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Collapse Into Now – R.E.M.
Eles (re)descobriram!

Detalhes do Álbum:


Nome/Músico: R.E.M.
Nome/Álbum: Collapse Into Now
Lançado: 7 de Março de 2011
Gênero: Rock/Alternativo
Duração: 41:05
Gravadora: Warner Bros.
Produtores: Jacknife Lee


Com o lançamento de “Accelerate” em 2008 e um “Around The Sun” cercado por monções conspiratórias e louvor à pátria em 2004, apenas 3 anos depois dos ataques de 11 de setembro e a consequente assombração terrorista, o lendário R.E.M., hoje liderado com projeção por um barbado Michael Stipe, esteve prestes a estagnar naquela que é equiparada por muitos como o período mais moroso do trio, que é complementado por Peter Buck e pelo guitarrista Mike Mills, embora o baterista Bill Berry tenha participado da fundação mas abandonado o grupo em 96, após “New Adventures in Hi-Fi.” Com um amplo anúncio de que as coisas seriam diferentes em 2011, Jacknife Lee, notável por trabalhos com nomes como U2, Radiohead e Eminem, foi chamado para ser o produtor do décimo quinto álbum de estúdio, “Collapse Into Now,” de uma banda que desde 1983, quando se formaram após Stipe e Buck se conhecerem em uma loja de discos e Bill e Mills, durante a faculdade, molda um legado cada vez mais imaculado no universo alternativo. Para tal, músicos como Pearl Jam, Peaches e a ilustre precursora Patti Smith, foram convidados a contribuirem neste que já é considerado, pela crítica, como um dos melhores trabalhos do R.E.M. dos últimos 15 anos.

Também para Stipe, que confirmou dias antes do início das vendas, sua positividade acerca da obra. Apesar do alvoroço, os três disseram que não irão realizar nenhuma turnê para promover o álbum que, desde os primórdios do sucesso, são lançados pelo excêntrico selo da Warner. “Collapse Into Now” não nos traz eminências pop como “Man On The Moon,” “Imitation of Life” ou “Everybody Hurts,” mas nos recorda saborosos resquícios da musicalidade contundente e expurgante do vitalício R.E.M. tantas vezes reproduzida nos inúmeros clássicos deixados na história. Além dos intocáveis punk/rock, menos soberanos agora, há dessa vez maior espaço para sentimentalidades, introspecções e uma melodia pegajosa pouco percebida nos seus últimos lnaçamentos, o que o avalia mais variado e abrangente em relação a seus catálogos prévios. Como bem disse Mills, um álbum com temas “universais.” E é por essa linha que Stipe canta sobre rumos sociais e políticos, com um toque mais familial, tanto quanto publicamente confessa seus maduros desejos, que por ora aparentam segurança e serenidade, atrás de um ainda sisudo e inadaptável homem. Sendo, na prática, uma das principais referências do rock contemporâneo, pouco se é reconhecido quando a pauta é R.E.M. no mundo da música, que comumente é deixado para trás quando a meta é mencionar nomes de figuras rock por parte dos ouvintes mais jovens. Mesmo a aderência não sendo tão frequente e a adoração, idem, seus hinos mais relembrados permanecem estacionados no fim dos anos 80 e meados de 90, amontoados em meio a experimentações, virulentos sons e um prolixo que por pouco não consome suas inspirações.

