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TV On The Radio – Nine Types of Light


Nome/Músico: TV On The Radio
Nome/Álbum: Nine Types of Light
Lançado: 11 de Abril de 2011
Gênero: Rock/Indie
Duração: 43:40
Gravadora: Interscope
Produtores: David Andrew Sitek


Como boa banda de art-rock do condado de Brooklyn que se preze, o TV On The Radio surgiu a partir das afluências de um Radiohead que lançava, em 1997, seu abrasivo “OK Computer,” seguido pela cosmopolita eletrônica do “Kid A.” Honrando a sua influência, o primeiro álbum do quinteto, “OK Calculator,” tem alusão direta ao título do álbum da banda britânica, apesar de representar embróglias sementes do que a frente viriam a se tornar. O anonimato persistiu até “Desperate Youth, Blood Thirsty Babes,” álbum em que as primeiras revisões apareceram como resposta crítica, junto com “Return to Cookie Mountain,” o disco até então mais bem avaliado de uma banda que, embora formada nos Estados Unidos, tem seu principal vocalista nigeriano, Tunde Adebimpe, também conhecido por projetos paralelos com a vertigem passageira Yeah Yeah Yeahs e por ter contribuído num dos mais bem concebidos e elaborados álbuns do Massive Attack, “Heligoland.” “Dear Science,” seu tecnicamente quarto álbum de estúdio, alcançou o pico de popularidade, o que resultou em contínuas presenças em artigos e reportagens de revistas digitais formadoras de opiniões como a Pitchfork, que escolheu o álbum, na ocasião, como o 140° melhor dos anos 2000, ainda que não dê pra entender muito bem o que de fato quer dizer isso, considerando a hiperbólica estrutura de notas do site. O disco expunha o simples cotidiano trilhado pelas ideias de uma sociedade vivente do ínicio do século 21, perplexa entre a transcendência religiosa ou o ceticismo científico, sobretudo angustiada com o avanço da ciência e sua suposta onipotência, que deve ser usada em prol do ser humano, caso contrário é infundada.

“Nine Types of Light” foi lançado uma semana antes do falecimento do baixista da banda, Gerard Smith, dia 20 de abril, apesar de ter descoberto a doença um mês atrás. Uma ironia para um grupo que há poucos anos atrás implorava para que a ciência medicinal descobrisse soluções práticas, ao invés de prepotências teóricas. A banda composta por 5 integrantes agora se resume, tão brevemente, em 4, que afirmaram pouco tempo depois estarem profundamente abatidos com a sua morte. O que há para se extrair da infeliz morte, é que houve tempo para o registro dele no quinto álbum dos norte-americanos e talvez já, senão o melhor, um dos melhores de suas carreiras. Mais uma vez a proposta é básica e singela, mas nem por isso menos acolhedora ou apaziguável, até porque esse parece ser o trabalho mais acessível deles, emendando laços com pontuáveis traços melódicos da música pop. Em “Nine Types of Light” o assunto continua sendo suas vidas, suas visões, conceitos, valores e impressões. Ao invés de abraçar um permeio amplo acerca de um conceito centrado, eles preferem a versatilidade de suas vidas pessoais, o que é louvável em épocas onde a megalomania faz dos artistas dignos portadores ilusórios de poderes eclesiásticos ao tentarem mudar o planeta com seus sermões. Aqui o amor continua tão ardente quanto se torna perigoso, além de transformar desolação e sofrimento em batidas. A melancolia parece consignada de tão natural a suas vozes, mas por algum motivo a gravação nada tem a ver com dor, mas sim sua contemplação e entedimento. Suas razões do viver estão em cada uma das notas, momento em que transmitem intrínsecas emoções que, finalmente, se transformam em enredos narrados sob tons de 11 faixas. A primeira impressão do disco pode não trazer nada de especial ao mundo, mas uma única mensagem a você: o amor, parte fundamental do humanismo moderno.


