

Britney Spears – Femme Fatale
Mrs. Spears
Detalhes do Álbum:

Nome/Músico: Britney Spears
Nome/Álbum: Femme Fatale
Lançado: 25 de Março de 2011
Gênero: Eletrônico/Pop
Duração: 44:02
Gravadora: Jive
Produtores: Dr. Luke, Max Martin, Ammo, Billboard, Benny Blanco, Bloodshy, Darkchild, Dream Machine, Fraser T. Smith, JMIKE, Henrik Jonback, Magnus, Oligee, Sandy Vee, Shellback, Stargate, will.i.am
O retorno da princesinha do pop às lentes da mídia parece pela primeira vez mais coadjuvante do que protagonista. Ao lado de tantas expoentes, como Katy Perry, Lady GaGa e Ke$ha, a agora mãe de família Britney Spears tenta retomar sua aura jovem, inocente e sedutora, tão emulada ao longo dos seus mais de 10 anos de estrada e 7 álbuns de estúdio, além de inúmeros singles nas primeiras posições de charts. Tudo começou com “…Baby One More Time,” em 99, quando Britney ainda era uma garotinha sapeca e travessa, em plena puberdade, aos 18 anos. Max Martin é um dos poucos que a acompanha até os dias de hoje do time do produção daquele que viria a ser um dos maiores feitos pop de todos os tempos. Aliás, produtores sempre foram os guardiões e base de garantia de sucesso comercial, público e lucro em torno dela que é considerada uma das maiores celebridades não só dos Estados Unidos, mas do mundo. “Stronger” foi quem a levou por um tempo indefinido às frequências de rádios por todo o planeta, sendo este um dos seus principais trabalhos e certamente uma canção familiar não só aos tímpanos de seus fãs, mas de todo e qualquer ouvinte assíduo à música popular. Ela ainda era uma adolescente, com só 19 anos, apenas um ano depois de seu cataclísmico surgimento. Jive, subsidiária da Sony e gravadora a qual Britney pertence até os dias de hoje, foi esperta o bastante ao relançá-la consecutivamente visando sua popularidade que crescia de forma exponencial. Moldada e vendida como um produto, sua imagem omissa ao processo criativo de suas obras sempre foi vista como profundo descaso e preconceito pelos que zelam por isso, mas não para quem aceita e, de acordo às más línguas, compram toda a artificialidade da qual Spears faz parte. Embora ela tenha, no seu segundo álbum, escrito sua primeira música – “Dear Diary” – o fato e a canção se tornavam insignificantes perto dos astronômicos hinos de autoria de terceiros que compunham cada um dos seus projetos.
Os ventos mudaram de sentido no seu terceiro álbum, intitulado “Britney,” cujo estilo alterou radicalmente da adorável e simpática menininha, para as sexuais e combatentes notas do hip-hop. Ainda com seu inseparável Max, The Neptunes do concorrido Pharrell Williams foi quem produziu boa parte de suas faixas, que contou também com uma passageira colaboração do seu ex-namorado Justin Timberlake. É complicado acreditar que após um ano de vida suas opiniões e posturas difiram tanto das expressadas um ano atrás, mas agora Britney, com 21, se rebelou e diz estar farta de ser tratada como uma insegura e imatura garota, como em “Overportected,” seu segundo single. “Você precisa ver pela minha perspectiva, eu preciso errar para aprender quem eu sou,” diz ela, completando que não quer ser tão superprotegida. Qualquer um diria que esse tenha sido um dos seus primeiros sucessos de sua autoria, mas não, a música foi escrita pelo seu amigo Max, que parecia ser uma testemunha ocular de todas as reações a qual Spears era imposta pela fama. “In The Zone” deu uma pausa de dois anos de sua superexposição midiática, para então mergulhá-la sem pudor mais uma vez aos olhos de todos com “Me Against the Music,” com a participação especial da Madonna, onde a ideia de rixa entre as duas principais estrelas pop da época foi dirigida, e “Toxic.” O trabalho também marcou sua separação, em 2002, do músico Timberlake. A partir de então, dão entrada os anos em que Britney foi o assunto mais discutido pela imprensa. Não pela música, mas sim pela sua vida pessoal. Sua gravidez em 2005 e seu envolvimento com Kevin Federline, um rapper norte-americano, que teria a separação de seu casamento em 2007, somados à abusiva exploração de paparazos, luxúria, soberba e noitadas sem se preocupar com o dia de amanhã, a levaram ao contágio de depressão e vícios com álcool e drogas. O estopim foi em fevereiro do mesmo ano de seu divórcio, em que após passar um dia em uma clínica de reabilitação, Britney chocou a todos raspando sua cabeça e entrou, tristemente, para a história com uma das imagens mais arrasadoras e, pudera, icônica da indústria fonográfica, onde um fotógrafo pegou com perspicácia sua feição tensa e doentia, sem seus cabelos e os olhos esbugalhados.
