.

Obra: Com seus trinta e poucos minutos de duração e dez faixas, Otto sintetizou toda a sua capacidade criativa em composições que dizem muito com pouco, nem sempre deixando evidente sobre o que está falando. Embora hábil no exercício das elipses, o disco cresce mesmo é nas canções mais explícitas – desde a faixa de abertura, Crua (com o palavrão mais significativo e coerente em anos numa música brasileira) até o encerramento sombrio de Agora Sim, que mescla o clássico ao afrobeat num trabalho belíssimo da produção de Fernando Catatau. O título do álbum faz referência a Kafka, reproduzindo o primeiro período do livro “A Metamorfose”, e Otto parece estar em total afinidade com a condição do antológico Gregor Samsa.

Trecho:nasceram flores no canto de um quarto escuro/mas eu te juro, são flores de um longo inverno/isso é pra morrer/6 minutos/instantes acabam a eternidade/isso é pra viver/momentos únicos/bem junto na cama de um quarto de hotel/e você me falou de uma casa pequena/com uma varanda, chamando as crianças pra jantar” 6 Minutos – faixa 5

2º Nick Cave And The Bad Seeds – “The Boatman’s Call” (1997)

Vida: Nick Cave conheceu PJ Harvey na estrada. Ele, em turnê com seu oitavo álbum ao lado dos Bad Seeds, o sombrio “Let Love In”; ela, uma artista em ascensão em seu primeiro álbum solo, “To Bring You My Love”. O romance engatou quando Cave convidou PJ para participar de uma canção de seu próximo álbum, “Murder Ballads”, e terminou poucos meses depois, por vontade da cantora. Em tempo recorde (menos de um ano desde o lançamento de “Murder Ballads”), o cantor australiano reapareceu em um álbum comedido, introspectivo e filosófico que escancarou sua – incrível, diga-se de passagem – capacidade de criar canções de amor extremamente tocantes e sensíveis.

Obra: Antes de “The Boatman’s Call”, Nick Cave havia lançado três álbuns densos, quando não pesados (no sentido rocker da palavra), e parecia estar longe de sair dessa linha. No entanto, o disco pós-Polly Jean nasceu como o elemento de contraste a toda sua agressividade dos trabalhos anteriores. Deste modo, Cave suprimiu as guitarras em quase todas as faixas, por vezes atuando sozinho com o acompanhamento do piano (caso de Into My Arms) ou com o mínimo de elementos melódicos e percussivos. Toda a atenção do disco, consequentemente, caiu sobre o líder da banda e suas composições de teor filosófico/religioso, na ocasião voltadas para a concepção mítica da mulher e para a ficcionalização de uma personagem real em canções que já entregavam o ouro só pelo título.

Trecho:they’re only little tears, darling, let them spill/and lay your head upon my shoulder/outside my window the world has gone to war/are you the one that I’ve been waiting for/o we will know, won’t we?/the stars will explode in the sky(Are You) The One I’ve Been Waiting For? – faixa 6

1º Bob Dylan – “Blood On The Tracks” (1975)

Vida: Dylan nega que tenha escrito canções confessionais em “Blood On The Tracks”, mas é praticamente impossível não pensar que as letras, a exemplo de “The Boatman’s Call”, não se refiram à mulher amada (no caso de Dylan, sua esposa Sara, de quem se divorciaria anos depois). O dono das canções, no entanto, bate o pé e diz que se inspirou em contos de Tchekov, por mais que na época da concepção do disco o cantor e sua esposa atravessassem um período difícil do matrimônio. Jakob, o filho do casal, diz que as letras deste álbum são os próprios pais tendo uma conversa. Pelo que parece, a certeza nunca virá – mas quem consegue provar se Capitu realmente traiu Bentinho?

Obra: “Blood On The Tracks” encabeça a lista não apenas por ser um álbum cujas motivações são ainda controversas, mas também por promover um recorte tão eficiente quanto o de Adele em seu mais recente trabalho. O disco de Dylan é, ainda, uma espécie de ‘pai artístico’ de “The Boatman’s Call”, podendo ser relacionado a ele em diversos aspectos sonoros e conteudísticos. Suas 10 faixas pouco sofrem alterações melódicas em comparação às demais, e dão ao álbum um tom impressionante de unidade em todos os sentidos. A faixa que abre o disco, Tangled Up In Blue, já dita o tom de todo o trabalho e lança o ouvinte em suas divagações sobre amor, solidão, fidelidade e inúmeras outras questões que os demais colocados da lista eventualmente abordaram em seus respectivos trabalhos aqui destacados. Por isto, o pódio vai para Bob Dylan.

Trecho:oh, singing just for you/I hope that you can hear/hear me singing through these tears/love is so simple, to quote a phrase/you’ve known it all the time, I’m learning it these days/and I know where I can find you/oh, in somebody’s room/it’s a price I have to pay/you’re a big girl all the way” You’re A Big Girl Now – faixa 3

Como dito no início da postagem, a ideia foi criar uma lista incluindo álbuns que nem sempre são lembrados (por esquecimento, por ignorância ou por uma questão de lançamento – como é o caso de “21″, de Janeiro deste ano), e que também tivessem algum material interessante, tanto na sonoridade quanto no conteúdo.

Os comentários sobre cada álbum são propositalmente simples porque não houve a intenção de dissertar sobre suas respectivas temáticas, mas apenas levantar questões pertinentes sobre os aspectos gerais de cada um. De qualquer forma, ainda há outros discos que versam sobre fins de relacionamentos e que não citei por ocasião dos critérios escolhidos.

Mas fica a pergunta: quais outros álbuns foram motivados por um término de relacionamento do artista?


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