

Body Talk – Robyn
PopHall Queen!
Detalhes do Álbum:

Nome/Músico: Robyn
Nome/Álbum: Body Talk
Lançado: 22 de Novembro de 2010
Gênero: Eletrônico/Pop
Duração: 61:30
Gravadora: Konichiwa Records
Produtores: Klas Åhlund, Patrik Berger, Max Martin, Savage Skulls, Röyksopp, Niggaracci, Diplo, Kleerup, Billboard
Robyn é uma estrela pop incomum. Inclusive por ser incomum, há quem defenda que seu emblema musical não represente o gênero, mas sim algum subsidiário. A pequena loirinha com agora 31 anos, tinha apenas 19 quando seu cabelo já era curto, sem franjas e espetado. Foi em 1999 que a sueca lançou seu segundo álbum solo, “The Truth,” depois de esporádicas turnês pelo mundo divulgando singles isolados. Nele, Robyn já mostrava autenticidade lírica como quando escreveu sobre seu aborto, ou quando exclamava pelo poder às mulheres. Mas foi só no término de 2005 que ela definitivamente surgiu para o mundo, com o lançamento do esplêndido single “With Every Heartbeat,” em colaboração com o produtor sueco KleerUp. O álbum, homônimo e seu quarto de estúdio, foi considerado um dos melhores da época e marcou sua transição ao eletropop e a rescisão com sua antiga gravadora, culminando na fundação do seu próprio selo, Konichiwa Records.
Foram necessários três álbuns até que sua estadia na cena pop fosse assegurada, mas foram precisos apenas dois para consolidá-la como uma das artistas mais originais e criativas a atingirem o estilo. Excetuando-se os méritos sonoros, que com frequência tem recebido o apoio do produtor Klas Åhlund, além de parcerias com nomes ascendentes do eletrônico como as duplas The Knife e Röyksopp, Robyn tem um diferencial: suas letras são tão despojadas quanto sua melodia é instigante. Ao mesmo tempo que seu som é deliberadamente universal, suas letras são íntimas, tocantes e desaforadas. Não alcança a feminilidade debochada de Lily Allen, ou uma tragédia premeditada de uma Amy Winehouse, mas sim a eloquente combinação destas, com o atrevimento de uma dócil libertina. Sempre amante da música popular, a sueca registra em seu currículo trabalhos com o Snoop Dog, Britney Spears e Basement Jaxx. Embora tenha sido coadjuvante na maioria de suas colaborações com grandes nomes, 2010 provou ser o seu ano. A estratégia foi lançar “Body Talk” em uma espécie de trilogia, somando-se 3 EPs com músicas que futuramente iriam compor seu lançamento final, além de lados B e versões alternativas de suas canções originais.
Os olhos da mídia se voltaram a Robyn quando a proposta fora anunciada, comportamento natural levando-se em conta que seu intento anterior recebera congratulações tanto da crítica quanto do seu seletivo, porém abrangente público. O estrondo produziu impacto com o lançamento da música nomeada “Melhor Gravação Dance” no Grammy Awards, “Dancing on My Own,” seu primeiro single, faixa presente na primeira parte da sua trilogia e número 1 nos charts suecos, além da entrada na terceira colocação na categoria Dance da Billboard. Semelhante ao seu primeiro massivo hit, “With Every Heartbeat,” em que ela repreendida remoía a dor da separação com um amado, nessa um elusivo lírico narra sua dolorosa e solitária existência em uma pista de dança, implorando “que está logo ali, por que você não me vê?” para um pretendente que parece ignorar sua presença e até mesmo suas insistentes tentativas em se sobressair entre as demais. “(Ela) está no corredor, vendo ele a beijar,” enquanto prossegue dando o melhor de si, já ciente de que não será a que dormirá ao seu lado, assumindo sua derrota. O narrador parece sensível e gradativamente desequilibrado, consciente de que está confuso e atrapalhado, mas ainda assim predestinado a continuar a noite toda, ao redor de garrafas quebradas, dando voltas e voltas, em círculos, sem saída, perdida, desiludida, dançando sozinha. Na ponte ela oficializa sua desistência, dizendo que só está ali para dizer adeus. O encerramento é tão comovente quanto são suas irascíveis teimosias, com o sintetizador em tom de despedida, resvalando suas tímidas notas em mistura ao suor e neblina que a madrugada consola. No vídeo, uma acuada Robyn aparece deixando a pista de dança, abrindo a porta de saída pacientemente, sem olhar para trás. Às vezes parece difícil entender como sua sensibilidade e, em especial, amplitude temática, ainda não foram capazes de coberturas maiores. Assim como “morrer ao lado” da amada era um “jeito doce” de se despedir para Morrissey, ou quando Lennon descreveu as impressões assombrosas de outros para com ele, dizendo que estava aberto à “qualquer tipo de conselho,” suas letras também viram lemas. Não triviais ou ordinários, mas humanos, pungentes e, uma regra intransponível na cultura popular, relatáveis.
