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tUnE-YarDs – W H O K I L L
Esteticamente brilhante, emocionalmente insípido

Detalhes do Álbum:


Nome/Músico: tUnE-YarDs
Nome/Álbum: W H O K I L L
Lançado: 18 de Abril de 2011
Gênero: Eletrônico/Indie
Duração: 41:32
Gravadora: 4AD
Produtores: Merrill Garbus, Nate Brenner


Natural de Nova Inglaterra, extremo nordeste dos Estados Unidos, a jovem Merrill Garbus fundou seu quase autônomo tUnE-YarDs em meados de 2006, junto com seu colega Patrick Gregoire numa viagem para Montreal, no Canadá, no que a princípio seria apenas para compor como integrante de seu grupo, Sister Suvi, mas sua humilde e precária permanência na cidade foram compostos que envolveram a criação do seu primeiro álbum, “BiRd-BrAiNs,” lançado em 2006 e gravado em um dictafone, sozinha, no seu quarto. Sua primeira aventura na música foi amplamente aprovada pela crítica, além de conquistar seus primeiros e seletos fãs tipicamente apreciadores de lo-fi, um gênero que prima pela ausência de grandes produções ante um minimalismo que normalmente se sintetiza em uma única pessoa, desprovida de recursos mais tecnológicos e custosos. Foi assim que a atenção se voltou a moça que estudou teatro e trabalhava com fantoches, além de professora de pré-escola, experiências que segundo ela completam o que hoje se tornou o tUnE-YarDs, algo como “Música de quintal,” numa tradução literal e grossa. As letras que variam entre maiúscula e minúscula são só parte do apelo sensorial que ela também exerce, uma já conhecida técnica de disparidade do mundo externo reproduzida por muitos grupos indies. Merrill é parte de uma corrente safra de músicos independentes oriuntos do norte dos Estados Unidos e sul do Canadá, que hoje em dia são conhecidos como Vampire Weekend e Grizzly Bear de Nova Iorque e Broken Social Scene do Canadá.

O que preocupa a robusta garota na sua segunda exposição musical, “W H O K I L L,” com espaços mesmo entre uma letra e outra, algo previamente estilizado com M.I.A. e seu “/\/\ /\ Y /\,” é o receio por perder sua essência depois de conseguir visibilidade e fama no meio em que é discutida. Principalmente por ser mais bem produzido e caracterizado pelo abandono do método decadente de gravação, seu público que antes havia se acostumado e aqueles que adotam ruídos, compressões vocálicas e todos os outros atributos que doutrinam um insofismável fã por opção de lo-fi podem estranhar toda a modernidade que agora círcula ao redor da voz dela. Além de bastante experimental, seu som lembram referências ora ocultas do R&B e outras sonoramente perceptíveis de melodias africanas. Uma conexão com a África muito íntima foi mostrada ao mundo com a popularização do Vampire Weekend, mencionada por inúmeros como uma das bandas salvadoras do rock, juntamente com os canadenses do Arcade Fire. Mas além de um palpável Vampire Weekend, a associação entre tUnE-YarDs e os doutorados dos Dirty Projectors parece mais adequada, aonde até um espaço de parecenças com Björk acerca do seu lado vocal contorcionista parece mais apropriada que a languidez neutralizante da gabaritada Natasha Khan. Na dimensão indie há espaço para qualquer manifestação de cunho artístico, uma cultura que ganha cada vez mais forças entre as classes de elite de Brooklyn, em Nova Iorque, e vem se multiplicando além de suas fronteiras, devido a excentricidade crônica e quase requerida, que procura burlar as leis estabelecidas pela música pop no que diz respeito a estrutura poética e, por que não, fonética. Ao se despedir dos desfavorecidos e ganhar ferramentas de favorecimentos estilístico, a líder do tUnE-YarDs se diz surpresa quando se deparou utilizando técnicas como “middle eight,” vulgo “ponte,” em suas músicas. Logo ela que anteriormente havia declarado que a estrutura era “convencional e chata,” de acordo a uma reportagem para o jornal The Guardian, mais um típico movimento dos reprimidos indies, que buscam incansavelmente pela singularidade. Ela diz ter descoberto a magia com a dupla McCartney e Lennon, aonde os versos do primeiro eram leves e alegres que quando se encontravam com as pontes “obscuras e estranhas” do segundo, formavam um todo, que davam maior vazão às melodias.

Interessada pela cultura musical da Jamaica, ela afirma que o reggae é uma de suas influências, especialmente o gênero Dub, aquele velho conhecido em remixes marcado por intensificar o instrumental e retirar boa parte do vocal. Sua extremidade é tão rente à África que Merrill estudou músicas e tradições africanas em uma viagem que fez pelo continente, resultante de sua obsessão pelos hábitos e culturas locais. África e indie estão juntos e não é de hoje. Coincidentemente, dois grupos rebaixados e desvalorizados no que é atualmente um mundo globalizado. Quando afrontada pela pobreza na África, ela se diz atenta e de certa forma culpada, assim como o restante dos americanos, pelo empréstimo – com cara de furto – da cultura africana a ser transferida para a cultura popular norte-americana, nesse caso, por seu intermédio, sem a devida retribuição ou meios para se preservar os costumes africanos no que seria uma exploração dos tempos modernos. Diferente dessa acusação feita a grupos indies socialmente privilegiados que dissecam modos que nem eles entendem historicamente ao certo – embora achem atrativo – ela se diz ciente de que as referências e igualitários méritos devem ser reconhecidos a eles.