Will Do” foi o primeiro e único single do álbum e é uma das principais evidências desta temática romancista moderna da seleção. Nela o narrador assegura que seu amor é imbatível e que a qualquer momento poderá ser desfrutado, sem quaisquer prazos de evasão. Essa parece ser a resposta pra um relacionamento em que ambos relutam temendo inaceitação mútua, ainda que a admiração suscite dos dois lados. O que ele pede é coragem, não só para ele, mas pra ela também, tendo como guardião o seu amor. Essa mesma sintonia é fermentada em “You,” faixa em que ele especifica a quem toda sua paixão grandiosa é destinada, reiterando que embora no plano real as coisas não tenham saído como planejado, em seus sonhos estão no caminho certo, de mãos dadas a ela, a única pessoa que ele amou. Em “Keep Your Heart,” ele protege o coração dela enquanto o resto do mundo colapsa, simplesmente para provar o quão grande é sua devoção, que mesmo diante de impasses, continua sem limites como nunca antes. Sua voz e a melodia nessas são usualmente tristonhas e trazem o retrato de um homem cabisbaixo, com uma antevista impotência para atingir quem ele tanto adora, mas acima de tudo ciente de que entre o tentar e o não tentar, os dois tem desdobramentos de forma predefinidas e iguais, exceto pela chance diferencial do primeiro. A lucidez não parece o bastante, pois seu estado de espírito é moroso quando afrontado com a realidade. A mesma realidade fragmentada na ponte de “Second Song,” faixa introdutória ao disco, em que enquanto ela define sua vida com crueldade, ele irá defender o seu amor para sempre, em busca da luz que raiará sobre sua escuridão. Instrumentalmente, “Nine Types of Light” mostra que há muito mais em comum entre Earth, Wind & Fire – uma assumida influência do grupo – e Jamiroquai do que pensávamos. Não só no som, mas o apelo emocional também é identificável em seus antecessores.

Killer Crane” é outro dos quase incontáveis pontos altos do álbum, onde o eu-lírico, com uma serenidade meditativa, fala sobre seu isolamento e como perdeu sua vaidade, ciúmes e, em especial, sua pressa para com as coisas. A interpretação se torna ainda mais clara quando assistimos ao vídeo que acompanha a música, intercalando cenas do dia a dia deles e situações de shows, o que prova que o amor de cada um não se restringe à líbido, mas a união de uma trivial amizade como outra qualquer. As consequências futuras pouco importam à amizade deles em “No Future Shock,” com o narrador apenas mais intelectualmente primoroso e complexado que variadas músicas pop, igualmente incitando para que se dance e faça como se não houvesse o amanhã. O contexto nela é talvez o mais importante para entender seu furioso desprendimento, quando ele relata que a polícia logo estará na sua cola, mas que isso não é razão para que sua impulsividade se estremeça. Em “New Cannonball Blues” ele cria uma nova modalidade de blues, capaz de explodir com todos os seus ossos tamanha supressão, escrita originalmente em sangue para depois encravar-se em pedra, ou seja, um vívido presente que logo se estagnará em memórias. “Repetition” traduz com maior percepção o eletrônico que tanto lustra o som modernista do TV On The Radio, uma banda que por vezes nos deixam com dúvidas se o que falam é rock, eletrônico ou pop. A repetição se trata da displicência que temos quando diante do que não nos agrada ou, teoricamente, podería nos ofender. Ignorar é só mais uma forma de fomentar a estereotipação, que faz “fecharmos nossos olhos, nos distanciarmos, irreconhecíveis, cruzando nossas mãos e virando as costas, dando início a repetição” e uma óbvia exclusão. Um ato bastante comum nos grandes centros urbanos, lugar onde cada vez mais um parece replicar as normas, não só de convivência mas de pensar, do outro, apavorado com o atípico ou o que foge do seu “repetidor” princípio. “Forgotten” é mais do sentimento ressacado das noites de verão em uma plástica e volátil Beverly Hills, antro dos prazeres instantâneos. A cafeína resgata sua consciência em “Caffeinated Consciousness,” passagem em que ele enfim consegue degustar sua vida em paz, deixando que o futuro escreva sua história, e não o contrário. A descrição do seu estilo de vida aparece no final, quando ele duvida que o ouvinte acredite que sua vida é composta por uma cama de rosas e montanhas-russas. Em outras palavras, um amor belicoso, com tempo para histeria e tempo para o aconchego, tempo para o romance e para a perdição.

Os mais novos irão se lembrar de Fever Ray ao ouvir os primeiros versos de “All Falls Down,” uma das faixas bônus da versão especial do disco, que ainda acompanha um regular (Switch) e um excelente remix (XXXChange) de “Will Do,” chegando assim ao final de sem dúvidas alguma um dos melhores álbuns do ano, que estranhamente pouco é repercutido nas redes sociais espalhadas pelo mundo. TV On The Radio não anseia revolução ou mudar os paradigmas da música pop, rock ou seja lá o que for, mas produziu um dos álbuns mais sólidos de 2011, prestes a complementar à altura a discografia de uma banda que, mesmo confrontando perdas, ainda tem muito a dizer.

Melhor Trecho:

“Leave it behind
Your restless mind
Your jelousies
But isolation
Demands your patience
That we found together in time just to say.”

Killer Crane


Confira o filme completo reunindo todas as músicas aqui.


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