

Arctic Monkeys – Suck It And See

Nome/Músico: Arctic Monkeys
Nome/Álbum: Suck It And See
Lançado: 6 de Junho de 2011
Gênero: Rock/Indie
Duração: 40:09
Gravadora: Domino
Produtores: James Ford
5 anos depois de uma das primeiras bandas a alcançarem notoriedade pela internet surgir, naquele que é conhecido até hoje como um dos períodos mais férteis, virtualmente, do Reino Unido, que trouxe também surpresas como Lily Allen em 2006, ano de lançamento do primeiro álbum dos Arctic Monkeys, “Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not,” o quarteto, que também integrava outros dois rescindidos companheiros, Andy Nicholson e Glyn Jones, sendo o último o original vocalista da banda, que desistiu pouco antes do grande sucesso que obtiveram na Inglaterra, hoje provavelmente não são considerados uma das únicas e sobreviventes salvações do clássico rock da guitarra, mas quando apareceram os primeiros a apontar as distinções da banda foram os críticos, seguidos de uma massiva representação pública. Enquanto ainda eram uma banda de garagem, Alex Turner, apesar de descrito por amigos próximos como um homem humilde, sempre sonhou com o reconhecimento e popularidade desde quando ganhou sua primeira guitarra e começou a escrever suas primeiras canções. O nome Arctic Monkeys derivou-se do guitarrista Jamie Cook, na época com 21 anos, que em tradução para o português, significa “Macacos do Ártico,” formados nos subúrbios de Sheffield, região fria do norte da Grã-Bretanha, fazendo por merecer o título. “I Bet You Look Good on the Dance Floor,” um dos primeiros singles sob o selo da Domino, que assinou com os garotos em 2005, em resposta à ascensão que a base de seus fãs dispunha, atingiu os primeiros lugares nas paradas britânicas, pondo de lado nomes como Sugababes, uma temporária, porém repercutida banda de garotas do Reino Unido, além de Robbie Williams, que saboreava carreira solo. “Favourite Worst Nightmare,” segundo disco, apareceu apenas um ano depois e agora quem dotava de seus 21 anos era o então guardião dos Arctic Monkeys, Alex Turner, que aos poucos notava-se maturidade, não só no som, como nas letras, que tiveram acréscimo substancial nessa segunda tentativa, onde o convívio com a fama passou a ser natural, mas as experiências amorosas de Alex tão tenras e, ao mesmo tempo, explosivas, quanto antes. As garotas pareciam tão semelhantes às do ensino médio como traçou na arredia puberdade de “Fluorescent Adolescent,” ou no meloso rompimento de “505,” os Arctic Monkeys eram então uma das poucas consistências abastecidas por guitarras a adquirem epidêmica relevância no cenário alternativo no Reino Unido. E pouco custou para avançarem os oceanos e se estabelecerem na América que, embora não tenha a incondicional paixão dos britânicos, absorveram da mesma satisfação. Após um projeto paralelo com Miles Kane, os Last Shadow Puppets, onde quem duvidava da equiparada sapiência entre os Beatles e Turner teve a oportunidade de torcer seu nariz, os quatro adentraram na onda melancólica e minguante de “Humbug,” disco em que as guitarras perderam suas arrojadas forças e a sutileza sardônica, seu posto, foi o suficiente para acumular desagrados e um fortuito esclarecimento de que não voltariam a ser o que um dia já foram, independente do clamor à favor ou contra. A aparência lírica entre Morrissey e Turner ganhou mais força à proporção de seus lançamentos, com a tensão adolescente paulatinamente cedendo lugar às ponderações adultas. Entretanto, seus intrigantes romances continuam interessantes como nunca, além de suas metáforas agora menos desaforadas, mas sempre rajantes. Eles podem não mais ser a voz de uma geração – que inusitadamente parece cada vez mais efêmera – mas proporcionam a mesma identificação, com menos calor e um amadurecimento que não veio totalmente a calhar, é verdade, porém mantem-se prazerosos como sempre.
