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Angles – The Strokes
Descompassados

Detalhes do Álbum:


Nome/Músico: The Strokes
Nome/Álbum: Angles
Lançado: 18 de Março de 2011
Gênero: Rock/Alternativo
Duração: 34:26
Gravadora: Rough Trade
Produtores: Gus Oberg, Joe Chicarelli


“Eu não farei um próximo album assim. Sem chances. Foi terrível – simplesmente terrível,” foram as palavras do guitarrista dos Strokes Nick Valensi à revista digital Pitchfork alguns meses atrás a respeito das sessões para gravação do ainda quarto álbum de estúdio do grupo nova-iorquino que encantou, crítica e público, com seu debut “Is This It” em 2001. “Angles” sucede um hiatus de quase 5 anos sem nenhum material novo fornecido pela banda desde o morno “First Impressions of Earth” de 2006 e também aclara um método no mínimo inusitado para gravações: a banda separada de seu vocalista. Segundo o próprio Julian Casablancas, o formato foi utilizado com o intuito de estimular o restante dos integrantes a de fato contribuírem no processo criativo que, desde o início, é liderado e até mesmo quase totalmente dominado pelas palavras, decisões e comandos de Julian. Embora não seja bem isso que se vê quando nos deparamos com o desânimo e a descrença estampados nos rostos de cada membro surtidos dessa nova experiência, a banda dicidiu lançar um disco não só distinto na metodologia de composição, mas também na sonoridade e nos recursos utilizados para obtê-la. Pela primeira vez os Strokes soam deliberadamente pop e, ocasionalmente, datados. A fôrmula antes tão aceita e popularizada nos acordes de “Last Nite,” “Reptilia” ou “Juicebox” parece não mais instigar tanto quanto antes, possivelmente devido à visível falta de inspiração de seus criadores, que dessa vez recorreram para os anos 80, sintetizadores e experimentações insípidas. Tudo para enfatizar ainda mais a ideia de que estão juntos, apenas pelo dinheiro e uma longínqua nostalgia do que foram e, pior, do que ambicionam ser.

Além da desunião da banda, alguns vestígios de um irrefutável distanciamente estiveram mais do que nítidos durante os tempos de pausa. Fabrizio Moretti, um intruso baterista carioca no time, formou um projeto paralelo com o também brasileiro Rodrigo Amarante, dos Los Hermanos e Binki Shapiro em 2007 intitulado Little Joy, que tem até então apenas um álbum, reconhecido pela crítica indie. Do outro lado, o guitarrista Albert Hammond sofria depois de uma dolorosa separação com a rodada modelo Agyness Deyn, que já se envolveu com nada menos que 4 roqueiros, entre eles Miles Keane dos Rascalls, Alex Greenwald e Josh Hubbard. Devastado pelo término, Albert se internou em uma clínica de reabilitação para dependentes químicos em meados do desenvolvimento do disco, que sofreu baixas com a sua ausência no início. Valensi, o passageiro mais lúcido e expansivo do período, inclusive recorda que vários, incluso Albert, de repente dormiam ou cochilavam no estúdio de gravação de “Angles.” Como se não bastasse, a âncora dos Strokes, Casablancas, lançou um álbum solo em 2009 de nome “Phrazes for the Young,” no lado A, recheado por melodias pop e uma compensação de todos os seus sonhos oitentistas antes receosos de serem impressos na discografia dos Strokes, e um lado B com experimentos que resvalam no jazz e blues norte-americanos. Parecido com uma versão irregular de seu projeto pessoal, o título “Angles” foi dado em sentido à democracia de ideias que a banda tentou promover na sua gravação, sendo os ângulos a junção das visões de cada um. Uma pena que o resultado tenha sido tão incongruente e desnivelado, à proporção que cada música sucumbe depois de ensaiar, às vezes tímida, solidez. Os efeitos digitais futurísticos de Julian, assim como sua singular voz estão por lá, bem como as guitarras – agora mais desengonçadas – também, mas por razões óbvias estão em desarmonia.

O ska rock dos Strokes aparece em “Machu Picchu,” a primeira faixa do disco e uma das grandes representantes da sua mudança sônica. Nela, Julian procura por motivos extraordinários o bastante para manter acessa sua energia para a vida, e se indaga sobre uma montanha para pular e assim preencher sua necessidade pelo novo e entusiástico. A próxima canção, “Under Cover of Darkness,” foi a primeira lançada como single há dias atrás e flerta com o estilo antigo dos norte-americanos, só que um pouco menos saciante. O título parece associar o fato de estar coberto pela escuridão com a exclusão do narrador sobre os modos, costumes e pensamentos generalizados em uma sociedade. Ele insinua isso quando abomina os amigos de seu alvo, lamenta por todos cantarem as mesmas músicas por 10 anos e prefere se alistar no exército a suportar uma vivência tão mortificante. Mesmo sua adorada sendo simultaneamente sua adversária – talvez por se opor aos seus conceitos e valores – e amiga, ele mantem seus avisos e conselhos e diz esperar por ela, encasulado na escuridão, onde poucos o veem, julgam ou detalham suas ações. Outra interpretação para a faixa, compartilhada por alguns fãs, é de que a música seria uma metáfora para os anos fora dos holofotes da mídia e público por parte dos Strokes. A realidade é que tem sido comum a comparação com o fim dos White Stripes e o argumento de que não queriam manchar a reputação construída ao longo da carreira, e a franca decadência dos nova-iorquinos aqui analisados. Mas, para o bem da música, a separação parece de longe ser a menos provável haja visto que o baixista Nikolai comentou que pretendem se reunir em Abril para um novo álbum. A rapidez tem lá sua coerência se levarmos em conta a frustração que passaram nessa nova estrutura de composição, que para o alívio informaram abandonar na próxima tentativa.