Em “Fembot,” termo que designa um robô humanoide, ela deixa claro que sua frieza, estampada em circuitos eletrônicos, não significa que não tenha sentimentos. Fazendo uma alusão a vários componentes e funções computadorizadas, ela compara suas emoções com dispositivos que racionalmente são ativados ou desativados, numa juventude cada vez mais consumida pela tecnologia, seja em benefício da exclusão ou inclusão. Robyn enuncia então, uma a uma, práticas, pessoas e acontecimentos que literalmente estão a matando, desde álcool e cigarro, à sua turnê ou seu empresário, relembrando episódios desagradáveis durante o deslanche de sua carreira. Irritada e demonstrando arrogância, ela pede para não dizerem a ela o que fazer em “Don’t Fucking Tell Me What to Do.” Insuportável, ela também lista todos os artifícios que tenta incessantemente usar para neutralizar sua apatia em “None of Dem,” com a ajuda de seus amigos do gelo, Svein e Torbjørn, que a projetaram em um dos seus populares singles “The Girl and the Robot,” ano passado.
“Indestructible,” seu terceiro e último single, mostra Robyn numa fusão excitante entre música clássica e eletrônico. Com efeitos sonoros lembrando Kraftwerk e sobressaliências de Jarre, ela opta por se entregar ao amor, disposta a esquecer que outrora havia se machucado, alegando não ter sido inteligente o bastante, pois deixou os bons irem e os maus ficarem. Mas pra ela dessa vez será diferente e nada será capaz de destruí-la, assim como em “Love Kills” ela alerta para a periculosidade em se apaixonar, reiterando que hemos de ser forte, nesse mundo “frio e duro,” até que alguma excessão nos encontre na multidão. Enquanto o pop de Robyn espalha sentimentalidade no lugar de vulgaridade, ela consegue formular com maestria o comportamento da juventude média ou comum, que não se padroniza tanto em termos financeiros quanto estéticos, suscitando muitas vezes sensações vazias e inseguras. Hoje em dia é muito mais fácil ficar e não se comprometer e, ao contrário, é muito difícil e desgastante adquirir responsabilidades em relacionamentos sólidos. Temendo a subsequente rejeição, a geração “terabytes” prefere se divertir com cautela, do que se arriscar no indefinido, enquanto o homem tende expelir proliferação e a mulher degustar a adoração.