Com um linguajar mais espontâneo e cognitivo, “Every Day Is Yours To Win” é uma daquelas baladas que há muito não se via agraciada por uma voz bucólica de Michael Stipe. Outro fator que liricamente pouco presente esteve nos últimos anos, são suas letras concretas e diretas. Auxiliado por um coro ao fundo conduzido por Buck, o narrador encoraja o ouvinte a continuar caminhando em frente, pois mesmo tudo não sendo perfeito, o futuro espera por ele. Ao final, seu conselho é para que permaneça pensando positivo, justificando que é dessa forma que heróis são feitos. Embora a mensagem seja companheira e abarrotada por limpidez, a melodia resguarda um breu patagônico gélido e dissidente. “Mine Smell Like Honey” é talvez uma das principais apostas do grupo como primário e impactante single de divulgação, mas poderia ser melhor se não se tratasse sobre flatulências, não inodoras ou com maus odores, como naturalmente deduziriamos, mas sim como mel. Lembrando as afiadas guitarras de “Document” ou “Monster,” um dos seus favoritos do seu público mais orientado ao rock, ela remete aos característicos abstratos e lúdicos tão demarcados em irreverências como “Bad Day” ou “All the Way to Reno.” Nela Stipe parece novamente incentivar seu interlocutor a se arriscar mais na vida, indo além de onde ele já conhece e experimentando o que antes não ousava, desprezando suas imperfeições, inibições ou sujeitos erros que poderão suscitar no caminho, apenas acreditando em si, ou melhor, na certeza de que pode ser cheirosa a fragrância de seus defeitos, quando aceitos.

Discoverer,” uma das primeiras liberadas para audição gratuitamente, poderia a princípio parafrasear um “Accelerate,” em segunda edição, considerando-se os brios sônicos de Stipe, as ensurdecedoras guitarras e o rock’n’roll sem compromisso tão acoplado por diversas bandas punk/rock em aposentadoria. E é justamente recordar o passado o seu papel, com o narrador dizendo para si que não deve se sentir tão errado por seus desaprovados atos cometidos no passado. Ele então se levanta e escolhe por seguir em frente, sepultando seus erros e motivando sua amada a também fazer o mesmo para que juntos descubram que podem exercer uma nova vida. “All The Best” pode assustar o público de primeira viagem do álbum ao pensarem que mais do mesmo estaría por vir, com versos dessa vez mais simplórios e óbvios, onde um incansável Stipe não economiza na distribuição de seus infindáveis conselhos, dessa vez mostrando na prática como rimar e cantar, para as crianças. Apesar do R.E.M. viver entre a mediocridade e a excentricidade, com um acúmulo de faixas tão ambíguas quanto é a sua perceção afluente no cenário rock artístico, suas músicas costumam se confundir entre o country e pop, não obstante seu caráter mantem-se irrevogável ao rock, depois de mais de 20 anos de carreira. No entanto, são seus hinos pelos quais Buck, Mills e Stipe serão lembrados. Uma banda que, extraindo-se sua espinal artística, nos traz reminiscências de um U2 menos rosado e mais rupestre, conscientes de quando, como e onde estão pisando.

Michael Stipe convidou há poucos dias alguns diretores para realizarem junto à banda, segundo ele, “filmes” para cada música do disco. James Herbert , o mesmo que dirigiu a gravação de “It’s the End of the World as We Know It (And I Feel Fine) ” durante os anos 80, Sam Taylor-Wood e James Franco são alguns dos nomes que colaboraram no projeto. Um dos vídeos mais provocantes, “Überlin,” dirigido pela produtora, fotógrafa e diretora Sam Taylor-Wood, filmou seu namorado Aaron Johnson coreografando movimentos que foram desde excertos de danças tradicionais do balé, até contracenas esquisitas e inquietantes em uma vazia, mas visualmente poluída Londres, o que nos faz lembrar a epiléptica e, principalmente, anômala demonstração dançante de Thom Yorke há poucos meses atrás. Um dos destaques tanto líricos quanto melódicos do álbum, “Überlin” fala sobre a antecedência de um encontro ou ocorrência que poderá mudar o estilo ou até mesmo o conceito de vida do narrador, que busca forças para a mudança numa noite encoberta por estrelas. Sabido do que ele está lutando e como provavelmente se desenvolverá, apregoando na sua mudança, ele está convicto de que conseguirá transgredir naquela noite.

