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PJ Harvey – Let England Shake
“What if I take my problem to the United Nations?”

Detalhes do Álbum:


Nome/Músico: PJ Harvey
Nome/Álbum: Let England Shake
Lançado: 14 de Fevereiro de 2011
Gênero: Rock/Alternativo
Duração: 40:15
Gravadora: Island
Produtores: PJ Harvey, John Parish, Mick Harvey, Flood


Mês passado completou 19 anos da primeira aparição da prodígia Polly Harvey para as massas, na edição de abril de 1992 da NME, quando ela apareceu de topless na capa de uma das principais revistas musicais do Reino Unido. No que hoje seria uma fotografia comum e uma entre muitas, na época causou-se furor entre os leitores. Desde então, a menina que saiu das fazendas campestres de Corscombe, em Bridport, extremo sul do Reino Unido, virou manchete e citação de inúmeros meios especializados, mas foi um pouco antes, final dos anos 80, que ela desenvolveu paulatinamente sua habilidade tanto musical quanto lírica. Em 87, Harvey teve seu primeiro contato musical, na banda Automatic Dlamini, composta por John Parish, Rob Ellis e Ian Olliver, numa época que ela mesmo considerava suas letras pobres e convencionais. Graças a uma rejeição superior de uma então oferta de outra banda recebida por Parish, que no último minuto recusaram substituir o vocalista que estava de saída por ele, Polly recebeu um dos seus maiores ganhos dessa fase que, segundo ela, foram os ensinamentos dele ainda quando nova, com 19 para 20 anos, que lhe orientou principalmente como lidar com o público. John, embora não tenha nem de longe o mesmo crédito que ela viria a ter no desenrolar dos anos, foi o principal de seus mentores e aliados, até o ano de 1991, quando Harvey decidiu sair da banda de Parish para formar sua própria, que se consistia num trio, entre ela e os dois remanescentes do Automatic Dlamini, Rob Ellis e Ian Olliver. Parish então se juntou à banda The Ensenada Joyride, grupo folk regional pouco conhecido da Inglaterra. Com o trio PJ Harvey, a musa alternativa conta ter passado um dos piores momentos da sua carreira, quando fizeram um dos seus primeiros shows para um público de menos de 50 pessoas. O que parecia ruim, ficou pior depois da primeira música, quando a maioria, frustrados, saíram do local deixando a plateia praticamente vazia.

Foi com “Dry,” seu primeiro álbum de estúdio, que ela também recebeu seus primeiros admiradores. O single “Dress” foi seu primeiro sucesso crítico, seguido por “Sheela Na Gig,” canções que lhe deram a escolha de melhor artista revelação de 1992 na revista Rolling Stone. Com “Rid of Me,” segundo como trio, ela fez suas primeiras turnês fora do Reino Unido. No início do ano de 93, Ellis e Olliver se separaram de Harvey, uma eminente debanda que aconteceria cedo ou tarde, pois ambos pareciam cada vez mais omissos como grupo. Era a hora de finalmente Polly caminhar com as próprias pernas. E foi assim com “To Bring You My Love” que, apesar do embarco em carreira solo, contou com a produção de Parish, que agora vagava entre projetos paralelos. Em 98, seu quarto, “Is This Desire?,” Harvey iniciou seu processo de experimentações que a princípio não foram bem recebidas, mas aos poucos eram consolidadas. O álbum também marcou a produção de Marius De Vries, conhecido por ter trabalhado com diversos artistas do cenário pop e por ter ganho notoriedade com a produção do “Debut,” segundo álbum da islandesa Björk. Harvey chegou a seu ápice com “Stories from the City, Stories from the Sea,” considerado um dos seus melhores álbuns até hoje e marcado pela participação de Thom Yorke em três de suas músicas. No ano seguinte, para então consagrá-la como o seu melhor período, Polly foi escolhida pela revista Q, britânica, como a primeira de 100 das mais importantes mulheres do rock. Em 2004 lançou o primeiro álbum produzido inteiramente por ela, “Uh Huh Her,” para depois voltar com as colaborações de Flood – conhecido pela produção de “How to Dismantle an Atomic Bomb” do U2 – e Parish em “White Chalk,” álbum cheio de baladas ao piano. O culto por ela só aumentou em 2009, com o lançamento de “A Woman a Man Walked By,” agora um álbum oficialmente elaborado entre Parish e Harvey, aonde as músicas escritas por ele foram interpretadas por ela. Conhecida pela ambição de se reinventar a cada projeto, com a proposta de evitar repetir-se em seus trabalhos, PJ Harvey é senão a maior, um dos principais ícones do rock alternativo no mundo. Embora seja mais conhecida na música, Polly acrescenta no seu currículo participações em dois filmes, “A Bunny Girl’s Tale” e “The Book of Life,” ambos do fim dos anos 90, além de ter algumas de suas obras como escultora e desenhista apresentadas ao grande público em diversos eventos.