É assustada com a devoração capitalista que “Bizness” ou “Business,” diz que ela é uma vítima e que está viciada, implorando para que ele “Não tire sua vida.” O vídeo, um dos candidatos a melhores do ano, tem Merrill como mais uma no motim, pintados com faixas radiantes em seus rostos e, as mulheres, com o cabelo parcialmente comprido de um lado e curto do outro. Antes de se revelarem adultos, as crianças são quem aparecem inicialmente na sala de aula. A algazarra começa quando uma, sob próximo à mesa do professor, pula no chão dando início a extravasão. Daí então suas versões fisicamente amadurecidas tomam posse com coreografias tribais, caretas, berros cânticos, contorções faciais e toda e qualquer repulsão imaginável, lembrando corrosivos rituais. A pressa dos tambores metálicos em “Doorstep” refletem seu reggae e um dos mais vigentes exemplos da utilização da ponte em suas faixas, seção aonde seu som experimental encontra mais harmonia com o coro feminino. Em “Powa,” uma downtempo guiada por uma guitarra e tambor, depois de pronunciar, sem embaraço algum, que seu “homem” tem como posição sexual favorita com ela “de quatro,” ela quer verdades e se impressiona com o poder interior dele, que a chacoalha como uma canção de ninar. Enquanto “Gangsta” parece uma cantiga pueril, a percussão de “Riotriot” lembra bastante “Taxi Cab” do Vampire Weekend. Nessa última, o narrador parece seduzido por um novo morador na vizinhança, tendo inclusive já sonhado fazendo sexo com ele no telhado. Apesar de lisonjeá-lo, ela tem dúvidas a respeito do que ele é e representa, alguém que mesmo quando não faz nada, faz algo, segundo as palavras de sua adoradora. O que a intriga, parece, é a liberdade advinda da violência. A mesma que “ela não entende” e diz nunca ter sentido antes, mas agora projeta nele, uma violência expurgada nas ruas, misturada em confusões e badernas públicas.

Originalmente intitulado como “Women W H O K I L L,” remetendo a ideia de uma mulher que mata cada uma de suas indesejáveis características, seu segundo álbum e talvez o primeiro propriamente de estúdio, mostra muitas semelhanças com o último lançamento dos Dirty Projectors, “Bitte Orca.” A maioria das canções são experimentais, cheias de instrumentos nativos, como a própria guitarra havaiana, tambores que agora foram desmarginalizados com o sintetizador e uma voz no mínimo excêntrica, com fortes timbres e entonações que levam a devaneios qualquer um. Embora “BiRd-BrAiNs” tenha tido uma aceitação e se espalhado mais no cenário indie, “W H O K I L L” é dotado de um facete mais contemporâneo e eletrônico. Experimentações assim costumam ser bem vistas pela espessa gama crítica, mas é difícil notá-lo como um álbum capaz de mudar os rumos da música alternativa e muito menos pop. De modo artístico sim, é algo cativante e visualmente deslumbrante, o que às vezes nos leva a crer que suas músicas funcionem melhor com um apoio visual do que autonomamente, mais uma razão que vira embassamento da grande maioria que volta com a impressão de estupendo dos seus shows.

tUnE-YarDs é um ato distinto, porém às vezes parece castrado e neutro, com bons momentos isolados e outros tantos indiferentes. Merrill é promissora e talentosa, mas escondida no cantinho do seu quarto, também conhecido como nicho musical. Enquanto isso a apreensão é para saber quando ela aparecerá em definitivo para o mundo. Pouco provável, deverá continuar perambulando pela sua zona, que foi selecionada como um dos artistas a se apresentarem no festival anual da Pitchfork, junto com Ariel Pink’s Haunted Graffiti, Animal Collective e tantos outros que tem cadeira e numeração cativa na revista digital. Mais do que roubar da música tradicional africana, a música pop deverá roubar muitos de seus trejeitos e fórmulas antes mesmo de nos darmos conta de que ela, um dia, existiu. Se queremos criatividade, inovação, ousadia e atipicidade, tUnE-YarDs é uma boa pedida, entretanto desista caso procure por comoção e melodiosidade. O experimental é frígido em contraste com o caloroso pop e viver em um dos dois extremos é radical. Resta saber quando – não só ela – descobrirá.

Esteticamente brilhante, emocionalmente insípido, ela nos faz pensar sobre o que, afinal, é feita a música? Lágrimas ou gritos? Sentir ou contemplar?


Melhor Trecho:

“Mirror, mirror on the wall
Can you see my face at all?
My man likes me from behind
Tell the truth I never mind
Cause you bomb me with lies, humiliations everyday
You bomb me so many times I never find my way
Come on and bomb me
Why won’t you bomb me?
Come on and bomb
Go on and whoa-oh-a-woah-a-oh-ooh-oh”

Powa


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