As inundações em Houston são recordadas com rejuvenescimento na política, mas passional “Oh, My Heart,” música em que Stipe proclama seu amor a sua terra e seus entes que nela habitam. Uma das instrumentalmente mais ricas, com coros, um exótico mandolin e trompas, Stipe diz que a tempestade não foi capaz de matá-lo, pois o governo mudou. Declamando, poeticamente, que aquele lugar tem a batida do seu coração, ele ainda completa dizendo que sua reconstrução provou-se triste, verdadeira, porém doce, à medida que comoveu e uniu sua população, fazendo qualquer comparação entre o desastre e o reerguer-se nipônico, depois da cidade de Fukushima ter sido recentemente abominada por terremotos e tsunamis, se tornarem paralelos semelhantes. Jem Cohen foi o responsável pelas filmagens oficiais desta, que foram ilustradas com radiantes e grisalhas paisagens turísticas de Viena, na Áustria. “Hip, hip, hooray!” são as felicitações dadas por Stipe e Eddie Vedder em “It Happened Today,” uma simples e comemorativa faixa que celebra a vitória, obtenção ou simples envolvimento com um objetivo antes bastante intencionado. Esta última, mostra que os laços entre a música pop e o R.E.M. estão cada vez mais, ultimamente, atados.

A libidinosa voz do punk feminino da Peaches forma uma conflituosa combinação em “Alligator Aviator Autopilot Antimatter,” faixa em que seu insólito sentido fica com ainda menos nexo se ouvida em conjunto com o embaraçoso vídeo, aonde as roupas de Stipe beiram a esquisitice tanto quanto a truculência dela. A obsessão pelo passado volta a atordoar nosso narrador em “Walk It Back,” onde expressões como voltar no tempo ou menções sobre mudanças são corriqueiras, revelando que Stipe pode ter muito mais restrições à sua ambição pela mudança, do que efetivamente estar disposto a tal. Obstruído por um “eu” que pouco lhe agrada – ou convence – ele aponta a mesma insegurança para iniciativas que o perturba desde “Losing My Religion” na instantânea “That Someone Is You,” lotada por referências culturais como o grupo musical New Order, Sharon Stone Casino, o personagem Scarface e o ator Al Pacino. “Eu preciso de alguém para agir primeiro,” diz ele agora com preponderância, para concluir em alto e bom tom que aquele alguém é você, o mesmo que o tira e põe de si. Na pluralidade ritmica do R.E.M. também há espaço para um sentimental piano digno de Coldplay amostrado em “Me, Marlon Barando, Marlon Brando And I.” A faixa que encerra as primorosas baladas do disco, diz que o eu-lírico não sabe aonde se inserir. Diante de tantas dúvidas e encenações de personagens que pouco condizem o que ele na realidade é, seu desejo é apenas descansar e poder finalmente dormir, desprendendo-se de seus tormentos.

A recitação radiofônica parece antiquada junto a esbelta voz de Patti Smith na reflexiva “Blue,” que nos estabelece um contato mais íntimo com Stipe, confidenciando um pouco mais sobre sua vida, suas aflições e suas grandes paixões, basicamente contando cada processo do que hoje o fez ser quem ele é, tanto no plano artístico – quando cita que gostaria de ver seus irmãos, irmãs ou até mesmo sua guia Patti Smith, orgulhosos – quanto no plano pessoal – quando reconhece estar profundamente agradecido por estar vivo. Stipe vislumbra a apoteose do R.E.M. quando ordena o término do século 20, sua histórica estadia e parte de uma revolução que se sustenta até os dias de hoje. Patti apenas faz parte da consagração, como essencial orientadora, dessa que talvez seja, oficialmente, a música biográfica de Michael Stipe, senão emblemática do R.E.M.

Assim termina um álbum que veio para ressuscitar o moribundo estigma que o trio vinha adquirindo ao longo dos últimos anos. Uma coletânea, de um R.E.M. que os 80s, 90s e 00s conheceram e ainda conhecerão. Há espaço para todos nós…


Melhor Trecho:

“Storm didn’t kill me
The government changed
Hear the answer call
Hear the song rearranged
Hear the tress, the ghosts and the buildings sing
With the wisdom to reconcile this thing

It’s sweet and it’s sad and it’s true
How it doesn’t look bitter on you”

Oh, My Heart


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