Quatro anos depois, seu oitavo álbum começou a ser desenvolvido, como era de se esperar, diferentemente dos seus anteriores. Agora o tema de interesse de Harvey seriam as guerras, mas não exatamente os combates em si, mas sim suas consequências humanas. Para isso, Polly pesquisou durante os anos a respeito de conflitos não só provenientes de sua terra natal, a Inglaterra, mas procurou exercer uma abrangência maior, trazendo aspectos e sensações a um conexto universal. “Let England Shake” teve suas letras compostas inicialmente, antes da música, e contou com a ajuda de um instumento que Harvey havia pouco antes adotado em suas turnês solo, a auto-harpa, muito utilizada no country. O primeiro single, “The Words That Maketh Murder,” traz Mick Harvey junto ao vocal de Harvey numa música que questiona a concepção posterior das atrocidades de uma guerra como assassinatos e um ato criminoso, mas na verdade nada é feito para que se evite ou interrompa a sucção do conflito em si. “Eu vi e fiz coisas que gostaria de esquecer,” diz um narrador perturbado e divagante, perdido no tempo e nas palavras, recordando cenários com “braços e pernas pendurados nas árvores” e “soldados caindo como pedaços de carnes,” lembrando que sua única esperança é a saudade de um rosto de uma mulher. Os fatos e questões de justiça e valores são tão confusos e inexplicáveis que o narrador se pergunta, ao final, com seu companheiro, o que aconteceria se ele levasse seu caso às omissas e cada vez mais impotentes Nações Unidas, que hipocritamente espera o crime acontecer, diante de seus olhos, para depois criminalizar, como se esse fosse o desdobramento natural das coisas. Em “The Glorious Land” a voz desesperadora mas ao mesmo tempo suplicante agora faz perguntas ao que tudo indica sem respostas sobre o que, na verdade, forma a glória de seu povo. Ela começa rebatendo os preceitos para o desenvolvimento e fortificação de uma nação, dizendo que sua sociedade não progride com aradores, cultivos e lavouras, mas muito pelo contrário, com tanques, pés e marchas. Ao invés de trigos e milhos, sua terra é semeada por ódio e destruição, enquanto a América adquire caráter protagônico na súplica “Oh, America,” para a Inglaterra então receber seu berrante e mortífero eco em “Oh, England,” mostrando a desatável aliança entre as duas nações e o reflexo indefensável de um no outro. Se nos primeiros “Oh, America” os Estados Unidos pareciam amedrontados na Primeira Guerra Mundial, o último suspiro norte-americano revela maior oportunismo e destreza, enquanto o último “Oh, England” continua sofrido, num conflito onde a Europa tornou-se o parque de diversões de um Estados Unidos que lucravam com a abominação europeia e imune estavam dos ataques, em um continente distante. “Qual é o fruto glorioso da nossa terra?,” pergunta o desandado narrador, “Os frutos são crianças deformadas e orfãs,” responde um desolado coro, também sem rumo e propósito.

Na melódica “On Battleship Hill,” Polly mostra que mesmo depois de esburacada e ter servido de terreno para combates sem fins, oitenta anos depois tudo parece ter voltado ao seu lugar novamente e ela, a natureza, recompõe-se, vencendo uma batalha que jamais o homem sará capaz de denegrí-la. “Nos montanhosos campos de batalha eu escuto o vento, dizendo ‘a natureza cruel venceu de novo’,” diz o narrador ao lado de um melancólico e nostálgico solo de piano, trazendo lembranças que, carnalmente, a natureza tratou de esvanecer, cruelmente. Em “All and Everyone” ela relata a ofensiva de um batalhão consciente de que irão encarar, frente a frente, a morte e muitos não voltarão para casa. Aqui seu vocal é mais uma vez vago e distante, demonstrando um misto profundo de desesperança e arrependimento, mas acima de tudo fadado a defender sua nação e, para tal, da forma menos indulgente possível. Não só aqui, mas na maioria das músicas, a intenção de Polly é personificar cada um dos personagens da guerra, sejam eles vítimas ou civis, num álbum que ela mesma mencionou que seu objetivo foi captar as emoções de seres humanos que estão inseridos, acidentalmente ou propositalmente, em conflitos do tipo, e não características bélicas ou racionais.

