

Música pop e balé parecem dois estilos dissociáveis quando se percebe o quão poucos artistas em evidência ousaram experimentar além de novos horizontes, apesar de muitas produções pop dançantes de shows modernos terem o habitual suporte de artistas do ramo, representados nos dançarinos que geralmente acompanham a estrela central em alguma apresentação. Via de regra, a prática é replicada ano após ano, seja com a precursora Madonna ou suas discipulas Britney Spears, Kylie Minogue ou Beyoncé. Mas a raridade está na incidência de artistas que propriamente compõem suas trilhas, respeitando quaisquer parâmetros que com crucialidade são impostos ao escritor, como a segmentação em atos ou até mesmo a necessária adequação da melodia ou temática ao contexto ao qual a história se baseia. Foram interessados nessa filosofia que Neil Tennant e Chris Lowe, a dupla que forma o Pet Shop Boys, grupo eletrônico inglês, decidiram realizar uma turnê com a proposta de um show teatral, seguindo a tradição de espetáculos como “Diamond Dogs” do David Bowie e “One Man Show” da Grace Jones, ambos ícones da música popular de meados dos anos 80. A produção foi intitulada “Performance” e excursionou pelo mundo em mais de 8 países diferentes, nesta que fora a turnê mais cara e ambiciosa do grupo, em 1991, dois anos antes do histórico “Very” e a ecumênica “Go West.” David Fielding e David Alden, dois diretores de ópera renomados da “National Opera in London” foram os responsáveis pela direção, enquanto Jacob Marley coreografou. O evento ficou marcado por dispensar músicos no palco e manter apenas dançarinos, instruídos em cenários relativos às abordagens que cada música expressava.
Dentre as canções, as mais marcantes foram “My October Symphony,” faixa que expõe a perplexidade da população russa afrontando o fim de um sonho comunista; “I’m Not Scared,” em que nos encontramos com um narrador profundamente indignado pela hipocrisia dos ao seu redor; “This Must Be The Place I Waited Years To Leave,” música escrita com base nas experiências de Neil em uma escola católica e “It’s a Sin,” um dos hinos à liberdade de escolha sexual. Além de outras bastante conhecidas como “Always On My Mind,” “West End Girls,” “Suburbia” e “How Can You Expect To Be Taken Seriously.” Nessa última, os dois se vestem de ganaciosos e inescrupulosos “pop/rockstars,” demonstrando o mínimo de apreço a seus fãs, para ao final serem devorados por porcos famintos, que são conduzidos pelo lema de “Opportunities (Let’s Make Lots of Money),” outro marco do final dos anos 80. “We All Feel Better In The Dark” trouxe um Chris Lowe desinibido que não se intimida ao fazer um “strip-tease” parcial no meio do palco, para depois se acomodar foleando uma Playboy em suas mãos, ao lado de criaturas dos mais bizarros e andróginos tipos. No show, fazendo jus ao cunho teatral, houve espaço tanto para o amor quanto para a desavença, e tanto para a mesquinharia quanto para a formalidade.