“Suck It And See,” ou “The Rain-Shaped Shimmer Trap”, “The Thunder-Suckle Fuzz Canyon” e outros nomes tão ominosos quanto estes que passaram pela seletiva de título do álbum, traz um pouco do descomprometimento do segundo álbum reluzido pela cautela do terceiro. A principal sensação que dá, depois de escutá-lo e o colocar ao lado da discografia dos Monkeys, é a de que não pretendem tirar o pé do chão tão cedo, mesmo que “Humbug” tenha esculpido ligeira mutação. O quarto de estúdio deles, em quase 6 anos de carreira, não diz a que veio, isso a despeito da minimalista capa que acaba ganhando ares de pretensão – mais ainda se remetermos ao clássico dos Beatles – mesmo que a real ideia tenha sido a inversa, ou quem sabe nenhuma das duas, no final das contas. Fato é que o conceito por detrás do “experimente e veja o que acha,” lembrando pessoas chupando seus canudinhos e expressando as mais sísmicas reações, enquanto o branco anula o princípio da primeira impressão, não parece ser dos mais brilhantes. “Suck It And See” acaba parecendo, nas suas primeiras audições, tão vazio quanto se deduz, com uma porção de músicas que simplesmente vieram para entreter. O intuito é esse, mas com o tempo descobrimos que ele não está sozinho – ao menos não em sua minoria. “She’s Thunderstorms” nos recorda à faceta galanteadora de Alex Turner que, passada a adolescência, continua afinada, com versos dizendo que a moça substituiu sua quietude em acrobacias assíncronas, sem dizer aonde e quando irá sacudí-lo com suas rajadas, sempre acima dele, impondo como se ele fosse um animal de estimação, e ela ciente do quanto consegue mandar e desmandar. Em seguida, o cinismo infanto-juvenil de “Black Treacle” pode inicialmente lembrar o mesmo de Billie Armstrong, quando cantou aos idiotas americanos ou apenas vestiu preto para repugnar cor, mas logo a letra destrata superficial rebeldia quando ele se pergunta por que as estrelas não saíram naquela noite e se lembra que ela não apareceu, sendo assim encontraram algum lugar para se esconderem. As melodias ainda não parecem o forte do álbum, a julgar pelas introduções, que são salvas pelo lirismo aguçado de Alex, por vezes implicitamente atenuante da real importância dos outros membros do Arctic Monkeys, que normalmente costumam funcionar como apoio sonoro ao narrador quase sempre personagem de suas canções. Nesse ritmo, “Brick By Brick” constrói tijolos em cima de tijolos alguns dos seus mais briosos desejos, dizendo que irá jogar ela pra cima, pra baixo, reconstruir e sentir seu amor, porém seu vigor pelo rock’n'roll aparece tão fogoso quanto sua tara por ela. Seria também interessante saber como Alexa Chung, atual namorada de Alex, recebe letras de músicas como “The Hellcat Spangled Shalalala,” em que a garota observada agora pelo eu-lírico é tão atrevida e minuciosa que já deve ter sido pedicure do diabo. Para se livrar da indomável tentação, ele tenta disfarçar com seu “shalalala” enquanto pode, sendo essa sua única saída diante da revelação vermelha a sua frente. Ele ainda pensa em apagar as velas para ver se ela brilha no escuro, tamanha sua impressão.