Enquanto “Two Kinds of Happiness” não consegue tirar da mente nomes como MGMT, Cut Copy ou até mesmo um Black Kids menos espumoso, o tratamento na voz de Julian em “You’re So Right” intercala new wave com guitarras de uma faceta rock do Radiohead. Mas ambas perpetuam com o eletrônico, quase onipresente em toda a gravação. A primeira, cujos uivos e murmuros se confudem, a letra debate a teoria, deduzida por Casablancas, sobre os dois tipos de felicidades: a benéfica e a malévola. Já a segunda, mais distorcida, hipnótica e cheia de vocais paralelos, traz um narrador cansado de brigas e discussões. “Taken For a Fool” nos faz lembrar mais uma vez das raízes de Julian com os anos 80 que, quando pop, com uma ritmicidade beirando Queen e, quando as guitarras adentram, o próprio Strokes. A unusual acidez de Julian agora se prende a um ser descabido quando ele se revolta por ela se fingir tola o tempo todo, se escondendo por detrás de sua dissimulada ingenuidade. Seu desgosto é tamanho que ele a dispensa, dizendo que não precisa de mulheres naquele momento.

Máquinas de pinball ou fliperamas fazem o plano de fundo da sonoridade de “Games,” uma das mais atípicas do grupo. As guitarras também chamam por Peter Hook nos anos dourados do New Order. E os synths, aqueles que parecem mais b-sides de “11th Dimension” do trabalho solo de Casablancas, estão mais púrpuros e animosos. Os versos parecem se embebedar e, como em efeito sonífero, chocarem-se com um refrão interespacial que tristonhamente diz viver em um mundo pequeno e vazio. “Call Me Back,” um dos singles que teve seu vídeo produzido por Hammond, ecoa em migalhas por trás de um fundo instrumental esfumaçado e uma guitarra paciente. E é sobre a paciência que ela lida, de uma relação em que, inseguros, um duvida das reais afeições pelo outro.

Se os Beatles tivessem resistido aos anos 80 soariam como o refrão de “Gratisfaction,” uma energética reposição após a névoa matinal da música anterior. Nesta última, Julian diz que ela nunca conseguirá seu amor contanto que continuem se debatendo. Num relance de reconhecimento de seu fado à perdição, ele afirma que ela continuará frustrada desde o florescimento do seu amor até o despedaçar do mesmo. A mensagem é fatídica, contrapondo-se ao edificante coral que com variância surge e resurge ao longo da melodia. “Metabolism” nos lembram as aventuras imperiais sinfônicas instruídas pelo Muse em “The Resistence,” não só pelo som, mas também pelo título burlesco. A letra é uma das mais acessíveis do repertório, confessando que o líder dos Strokes, em tom singelo, diz que gostaria de ser ominoso, mas se acha chato e simples. Seu único desejo é ser como ela, e não um ordinário rapaz que tenta viver uma vida perfeita, sempre contraditório.

Se algo em “Angles” dignamente merece o seu dinheiro, a razão para os seus aplausos só é encontrada no final. “Life Is Simple in the Moonlight” é uma das poucas faixas mantidas do tempo de produção com Joe Chicarelli, e parece reproduzir um gancho com a mesma abordagem expressa na primeira faixa. A vida é mais simples sob a luz da lua pois só assim, em conexão com a natureza e longe de proposições ou normas sociais, se pode sentir e fazer, genuinamente, o que quer num país em que a inocência tornou-se crime. “Não nos tente parar, saia da frente do caminho” grunhe Casablancas, enquanto um dos minutos mais impagáveis do disco aparece na ponte, com um riff delicioso do Valensi.

Supor até onde “Angles” irá ou foi ainda é uma árdua tarefa, apesar de ser fácil constatar a ausência de grandas canções como outrora abrilhantaram seus álbuns. “Under Cover of Darkness” desesperadamente chama pelo velho Strokes, mas em contrapartida estrela um Casablancas longe de seus companheiros no vídeo, lembrando sua solitária capa ao lado de um contemplativo cachorro no seu primeiro trabalho solo. Se algo certamente tem combustível para ir longe, esse alguém é o homem que guia seu batalhão, que urge pelo seu retorno. “Angles” soa como as vulnerabilidades dos Strokes, em fraturas expostas, precisando com urgência de um orientador que aponte aonde e como proceder. Se a amizade continuar, todos relevarem – ou não – seus defeitos, a paixão pelo grupo haver e o comum pacto pela sede artística existir, em poucos meses repentinamente deixaremos as memórias gloriosas do passado de lado para experimentarmos as glórias do presente, mais uma vez.


Melhor Trecho:

“You get taken all the time for a fool.
I don’t know why.
You’re so gullible but I don’t mind.
That’s not the problem.
And I don’t need anyone with me right now.
Monday, Tuesday is my weekend.
You get taken for a fool all the time.
I don’t know why.”

Taken for a Fool


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