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Lady GaGa – Born This Way


Nome/Músico: Lady GaGa
Nome/Álbum: Born This Way
Lançado: 23 de Maio de 2011
Gênero: Eletrônico/Pop
Duração: 40:15
Gravadora: Interscope
Produtores: Clinton Sparks, DJ Snake, DJ White Shadow, Fernando Garibay, Jeppe Laursen, Lady Gaga, RedOne, Robert John “Mutt” Lange, Vincent Herbert


Há algumas semanas atrás a coluna avaliou o último surpreendente álbum da recuperada estrela pop Britney Spears e, caso se lembrem bem, comentei sobre o efeito nostalgia e como um disco pode, com o passar do tempo, adquirir tônicas maiores ou menores. O álbum subsequente à estreia de Britney trouxe mais do mesmo, com uma dose extra de música dance, o que lhe sagrou grandes vendagens e uma popularidade crescente a cada exposição. Embora Britney seja mais velha que Lady GaGa – a primeira irá completar 30 em dezembro e a segunda chegou aos 25 meses atrás – ainda custa acreditar que as idades reflitam a maturidade, proporcionalmente, de cada uma. Enquanto GaGa prefere inflar sua masculinidade, a princesa pop zela pela sua alcunha juvenil, que continua intacta mesmo após o alvoroço na sua vida particular. A ingenuidade sardônica de Spears serve como válvula de escape diante de uma febril compulsão sexual, diferente de Lady GaGa que parece aceitar o seu destino penurioso e, às lágrimas, suspirar suas últimas aflições sendo imoral e inconsequente. De uma forma ou de outra, seus públicos se encontram, de um lado com a sutileza sonhadora esmerada por borboletas e saltos coloridos, e de outro, com a atitude irascível que pouco se presencia no eletropop, mas sim no rock, com roncos de motos, berros e sons mais medonhos do que sedutores. E é ao som de guitarras e todo o seu esbravejar que GaGa lança seu segundo álbum de estúdio, “Born This Way,” demonstrando a primeira vista mais incisão que sua irmandade pop, considerando a brusca transição que Lady GaGa aderiu em detrimento da conservadora ascensão de Spears. Mas como música não é só feita de mudanças, mas também de solidez, “Femme Fatale” parece um passo a frente de um superestimado “Born This Way.”

Quem olha Lady GaGa hoje com figurinos cada vez mais góticos e bizarros, deformações induzidas em seu corpo e penumbras a sua volta, não consegue de forma alguma tecer uma relação com a loira bronzeada e estonteante que a eclodiu em “The Fame,” o álbum que, segundo ela, descrevia a consumação – para o bem e para o mal – da fama sobre alguém. Quando vimos sua seleção extra, “The Fame Monster,” pouco tempo depois, a dedução de que a real GaGa estaria por vir, cedo ou mais tarde, deve ter rondado a cabeça de boa parte dos seus fãs. Até hoje não se sabe se o descarado colágeno do seu primeiro projeto serviu como meio de atração das massas, para então revelar o que havia por detrás de uma impetuosa e quase execrável pecadora, que escancarou todos os seus desabafos com homens musculosos, dinheiro, fama e poder. A sua farra resultou em vultosos pontos, tanto monetários quanto quantitativos, mas a ideia de que a nova-iorquina só veio para lucrar caiu por água abaixo com seu primeiro single homônimo ao álbum, “Born This Way.” Apesar de não chegar próximo do que foram “Poker Face” ou “Just Dance,” diferentemente de “Till The World Ends” e “Hold It Against Me,” dois previstos clássicos de Britney, a mensagem pela primeira vez foi mais enfática que a melodia com Lady GaGa, nesta que foi descrita como um hino pós-moderno ao avante homossexualismo, mas não passou de uma fraca e impotente tentativa de repelir o preconceito de uma sociedade que está cada vez mais, às forças ou não, entendendo-se. Um single que te faz pensar se toda sua ganância pela fama foi apenas um pretexto para salientar que ela chegou aonde está só para dizer que ela nasceu assim e nada nem ninguém poderá mudá-la. Aí então está a verdadeira Stefani, sem cédulas e holofotes, ou seria tudo isso tão superficial quanto supostamente foi sua imagem inicial? Ou seria mais oportuno dizer que essa é a nova Lady GaGa que, temos que tirar o chapéu, tem conseguido desvincular a vulgaridade da sua imagem. Caso não tenha aprovado a apelação demagógica do seu primeiro single, o ardor reencontra Lady GaGa em “Hair,” também um emaranhado rítmico, entretanto mais melódico, que leva consigo basicamente a mesma corrente, porém com uma metáfora mais lúdica, em que ela canta para que ele aceite ela como ela é, selvagem e livre como seu cabelo.