O cenário agora muda para um dedilhado digno de faroeste norte-americano nos segundos iniciais de “Don’t Sit Down ‘Cause I’ve Moved Your Chair,” primeiro single do álbum. Alex lembra o pior dos malfeitores quando diz que ele ou ela pode arrumar uma briga com o mais forte dos lutadores, pode também tentar encaixar uma peça quadrada num buraco redondo, ou então morder a luz, mas não exagere na confiança ao tentar se sentar, pois ele mudou sua cadeira de lugar. O narrador parece assistir as mais ousadas e perigosas situações as quais o outro se submete até se cansar e voltar a sua zona de conforto, crente que terá seu devido repouso ou atenção, que são cinicamente rejeitados por Alex, ao mudar sua cadeira para outro lugar de maior valia. Em “Library Pictures” até parece que os Arctic seguirão os ventos indietrônicos no começo, mas as guitarras nos jogam de volta ao rock de raíz, principalmente quando ele diz que está montado no canhão que quase dera o nome do novo disco, arremessando trovões que podem ser escutados pelo barulho da guitarra, eletrificando tudo o que toca. Vai dizer que por um minuto não se lembrou do seu pior pesadelo favorito? Rock’n'roll e Josh Homme também servem para lembrarmos dos momentos mais ruidosos dos capangas em “All My Own Stunts,” porém Alex traz à tona a depressão das suas tardes, assistindo filmes de cowboys e tentando colorir sua solidão. Farto do seu tédio, ele pede pra que ela coloque seus sapatos de dança e mostre pra ele como se mexer, pois ele sabe que ela entende do assunto – mesmo que tenha vergonha de mostrá-lo. Sua serenata vai para ela em “Reckless Serenade,” aonde o álbum começa a fazer menos barulho e as letras maior profundidade, como quando ele se questiona durante a noite a respeito do que realmente quer e, na afobação, liga buscando a voz da razão, mas se surpreende com a secretária eletrônica dele. As semelhanças com os Smiths se intensificam em “Piledriver Waltz,” a canção de despedida que desperta Turner pela manhã, avisando que ela cedo ou mais tarde irá atirá-lo como uma bala em um canhão, se livrando da irrelevante história que os dois poderiam ter juntos. Sua suspeita do término vem desde quando ele descobriu que ela guarda mistérios, a princípio esclarecidos quando ela fala, mas irreconhecíveis quando ela vira suas costas. A balada que oferece seus ombros depois do final triste do narrador batuca após cessado o instrumental duvidoso de sua valsa. “Love Is A Laserquest” simboliza o choro da perda do seu amor, que ele quer de qualquer maneira desacreditar que tenha sido algo mais que uma simples adoração. Como disfarce, ele finge ter sido apenas um bobo relacionamento quando é desonesto consigo mesmo. Como se não fosse o suficiente, ele encontra uma nova forma para esquecê-la cantando músicas sobre o verão. Mas a sua questão vai além de seu passado envolvimento quando a pergunta se, agora mais velha, ela acha o amor algo mais sério, ou apenas uma brincadeira estilo “tiro ao alvo”? A resposta, pra ele, continua sendo a segunda. Seus elogios permanecem sem limites em “Suck It And See,” minha favorita do álbum. Sem limites inclusive criativos, dizendo que ela não é uma garota de saia justa, mas uma pequena escopeta, que só resta a ele esperar que esteja apontada na sua direção. “Você tem aquele rosto que simplesmente diz: ‘amor, eu fui feita para partir seu coração,’” canta o coro feminino após a tremula voz de Turner no “middle eight” de talvez a música mais tradicional dos Monkeys, nesta ocasião.
Guitarras sentenciam o final com a mensagem de onde ela errou e ainda erra em “That’s Where You’re Wrong,” com ele finalmente dando a volta por cima de suas obsessões argumentando que ela não é a única no mundo, e que, pra completar, o tempo de seus amores e paixões já passou, ele está em outra. A segunda parte de “Suck it And See” termina com o narrador se desprendendo de suas ilusões e, com a visão mais clara, conseguindo compreender melhor o que foi tudo o que passou, se prevenindo do que está por vir. O amadurecimento de Alex se mistura então com o cabelo grande, barba por fazer, roupas desbotadas e rasgadas do velho e bom rock’n'roll da primeira parte, que com os Monkeys parece ter se elitizado gravações após gravações. Se algo segura o fraco embalo do álbum, são as letras dele e alguma vagante boa melodia aqui e ali, porém a desaceleração é observável. Não são os garotos promissores do rock britânico, mas uma boa banda rock/pop, ainda não estagnada, mas preferindo o pouso a decolagem.
Melhor Trecho:
“Blue moon girls from once a upon a Shangri-La
How I often wonder where you are
You have got that face that just says
‘Baby, I was made to break your heart’”
Suck it And See

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1 mandou ver
leo disse:
7 jul, 2011
ótima review cara, ótima review!