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21 – Adele
“It’s Not Me, It’s You” Pt. 2

Detalhes do Álbum:


Nome/Músico: Adele
Nome/Álbum: 21
Lançado: 19 de Janeiro de 2011
Gênero: Soul/Pop
Duração: 46:02
Gravadora: XL Recordings
Produtores: Rick Rubin, Paul Epworth, Jim Abbiss, Fraser T Smith, Ryan Tedder, Dan Wilson


Numa época em que Lily Allen e Amy Winehouse guiaram a música pop britânica, Duffy, Kate Nash e Adele surgiram como versões secundárias destas, com aspectos levemente tangidos por suas peculiaridades em contraste ao cerne da comum linearidade à música popular. De um lado, Duffy representa a cordialidade da mulher elitista, educada e exímia. Kate Nash abraça uma excentricidade juvenil, fazendo e sendo o que a inspira, sem temer oposições e de certa forma lembrando a rispidez da sua progenitora virtual, Allen. Adele, por outro lado, pode remeter nas primeiras audições, algum lugar entre os timbres de Winehouse e Duffy, mas certamente com algo mais e provavelmente até melhor a dizer. Fazendo de seus álbuns, até então, uma espécie de diário ou porta-retratos de suas fases, o primeiro, “19,” abordou sobre o amor, por um prisma naturalmente imaturo e inseguro. Agora, com 22 anos, a rechonchuda londrina escreve sobre seus 21 anos no “21,” revelando certas mutações de princípios, ganho de experiência e lições aprendidas depois que seu firme relacionamento com um rapaz acabara e o fato servira de inspiração para compor.

Adele é usualmente concebida como a mais romântica entre a nova e crescente safra de cantoras revelações que tem semeado no Reino Unido. Com canções voltadas quase invariavelmente à idolatria ou renúncia do amor, suas composições não são o bastante críticas ou observadoras, mas sim muito íntimas e pessoais. Digamos que transmitem impressões obtidas num envolvimento afetivo ou amigável, o que a coloca como uma artista mais autoral e menos teatral, assim como os frutos semelhantes na Europa tendem a se representarem. E assim como o próprio Soul/R&B é normalmente interpretado, carregado por fieis emoções e personagens que pouco importam se estão certos ou errados, mas aliviados estão por serem eles mesmos. Sua voz possui uma potência inabalável e arrebatadora, fazendo qualquer um ceder sem maiores exigências ao seu tom compenetrante. Potência a qual não se restringe unicamente a suas cordas vocais, mas também ao seu saliente físico, que continua intacto desde o início da sua adolescência e agora, no que parece ser uma congênita incidência ao sobrepeso, não necessariamente demérito ao charme e brilho dos seus redondos e irresistíveis olhos verdes. Adele é menos clássica que Duffy, menos áspera que Allen e menos dramática que Winehouse, mas mais sentimental e reclusa que as três, como ela mesma diz, “moderna.” Interessada mais no seu interior do que no seu exterior, ela lembra a figura jovem, porém saudosista britânica, infelizmente em processo de extinção em meio a novos vultos e tendências culturais.

Set Fire to the Rain” foi seu terceiro single lançado do trabalho, sucedendo “Someone Like You” e “Rolling in the Deep,” ambas de sua autoria, mas não é de longe uma das inferiores, figurando como talvez o maior destaque do disco. É nela que se percebe, de forma límpida, seu estupendo e flexível vocal, que administra tão bem os agudos quanto os graves, numa canção soterrada por grandiosos acordes orquestrais, um refrão no mínimo comovente e uma melodia avassaladora, levando a crer aos críticos de plantão, que essa já seja uma das melhores do ano de 2011. Não por menos, seu álbum desbancou Lady GaGa e cia. do topo da lista de álbuns mais vendidos no mundo e entrou para a história como o quinto álbum mais baixado da internet na Grã-Bretanha. A razão para o furor é plausível, basta conferir de perto suas composições, que nessa nos introduz um narrador que relembra momentos e reações características de um parceiro com o qual ele acabara de se separar, como é explicitado quando põe-se fogo no presente, acompanhado pelo choro engasgado e a ânsia pelo seu retorno, chamando pelo seu nome com imagens entrepostas de um passado primoroso, mas sufocado por indefinições e falsidades. E é preterindo a insinceridade que suas mágoas são culminadas na sua desistência, porém retêm o desejo de alguém como ele em “Someone Like You,” faixa bastante popular não só na sua terra natal, como além da Europa e uma receptiva América. “Às vezes se mantem com amor, mas às vezes ao invés disso se machuca,” diz uma Adele que choraminga, repetindo a frase que ele mesmo dissera a ela antes de deixá-la. Mesmo assim ela suplica para ele nunca esqueça-la, dando bons votos depois de cortarem suas relações. Ela pede então para ele ir e levar consigo seu amor em “Take It All,” e também para não olhar pra trás e a “desmoronada tola” que não consegue conter suas lágrimas. Apesar do álbum girar em torno da sua separação, a mesma parece ter sido contida e até por isso ainda inesquecível, considerando-se o zelo que ela ainda exprime por ele. Portanto, há pouco espaço para o ódio permitido, mas implícita para o retido, que insistentemente aclara uma Adele inofensiva e relevante, que prefere compreender a relutar acerca da decadência de suas paixões.

