
Queen of Denmark – John Grant
Melodramas de uma rainha da Dinamarca
Detalhes do Álbum:

Nome/Músico: John Grant
Nome/Álbum: Queen Of Denmark
Lançado: 19 de Abril de 2010
Gênero: Rock/Pop
Duração: 51:16
Gravadora: Bella Union
Produtores: Eric Pulido, John Grant, Paul Alexander
Custou tempo para a América lançar musicalmente um dos seus principais lampejos de conscientização moral e social, depois que seu vizinho do norte Rufus Wainwright aclarou, com vislumbre intelectual, e seu vizinho do sul, Ricky Martin, estremeceu, com latino clamor, mas as mentes liberais de Denver devem estar satisfeitas depois que John Grant, ex-integrante do pouco notório The Czars, assolou-se entre as drogas, bebidas e a recorrente depressão, acordando ao lado de pessoas que nem sequer o conheciam e gratas estavam por isso, para então suceder-se e frutificar seu primeiro álbum solo, melodramático e introspectivo. Enquanto nos Czars, John imperava com suas experiências e entretenimentos lúdicos noturnos – e, claro, as suas indesejáveis, porém impensáveis consequências – no seu primeiro projeto pós-banda ele verbaliza sem pudor sobre suas sensações e percepções mais intrínsecas, sem temer rejeições ou contradições de terceiros, desde o instante em que fugir é o melhor dos antídotos, explanar desabafa, ou amar atenua, repondo sua melancolia a outro viés. Grande parte das canções em “Queen of Denmark” lembram um homem em seus últimos instantes, envolvendo um misto de consciência, auto-indução e orgulho, os quais levam à gratificação após o penoso processo artístico, em meio a memórias desoladoras, culturas inconsistentes e hábitos futeis, mas adoráveis. É difícil precisar o amor que John Grant, Morrissey, Ian Curtis ou Thom Yorke tem por eles mesmos, mas é fácil afirmar que há um outro alguém superior, mediante seus supostos conceitos de vida. É essa a forma, quase inata, que escolheram e escolhem para sobreviver. O aval é de Maximilian Hecker, outro cantor do subúrbio indie alemão, que há pouco projetou-se nos olhos das mais solitárias e gélidas orientais, ao dizer que a melancolia e ele eram compostos dissociáveis, em que um não existia sem o outro. E assim o estilo perdura, recicla-se, recompõem-se e John Grant canta sobre seus amores incompreendidos, martiriza-se por isso e logo depois reflete acerca do mundo, alegando hipocrisia. Flácido para continuar, remoendo ele disserta – verdades ou não, autêntico.
Como autenticidade é de longe um dos piores fatores para se obter aceitação múltipla, o narrador das faixas de Grant acumula um considerável número de desafetos, sejam específicos ou comunais. Mas os Midlakes estão com ele e sua melodia, relembrando mesmo o interior dos Estados Unidos, Iron & Wine e penugem. Em “TC and Honeybear,” John devota um dos seus principais aliados, receando sua fuga e com ele sua obstinação. Para tal ele clama pela sua permanência e liberdade, com promessas de união e comprometimento. O vilão é o mundo e sua ferocidade, que os deixam aterrorizados, remetendo a idade média e a restrita liberdade de agir, pensar e sentir. Sucumbindo, Grant demorou para assumir sua sexualidade, contestada com vigor e, principalmente, violência, nas regiões rurais, pouco urbanizadas e fundamentalistas dos EUA. Fatos que o fez ocultá-la durante sua infância e adolescência, justamente os períodos de formação de sua personalidade, e justamente períodos ferteis, tanto no ramo afetivo quanto sexual. Diante de tantas objeções, pecados e culpas, Grant professa seu desejo de deixar a Terra e ir para Marte em “Marz,” onde o piano sutilmente introduz um passado bucólico, focando um futuro harmonioso, porém utópico, como quando os Village People quiseram ir para o oeste e São Francisco atendera, com o mesmo calor desproporcional que só o ódio e a repressão semeiam. Logo seus sonhos são devastados em “Where Dreams Go to Die,” pela mesma pessoa que uma vez resultou na sua criação. Os acordes orquestrais, os cintilantes sintetizadores e sua brumosa, mas intensa voz são alguns dos ingredientes que delineiam sua obra, afugentada por amores platônicos, inaceitáveis, sórdidos e corriqueiros. E é sobre os inaceitáveis que ele canta em “Sigourney Weaver,” comparando situações e desejos aparentemente incompatíveis semelhantes às perplexidades que cada exemplificação da faixa promove. Desde então seu temperamento tem ficado cada vez mais imprevisível, querendo a distância e reclusão de todos, dos confiáveis aos amáveis, pois “estou prestes a explodir, como uma bomba de saco de pão.” Ele não importa sobre o que sabe ou não sabe, apenas sabe que não está errado em “Chicken Bones.” Em “Silver Platter Club” é a hora dele pedir, ironicamente, desculpas e condolências por não ser o que todos almejavam que ele fosse, incluso no âmbito profissional, não sendo capaz de ser um jogador de futebol, basquete ou golfe – coincidência ou não, esportes praticados comumente por homens – ou emocional, não sendo tão seguro quanto transparecem esportistas antes do combate. Suas letras demonstram invejável rispidez de sinceridade e transparência, além de afrontar modos e costumes culturais de forma lúcida e penetrante, embora sua persona seja criteriosamente angustiante.