A medonha Britney, que passou a andar com garrafas e cigarros em suas mãos, além de um rosto e corpo cada vez mais deteriorado, começou sua volta por cima em 2007, com o álbum “Blackout” e hits como “Gimme More” e “Piece of Me.” A última, zombava dos fotógrafos e todo e qualquer bisbilhoteiro de sua vida pessoal, ao oferecer um pedaço dela a todos. Seus anos de mutilação emocional e física trouxeram a ela sua primeira internação em uma clínica psiquiátrica em 2008, um ano após seu comemorado retorno. Seu sexto álbum ainda foi lançado no final do ano, “Circus.” De volta aos trilhos, mas sem se desligar de sua personalidade explosiva, Britney Spears atualmente parece ter aprendido a conciliar a incomum vida de uma mulher que é monitorada quase 24 horas por dia, sem direito a muita privacidade. Hoje, chegando aos 30 anos, seus já calejados traços faciais mostram que a idade está chegando para aquela que há poucos anos atrás era considerada a menina mais cobiçada pela América. Querendo ou não, o amadurecimento foi, à duras penas, conquistado, mas sua fragilidade e seu emocional exacerbados, talvez inatos de seu comportamento, são carregados por ela desde o início. Admitindo devoção pelos seus fãs, que continuaram com ela nos seus momentos mais difíceis, ela diz que “Femme Fatale,” seu terceiro álbum depois de se perder no mundo das drogas e álcool e se reencontrar, é mais lúcido e lembra a calma emanada depois de uma destruidora tempestade. Calma em relação aos bastidores ao qual ele foi divulgado, pois sonoramente esta é uma volta comprometida às pistas de dança, com múltiplas vertentes do eletrônico sendo harmonizadas ao longo da gravação, entre elas o trance, eletropop e dance. Apesar do crédito não ser total da queridinha, é quase incontestável que as contribuições de seus produtores enchem os olhos de qualquer um. E por falar em produtores, o álbum que presenteia a fidelidade de seus fãs conta com um número elevado de participações. No vocal, apenas a parceria com will.i.am é a mais conhecida, porque Sabi, garota que Britney parece depositar suas fichas, não ostenta nem sequer um reduzido público.