Quando Lady GaGa lembra o que foi, lembra apenas por alguns instantes. E são os instantes iniciais de “Marry The Night,” talvez a única faixa essencialmente pegajosa e remetente do seu eletrônico amigável, diferente da bagagem excêntrica de “Born This Way,” o que nos faz salivar como crianças diante de guloseimas, que aos poucos se esfarelam nas desajustadas e ebulientes notas de suas estridentes experimentações. Uma delas é “Goverment Hooker,” quando sua devassaria invade o contexto político, num dos já gastos lirismos bipolares de uma das personagens que GaGa mais usufrui: a prostituta. Que vai do sexo às lágrimas em questões de segundos, quando se lembra que seu cliente o ama. Embora diferente de todo o pouco que GaGa já produziu, a faixa é brochante e pouco condiz com a soberba de sua intérprete que, quando desvencilha-se do pop, não encontra mais o caminho de casa. A introdução de “Americano” é tão burlesca e cômica que só não consegue ser mais embaraçosa que os cânticos “La’s” de múltiplas GaGas em seguida. A proposta de reunir várias línguas numa mesma gravação parecia sugestiva e atraente, contanto que não se limitasse a um ponto de vista tão estereotipado quanto são quando entram em cena. O mesmo ocorre em “Schiße,” em que a vergonha alheia nos assombra mais uma vez com o breve “Eu não falo alemão, mas eu posso se você quiser,” sucedido por um grito aterrorizador. O refrão nessa parece mais passageiro do que nunca, nos dando saudades dos tempos prolíficos e irresistíveis de “Bad Romance” e “Alejandro.”

Há um momento no disco aonde você para e pensa: aonde foi parar o senso pop de GaGa? Uma garota que, ao que tudo indica, se perdeu no meio de tantas expectativas, ansiosa pela obrigação de criar uma ambiciosa obra-prima, que impreterivelmente não se repetisse. No entanto o que se vê são letras pobres e dispersas, utilizadas de forma inadequada, quando poderiam ser de bom grado se algum relance tocasse em seus ouvintes, ao contrário da profunda lacuna vazia que as músicas vão deixando, uma após a outra. “Bloody Mary,” a “Just Dance” religiosa, é um bom exemplo onde Lady GaGa se parece com Madonna e aonde não se parece. Os versos fantasmagóricos dão uma atmosfera ácida no que parece ser o perfeito retrato lírico do álbum, ao lado de um refrão à la Madonna que acalenta um miserável pecador, que quer dançar com as mãos no alto, assim como Jesus disse. O misto de perseguição e sordidez de GaGa é tão perturbador e constante que às vezes a torna insuportável diante de tantos “mea culpa’s.” Outro fator que nos faz ter uma quase incontrolável saudade da sua animosidade, ao invés de um purgatório sônico como é “Born This Way.”

Em “Bad Kids” ela defende as pessoas más por fora, mas com bons corações por dentro, justamente como “Judas,” um traidor que segundo ela merece uma segunda chance para o perdão. Se houve a defesa aos homossexuais, punks, latinos, nerds, mesquinhos e prostitutas, também há espaço para a paixão entre amantes de heavy metal, um estilo que sempre fora “underground.” Olhando para todos os gêneros citados e defendidos, é de se pensar que Lady GaGa quis com o disco unir as diferenças, dando claridade aos rejeitados e excluídos, afirmando que todos devem se aceitar e ser como são, independente de terceiros. Tudo seria muito bom se não fosse a clara segmentação que naturalmente existe quando se tenta abraçar, generalizadamente, tudo. O repúdio de Stefani parece vir de infância ou adolescência, quando era proibida de fazer o que lhe excitava, não apenas no plano carnal. Repúdio esse que cresceu afugentado, tomando forças, até frutificar na bandeira liberal de “Born This Way.” O álbum que poderia sim ser o reflexo da geração “sem pudor” atual, porém se relaciona com tudo, menos com nós, além de pecar numa estranha inacessibilidade, incomum quando o tema é Lady GaGa.

You And I” parece sem graça quando nos lembramos de “Speechless.” Mais ainda quando paramos para analiar que as pausas costumam haver após a euforia, justamente como aconteceu com “Summerboy,” mas no seu segundo álbum não chega tão ávido quanto no primeiro. No tempo de Lady GaGa os saxofones são de longe os instrumentos mais bregas na música pop. Além de diversas aparições de solos no disco, ele aparece como protagonista em “The Edge of Glory,” uma música que ensaia uma óbvia tentativa de ser algo épico, mas novamente recai no imenso vazio que é o seu conteúdo. E é com várias composições sem saber a que vieram que termina o tão estimado e esperado “Born This Way.” Um álbum que particularmente é bastante inferior a “The Fame” e “The Fame Monster.” Se os primeiros vestígios diziam para nos atentarmos ao meteóro pop estremecedor, seu passo seguinte traz uma sensação de que seu reinado começa a ficar ameaçado. Mesmo assim “Born This Way,” independente se bom, ruim, animador ou frustrante, colhendo os frutos de uma GaGa loira, é um sucesso comercial e de público prenunciado, que corria sérios riscos de ser bem diferente caso a GaGa, em questão, tivesse sido, a princípio, tão escura e trágica quanto está hoje. Se essa é a verdadeira Lady GaGa ou não, não cabe a nós a preocupação, mas sim a ela, que acabou esquecendo de si, ao se lembrar demais dos outros.


Melhor Trecho:

“I’ve had enough, this is my prayer,
That I’ll die living just as free as my hair.
I’ve had enough, I’m not a freak,
I just keep fightin’ to stay cool on these streets
I’ve had enough, enough, enough,
And this is my prayer, I swear,
I’m as free as my hair.”

Hair

Obs.: Quem quiser conferir, clique aqui para ver uma resenha de “The Fame” que fiz em 2009.


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