Na balada “It’s Easier,” outra desconsolada paixão emerge e John diz que é fácil para ele conceber a falsidade de seu interlocutor, tanto quando ele diz que o ama ou quão é suportável dar continuidade à sua vida quando ele tem ciência da sua importância a outro. Sua desmedida, colossal e, por que não platônica paixão, vai mais além em “Outer Space,” comparando seu amor a algo extraterrestre, ou extraordinário, fazendo do seu dia excepional somente com um sorriso. Ele mitifica, endeusa e vangloria de forma desnorteada e dramática, num refúgio sem precedentes dele próprio, projetando tudo o que ele não é, em alguém que ele idealiza que seja. Embora essa não seja a primeira vez que vemos, sequencialmente, este mesmo comportamento, é dócil e comovente seus frutos. Depois de amar, perder, idolatrar, iludir e sonhar, Grant chega com uma das suas teorias mais polêmicas ao afirmar, anos após anos, que “Jesus Hates Faggots.” Daí então ele retoma sua ironia, em uma das letras mais brilhantes do ano de 2010. Nela, além de dizer que Jesus odeia gays, ele reafirma que seu ódio pode ser alastrado a negros, índios, judeus ou qualquer um que seja da vontade de quem produz esse intermédio – ou seja, a sociedade. Sociedade a qual ele diz tramitar guerra que, quando vencida, abrirá os olhos de quem antes repudiava. Aqui, o importante não é ser ateu, agnóstico, católico ou cristão, mas sim humano. “Caramel” está ali apenas para nos lembrar que, mesmo depois do desabafo, seu amor continua vociferante, sua melodia sensível e sua emoção minguante. Em “Leopard And Lamb” ele decide culpar quem ele se apaixonou pelo desastre em sua vida, para sucessivamente se render ao perceber que, apesar de aspirar mudar o mundo, ele não consegue nem sequer mudar suas cuecas em “Queen Of Denmark.” Mesmo reconhecendo sua derrota, retendo o antes broto agora florestal rancor, o amor de John Grant é compulsivo e irredutível, ramificando-se, em cada uma de suas apaixonadas, desapontadas ou exaustivas canções de amor.
É esperado que Grant produza alguma sequência em breve, mas é improvável que consiga alçar a intesidade que seu debut provou ter, bem como Jens Lekman parece ter dificuldades à adapção da necessidade, fria e racional, de um sólido e premeditado desenvolvimento de um álbum. As músicas saem, sem pedir ou demandar, consequências de sentimentos e emoções. Até pelo teor fatalístico e lúgubre de “Queen of Denmark,” é complicado crer que a proposta será rigorosamente as mesmas nos trabalhos por vir dele. Mas o que fica é a mensagem, capturada pela Mojo ao escolher Grant como o detentor do melhor álbum do ano passado, ou pelo Guardian e Q Magazine que reconheceram suas lágrimas, embassadas na cruel e desdenhosa majoritária sociedade que ignora, assim como eu ou você, a dor alheia. Não custa nada lembrá-la e, com empenho, dissolvê-la, culturalmente.

Melhor Trecho:
“Cos Jesus,
He hates faggots, son
We told you that when you were young
Or pretty much anyone you want him to
Like niggers, spicks, redskins and kikes
Men who cannot tame their wives
Weaklings, cowards, and bald dikes,
And when we win the war on society
I hope your blind eyes will be opened and you’ll see”
Jesus Hates Faggots
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2 mandaram ver
Raul disse:
13 fev, 2011
Bacana Fofolets!
Tópico Livre disse:
13 fev, 2011
Testando a playlist………………………………………..