Impressionados devem estar os maias com a repercussão do previsto fim do mundo em 2012 interpretado em suas escrituras ao verem que até a princesa pop resolveu fazer parte do tema no seu segundo single “Till The World Ends,” co-escrita pela sua compatriota Ke$ha. No clipe, seus bailarinos dançam no subsolo dos esgotos da cidade, todos extasiados a esgoelando o lema “continue dançando até que o mundo acabe.” Enquanto isso os prédios desabam, as nuvens escurecem, mas nada é capaz de detê-los, estranhamente protegidos nos dutos da cidade. Britney prefere ser mais uma na multidão, exibindo seus sedutores e hipnóticos olhos aureolados. Como um bom single sob o nome Spears, não poderia faltar o sobre sexo. “Hold It Against Me” pede o corpo dele e pergunta, suspirando na ponte da faixa, aonde a batida cessa e o ambiente abrandece, fazendo do contato entre os dois mais intenso e sentido, se ela pode literalmente ter uns amassos com ele. O single foi número 1 na Bélgica, Canadá, Dinamarca, Finlândia e Nova Zelândia, além claro, de sua casa, os EUA. E foi lá que Britney preencheu o livro de história da música sendo a segunda artista a conseguir duas primeiras colocações em singles estreiantes nos charts da Billboard. No vídeo, Britney chega como um meteóro a um pedestal envolto por microfones, câmeras fotográficas e flashes. O conceito também conta com uma disputa ferrenha entre duas Britney Sepears que entram em colapso, para então formarem uma, com uma única mensagem no fim do vídeo: um ponto de interrogação. Queria ela e, principalmente seu diretor, dar a entender que fama e prestígio, no final das contas, trazem junto ao dinheiro, nada além de conflitos e instabilidades, que colocam em dúvida sua positiva recompensa?
Os produtores suecos Lukasz Gottwald e Alexander Kronlund também estão na ativa em “Inside Out,” música em que a aderente teoria do “carpe diem” é compartilhada por um narrador que está consciente de que seu relacionamento não é para a eternidade, mas que quer um momento para lembrar no futuro e aquele momento é agora, quando pede para que ele cale a sua boca e a vire às avessas. A compulsão pelo impacto estoura Britney em “I Wanna Go,” aonde ela quer ser imprevisível e o centro das atenções. É incontrolável, ela precisa se libertar, escandalizar, ela por fim quer sentir a deslealdade e o imoral, seja o que custar. Os dotes do grupo Bloodshy and Avant, integrado por Christian Karlsson e Pontus Winnberg esbanjam sua criatividade na borbulhante “How I Roll,” uma das melhores do disco. A percussão assemelha-se a um beatbox e Britney tem como companhia uma voz computadorizada que interage com ela no refrão, além de suspiros assustados, gemidos comprimidos e sons vocálicos que permeiam a canção de uma Britney Spears diferente e que entretem. “(Drop Dead) Beautiful,” talvez um dos singles, nos introduz uma ressaltada Sabi, que coloca em cheque o mérito da sua voz afundada por um vocoder. A letra é menos interessante ainda: o narrador fica totalmente embasbacado com a beleza de um rapaz, diz que pagaria qualquer preço para vê-lo melhor e que seu físico é capaz de aniquilar qualquer um. Um trecho que chama bastante a atenção é o em que Britney diz que quem algum dia disse que beleza interior é o que importa, é um mentiroso, pois o que ela se depara em sua frente, o sensual homem, faria qualquer grande garota chorar. O adento de Sabi é menos relevante ainda, com um rap frouxo e sem inspiração alguma, só pedindo para ele trazer o seu musculoso bumbum aqui e agora. No calor do momento qualquer música pop parece envolvente, não é mesmo? Aliás, a maior meta pop está no entretenimento, que particularmente prefiro prezar pela significância e consistência.
“Seal With A Kiss” trata de um romance – mais sexual do que nunca – em segredo entre um narrador e o seu companheiro. Ela compara a relação confidencial com a insaciável vontade de provar a fruta proíbida, selando a despedida temporária dos dois com um beijo. Eles se conhecem e ela entende que ele prefere sua versão selvagem a seu politicamente correto. Mais uma vez, a abordagem sexual é infindável. É o que mantem a chama avassaladora da marca Britney Separs acessa. will.I.am traz mais lenha ao fogo em “Big Fat Bass,” uma faixa típida de sua autoria, com um batidas abafantes e tônicas. Aqui Britney sugere ser o tom fino e agudo da música e ele, o baixo, em tom grave, justamente os dois opostos e a combinação perfeita para a melodia. “O baixo está ficando maior,” ela diz, com insolência. “Trouble For Me” é o rapaz que ela tanto quer, mas acredita que irá se arrepender por trazer problemas. Ela termina o papo dizendo que se ele quer amor, só irá encontrá-lo na pista de dança. Coincidência ou não, a segunda melhor do álbum também é produzida pelos Bloodshy and Avant, “Trip To Your Heart,” uma balada gostosa com uma voz ainda mais, despedaçada e pulverizando ilusões e amargura. A lacrimosa Britney simplesmente diz que irá “voar em uma viagem ao seu coração.” A viagem também é feita aos seus olhos, braços, lábios, língua, toque, lágrimas, pecado, voz e etc., dizeres que lembram muito os penetrados em “Touch” do londrino Seal.