A mistura entre amor e tristeza é feita na idolatria à pátria “England,” faixa em que independente das circunstâncias, sua destemida paixão existirá pelo seu país, que ela vê sacudir em tempos onde as danças e euforias foram substituídas pela indiferença em “Let England Shake.” Indiferença essa criada por pedras que desabam sobre as montanhas, assolando amáveis rios e emudecendo pássaros, que dão lugares aos insetos, atraídos por carnes frescas. Bobby, personagem da faixa anterior, é mais um entre os incontáveis civis que trocaram seus sorrisos por feições vazias, que o narrador teme que “nosso sangue nunca irá ferver novamente.” O patriotismo segue em “The Last Living Rose” quando ela culpa os europeus por lhe tirarem a Inglaterra cinza, de poluição úmida, livros velhos e névoas por detrás das montanhas, para em seguida exigir que lhe deixe ver o céu se mover, os oceanos brilharem e a noite cair sobre os rios mais uma vez no país que ela tanto ama que, embora não seja perfeito, traz particularidades, sejam elas belas ou não à primeira vista, mas reais, que só sua terra dispõe. Apesar de PJ Harvey citar os combates e testimoniais que teve no Iraque e Afeganistão como inspirações para o seu álbum, muito dele se refere a Inglaterra e o reflexo de rusgas presentes nestes dois países a outras ocorridas historicamente envolvendo a Grã-Bretanha. Se houve alguém, algum dia, que duvidasse da desproporcional paixão que Harvey tem pelo seu país, seu oitavo álbum é uma prova disso.

Depois de darem adeus a suas esposas em “Bitter Branches,” com seus amargos braços acenando despedida, em “In The Dark Places” ela conta passo a passo a ida dos soldados ao combate, acordando pela madrugada, lavando seus rostos, caminhando até o campo de batalha, com suas cruzes, em direção a um lugar em que alguns retornarão, outros não. O narrador então atribui o desconhecimento do mundo, à razão para guerras e bombardeios, com homens se rastejando sob lamas e sujeira, ao apoio de suas armas, em regiões escuras, sem nem mesmo se assegurar do porquê faz aquilo. Os rapazes são jovens, e as moças também, jovens estes que esterilizados pela guerra, veem o verão passar antes deles, alguns inaptos a jamais conhecerem o segredo dos doces sabores da vida. Ao invés do cantar dos pássaros ou o ruir dos ventos atravessando as folhas das árvores, ouve-se tiros de armas em “Hanging In The Wire,” onde corpos e seus fantasmas vagam pelos arames. O álbum mesmo possuindo majestosas canções e talvez ser considerado o melhor de Polly, enfrenta sua recessão próximo ao encerramento, com baladas mais anestésicas.

Em “Written On The Forehead” os soldados tem marcado em suas testas seus destinos que, quando não mortos, carregam para sempre as enfermidades, sejam físicas ou psicológicas, dos lugares ou cenários que foram obrigados a vivenciar. Seus olhos choram por qualquer coisa, com o fogo, sangue e tiros sendo suas principais e desconfortáveis lembranças, que dificilmente deixarão de fazer parte de suas rotinas. Complementado por ela, está o narrador de “The Colour Of The Earth,” que afirmou que a cor da Terra, um dia, foi vermelho escuro e sombrio, segundo ele, a “cor do sangue.” Este dia começou com Louis, seu melhor amigo, correndo além da linha do grupo de combate, sumindo na escuridão da floresta, para nunca mais voltar. Mais tarde, seu amigo escuta a voz dele, chamando por sua mãe e por ele, mas seu amigo é incapaz de resgatá-lo, na montanha aonde por mais de 20 anos seus ossos permanecem por lá, agora vivos na memória de seu colega. O álbum finaliza com o dueto entre Polly e Mick Harvey, além de seu escudeiro de longa data, Parish, somado a um retorno do coro que vorazmente se juntam aos três quando o narrador afirma que Louis, ainda sobrevive em seu pensamento. O disco termina com a nostalgia, atormentadora e amarga, de quem voltou para casa, mas nunca conseguirá esquecer pelo o que passou, em nome de seus amigos, sua família e seus filhos; sua pátria, agora manchada e supérflua, conquistando uma vitória que jamais seus vencedores celebrarão.

A ex de Nick Cave talvez tenha produzido o melhor álbum de sua carreira, mas certamente é a melhor das pinturas sonoras sobre a Primeira Guerra Mundial e, por que não, de amor a Inglaterra. Uma mulher que não satisfeita com sua ímpar discografia, resurge com ousadia em temas, tímbres e instrumentos não antes adaptados. Embora “Let England Shake” tenha seus momentos de apagões e devaneios, o brilho de algumas trazem luz o bastante para a admiração do ouvinte. Agora, além de suas letras, por incrível que pareça, terem aprimorado com o tempo, desta vez voltando às atenções para o outro, ao invés de si, a melodia pop realizou a combinação perfeita com o lírico espontâneo e analítico, num dos já melhores álbuns do ano, que traz a certeza de que Polly é uma das roqueiras mais sólidas e intimistas no meio, e uma artista com fôlego – e habilidade – para experimentar cada vez mais longe.


Melhor Trecho:

“And what is the glorious fruit of our land?
(Its fruit is deformed children.)
What is the glorious fruit of our land?
(Its fruit is deformed children.)
What is the glorious fruit of our land?
(Its fruit is orphaned children.)
What is the glorious fruit of our land?
(Its fruit is deformed children.)”

The Glorious Land


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