Arrependida, lembrando uma tratada densa voz à la Kylie Minogue, em “Time Machine” ela quer voltar no tempo com o objetivo de mudar suas atitudes nem que fosse apenas por um dia ou ocasião, decidida a seguir um único e conclusivo caminho, antes não seguido por ela. Um infantil gemido, em tom sarcástico, é esboçado ao final, denotando alguma espécie de malícia no seu contido sorriso. “Hang With Me,” seu segundo single e uma das minhas favoritas do disco, mostra mais uma Robyn cuidadosa com seu envolvimento emocional, dizendo a seu companheiro que eles podem tranquilamente saírem juntos, mas novamente destaca a possibilidade – dessa vez, aparentando mais iminência ainda – de um desfecho melancólico, senão trágico, entre eles, caso a relação seja levada adiante e em maior profundidade. Nesta última, ela comprova sua peculiar experiência em transcrever reações e posturas modernas, expostas em suas letras, exatamente num ponto em que nos ferimos, aprendemos e nos precavemos, do amor. Precaução que, ao mesmo tempo, abastece sua utopia, que com furor é explorada quando há garantia e confidência em ambas as partes. O mesmo furor, sem precedentes, nutre seu oposto, o ódio, quando invertido.
Em “Call Your Girlfriend” a conselheira amorosa Robyn diz para um amigo esclarecer sua situação com sua namorada, depois que ela naturalmente foi deixada para trás e trocada por outra. Ela pede para que tenham uma conversa, a fim de sanar um processo sujeito a dores ainda maiores caso insistam, sem a mesma atração de antes. “Quando ela ficar triste, conte pra ela como você nunca quis machucar ninguém,” diz uma sábia, porém contraditória Robyn, que agora sugere o que antes repugnava. Contradição humana, inata, de um ser que insiste na metamorfose de ideias, personalidades e, principalmente, emoções. Tanto no reggae de “Dancehall Queen” quanto na eletrônica “We Dance To The Beat,” Robyn privilegia a dança, mostrando um lado muito mais imperativo e másculo, menos explorado inicialmente. Na última, com uma voz robotizada ela ironicamente preza pela dança em resposta às “batidas” de temas delicados contemporâneos, como a simples cultura de distorção de informações ou, comicamente, às pessoas que beijam mal, encostando seus dentes no do outro. Mas o ápice da sua lascividade é atingida junto com Snoop Dog no rap de “U Should Know Better,” onde ela apresenta uma série de imoralidades que seriam muito mais bem reprimidas – ou até mesmo evitadas – do que simplesmente “foder” com ela, dando a entender que quem a desprezou, depois de terem ido pra cama, pode se arrepender pelo o que fez.
Robyn perde a consciência e o senso de si em “Get Myself Together,” relatando estar confusa e sem saber que decisões tomar diante dos graves problemas que ela e, supostamente seu companheiro, se inseriram. Mesmo assim ela se mostra certa e determinada a continuar, embora pareça incapaz de discernir o certo do errado, na busca da solução que finalmente lhe trará de volta aos eixos. Ela se lança ao espaço em seguida, em “In My Eyes,” faixa em que seu alter-ego a consola dizendo que “todos nós tropeçamos ou cometemos erros,” num planeta em que somos “poeiras estelares” e “rebeldes programados em um mundo cruel,” aonde não “ganhamos o que merecemos.” Mas tudo isso se torna insignificante quando ele olha nos seus olhos e diz, uma que seja, sinceridade. A consumação estelar ocorre em “Stars 4 Ever,” onde os dois viram super-estrelas, sejam em cima do capô do seu carro ou vagando pela madrugada, sem trens disponíveis para voltarem. Aliás, voltarem é o que menos querem nesse momento, que para sempre queriam que durasse.
Enfim um final feliz, em meio a recaídas, paixões, impulsos, rancor, sexo, violência e amor. Mesmo quando Robyn parece vociferar, é meiga. Um pouco desequilibrada e, em especial, vulnerável, o narrador sempre retêm um caráter infantil e normalmente inocente, verbalizados por uma voz que mescla uma inconfundível dose de jovialidade e audácia.
Apaixonante.

Melhor Trecho:
“And if you do me right
I’m gonna do right by you
And if you keep it tight
I’m gonna confide in you
I know what’s on your mind
There will be time for that too
If you hang with me”
Hang With Me

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