Gwen Stefani é mencionada sonoramente em “Gasoline,” onde agora o rapaz é inflamável e flameja por onde passa, cortando o ar de todas que o desesperadamente deseja. Ela diz que ele a coloca num fogo com labaredas cada vez maiores, pois sua “gasolina” queima demais para ela. E é irresistível, com gemidos, gritos e escârnios dignos de um filme pornográfico. Por falar nisso, um prêmio para as músicas mais sexuais e, quisera, pornográficas, se existisse, iriam uma boa parcela para Britney Spears. Um elemento que desde o engatinhar de sua carreira é associado a sua figura e ela parece cada vez menos querer descartá-lo. Com todos os indícios de single, “Criminal” retrata a paixão da moça pelo vilão, ao invés do mocinho. Uma das poucas com uma letra densa e narrativa do álbum, ela é contada por uma garota que descobre estar apaixonada por um criminoso, “vagabundo,” “mentiroso” e “fingidor.” Mesmo assim, ela pede para que sua mãe não se preocupe com o seu envolvimento com ele, pois ele tem seu nome tatuado e ela acredita que estará segura ao seu lado. Obcecada pelo perigo, errado e pelo impiedoso algoz, ela não se importa com o que os outros dizem ou aconselham, assumindo estar perdidamente apaixonada e querendo viver no limite, dando suficientes votos de confidência para permanecerem juntos. Embora fictícia, quantos por aí não se enquadram nesse perfil delegado a se atrair pelo nefasto e desprezível? Mais do que podemos imaginar, apesar de parecer contrário à princípios morais. Mas é exatamente abolir a moralidade que diversas de suas impetuosas faixas objetivam, pouco preocupadas com as consequências e o dia que está por vir. E é claro, a proposta é comungada por muitos.
Calorosa, geralmente egocêntrica e indisciplinada são alguns dos arquétipos da mulher independente e fatal que Britney Spears desenha no seu álbum recem lançado, que apesar de valorizar quão atentados ficamos quando nos apaixonamos por uma delas, traz personagens ironicamente cada vez mais dependentes do homem, seja apenas com propósitos sexuais ou afetivos. Como aqui a voz exaltada são das mulheres, o eu-lírico parece se divertir com o homem, também o rebaixando como um objeto de brinquedo. Mas também há espaço para sentimentos, saudades e um toque mais humano, num disco que teoricamente procura ascender o estigma feminino a um posto contundente e decisivo, mas na prática recai na mesma dependência à qual somos delas. “Sexual e forte. Perigosa, mas misteriosa. Legal, mas confidente!,” essas foram as palavras da própria para descrever seu trabalho. Ou melhor, ela. Um míssil desnorteado, instantâneo, porém devastador. Britney fica aonde está e sempre esteve, com uma leve pitada de frescor, mas uma imagem cada vez mais gasta e exausta, após anos de repetições. Satisfatórias, entretanto inócuas a longo prazo. Mas a nostalgia sempre nos trata de desmentir. Resta saber se com “Femme Fatale,” mais da mesma receita – que para sua tristeza é plagiada e replicada cada vez mais – fará o mesmo. Independente disso, para o bem de sua carreira, Britney não parece envelhecer como Madonna ou Cyndi Lauper, mas sim como Britney.

Melhor Trecho:
“Mama, I’m in love with a criminal
And this type of love isn’t rational, it’s physical
Mama, please don’t cry, I will be all right
All reason aside, I just can’t deny
I love that guy.”
Criminal

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