Mas como memórias não são só doces, a aridez country a convida em “If It Hadn’t Been For Love,” onde o violão e sua estridente voz contam que ela não teria ido ao outro lado da cidade ou até mesmo carregado uma magnum, se não fosse por amor. Sua complacência logo retorna em “I’ll Be Waiting,” onde ela cautelosamente aguarda aquele mesmo que outrora havia se separado, visando dessa vez momentos e situações mais propícias para engrenarem um novo e renovado romance, argumentando que “estará esperando por ele quando ele estiver pronto para amá-la de novo” e que “ela será melhor para ele,” “alguém diferente.” Querendo aprender, a inocente Adele admite que foi uma criança, mas não renega sua mordacidade ao assegurar que “o deixou sem palavras” quando romperam-se. O estopim da sua paciência estoura numa das mais cativantes, seu primeiro single “Rolling in the Deep,” que traz um coral digno de ABBA alocados em uma paisagem campestre. E é por lá mesmo que Adele o alerta para sua erupção, pois seu coração está queimando e chegando a um nível febril, que a fara impulsivamente sair das escuras, da insignificância e da contenção, diante de um alguém que teve seu coração em suas mãos e brincou. Fazendo até os maiores de seus fãs a confundirem com Winehouse, “Rumour Has It” também faz seu companheiro ficar confuso, ao escutar rumores de que ela estaria com outro, mas que logo é desmentido sob a convicção de que “não é porque ela disse, que quer dizer que ela faria.” Engana-se quem alguma vez pensou que a fofinha londrina era desprovida de qualquer malícia…

Turning Tables” é uma das mais lisonjas baladas do álbum da astuta senhora Adkins. Nela, ela decide dar um basta nas discussões e desentendimentos com ele, que sempre tem o costume de rebater o que ela diz. Se impondo, com os dois pés no chão, ela acredita que irá se prevenir de inflamações ainda maiores. A saudade toma conta dela em “Don’t You Remember,” em que ela teme por ele ter esquecido completamente da sua existência e pede para que se lembre de como se amaram pela primeira vez. “Mas eu sei que tenho um coração instável e amargurado / E distantes olhos, e uma cabeça vertiginosa,” diz uma agora introspectiva Adele, que se conhece muito bem depois de tantas experiências e fracassos no amor. Semelhanças com a dicção de uma Sia Furler não são de todas inadequadas em “He Won’t Go,” que também não seriam estranhas se traçasse uma relação entre “The Girl You Lost to Cocaine” e o narrador que aqui sofre para manter uma relação com alguém que já não é mais o mesmo que antes se comportava, lembrando um “vagante e falido garoto.”

One and Only” revela seu lado esperançoso, quando pede para ele esquecer seu passado, mesmo que difícil, e dar uma oportunidade para ela ser sua única e somente, mas também sardônica e pessimista quando diz para ele se decidir antes que o fim comece. A aurora da madrugada serve de inspiração para a delicada balada “Love Song,” um verdadeiro hino ao amor que é reverenciado sob a ótica dele, que a faz se sentir mais livre, limpa e completa a seu lado. Ao final ela conclui algo óbvio: que “sempre irá amá-lo,” demonstrando certa hipnose nos seus derradeiros dizeres. Com uma tenra voz e tocantes timbres destes, não há quem duvide.

É raro encontrar alguém que esconda seu coração aos 21 anos, mas é fácil encontrar quem queira. Como Adele em “Hiding My Heart,” desapontada depois que ele se foi repentinamente, fazendo do seu sonho de dormir e acordar do seu lado, mera ilusão. E se reservando se encerram os 21 de Adele que, pelo visto, é muito parecido com o de muita gente. Em meio a trancos e barrancos, ela se segura e muitas vezes é até mesmo o agente responsável pelo atrito, que se faz necessário em oposição ao silêncio e abstenção de um relacionamento. É com surpresa que se vê uma Adele tão prolífica ao lado de uma Duffy carente, uma Amy esfacelada e uma Allen tão vigorosa quanto. Justamente as duas mais despadronizadas e imorais. E isso quer dizer algo, felizmente, confortador.

Parece que a música pop está em boas – e com menos glitter – mãos, de novo.


Melhor Trecho:

“Nevermind, I’ll find someone like you.
I wish nothing but the best for you too.
Don’t forget me, I beg, I remembered you said:
‘Sometimes it lasts in love but sometimes it hurts instead’”

Someone Like You


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