Embora a intenção fora bastante ambiciosa e as apresentações tenham rendido notáveis reconhecimentos, o apelo pelo duo decaía depois do primeiro lançamento aparte da música disco e dance, com incrementos mais voltados à música ambiental e downtempo, o “Behaviour”, que comportou a hoje clássica “Being Boring.” A dupla perdeu dinheiro e pensou em encerrar sua carreira. Idéia que logo foi descartada depois do sucesso que o álbum sequinte com encarte de Lego, “Very,” se tornou uma das principais obras dos anos 90. O Pet Shop Boys só voltou a experimentar em um novo projeto paralelo em 2002, com o musical “Closer To Heaven,” tematicamente semelhante ao seu “Nightlife,” álbum de estúdio de 99 e, como o próprio nome denota, tinha a noite como elemento fundamental e plano de fundo do repertório. Com “Closer To Heaven” não foi diferente: embora não intencional, mas reincidente, o seu público alvo foram os gays, embora a história se desenrolava em torno de um protagonista que vivia entre abusos e desleixos da noite, o que resultou na sua dependência com drogas e bebidas. Em meio a farras ininterruptas, as faixas procuravam exprimir um aspecto mais reflexivo de cada passagem do narrador, seja a respeito dele mesmo ou de quem os rodeava. Aguçada por dramas, o projeto e inclusive o período, foram um dos mais tórridos e sentimentais da dupla. Deixando a libertinagem de lado, a trilha para o filme mudo do russo Sergei Eisenstein, “Battleship Potemkin” primou pela dedicação orquestral com a ajuda da orquestra filarmónica alemã Dresden, conduzida por Jonathan Stockhammer, produzido por Sven Helbig e orquestrada por Torsten Rasch, conhecido por suas colaborações com a banda metal Rammstein. O trabalho, que trilhou o filme sobre a revolta do batalhão do couraçado russo Potemkin contra o regime imposto pelo seu próprio império, os levaram a apresentações ao ar livre na Trafalgar Square, conhecida praça londrina, para mais de 25 mil pessoas, além de inúmeros concertos pela Alemanha e recusas censuras de países como Irã e China, quando solicitados. O banimento se repetiu com o lançamento de um novo álbum e a faixa “Legacy,” com o trecho “Time will pass, governments fall / Glaciers melt, hurricanes bawl (O tempo irá passar, governantes cairão / Geleiras irão derreter, tempestades irão vociferar)” sendo censurado na China. Embora o governo chinês tenha emudecido apenas estes versos, Chris e Neil optaram por deixar, ao invés disso, a música inteira instrumental.

Seis anos depois, após um político “Fundamental” e um extrovertido “Yes,” Chris é o responsável pela germinação da ideia de um balé, concordada por Neil. A história é uma pouco conhecida do dinamarquês Hans Christian Andersen, conhecido mundialmente por ser autor de contos infantis como “O Patinho Feio,” “A Roupa Nova do Rei” e “A Pequena Sereia,” sendo a última um grande sucesso readaptado pela Disney. “The Most Incredible Thing,” ou “A Coisa Mais Incrível,” traduzido para o português, é um conto sobre uma competição oferecida por um rei que tem como recompensa, ao vencedor, parte do seu reino e a mão de sua filha. O vencedor é o criador de um relógio diferente, que marca as horas ilustrando fatos ou representações humanas, como quando o relógio marca 3 horas com os “Três Reis Magos” ou as 10 com os “Dez Mandamentos.” A criação é nomeada pelo rei como a “Coisa Mais Incrível” e ele acaba sendo o vencedor. Mas um insatisfeito e rude perdedor surge com um machado e esmigalha o relógio, momentos antes de seu casamento. Pelo feito e com a alegação de que agora ele é quem fez a coisa mais incrível, ao quebrar o relógio, ele é condecorado então com o prêmio, mesmo diante de uma agora infeliz princesa. Mais tarde, quando todos estão preparados para o casamento, miraculosamente os pedaços do relógio começam a se reformar, pedaço por pedaço, para ao final atacar o bruto homem que antes o quebrou. O acontecimento é recebido por todos como algo ainda mais incrível, portanto, seu criador leva o prêmio de novo e finalmente se casa com uma princesa, junto ao reino, contentes.
O conto de fadas de Andersen foi interpretado pela pesquisadora Maria Tatar como uma sumarização do seu ponto de vista sobre a “essência da arte,” com o relógio representando ambas temporalidade e transcendência. Conforme ela, o relógio mistura o material com o sagrado e o Paganismo com o Cristianismo.” Com isso, o relógio desafia a destruição e vive de uma forma que humanos não conseguiriam. Para Neil, a moral da história está no fato de “você poder destruir um objeto, mas nunca uma idéia,” que pode ser transmitida, aprimorada ou seguida ao longo do tempo. Na analogia, a história foi utilizada pela resistência dinamarquesa contra a invasão comunista, que personificava o gentil rapaz criador do relógio como a “democracia” e seu animalesco destruidor como o “nazismo,” que mesmo depois de destruir o relógio, ou seja, a “democracia,” ela resistiu e perdurou na mente destes que sobreviveram, em forma ideológica. Apesar deste ser um dos seus contos menos populares, Andersen o tinha como um dos seus melhores. “The Most Incredible Thing” foi publicado durante a ocupação nazista em meados da Segunda Guerra Mundial e muitos dizem refletir o estado emocional ansioso do escritor, que temia a substituição de uma “fé ainda mais profunda,” segundo suas próprias palavras. Na peça, um dos principais dançarinos, Ivan Putrov, que convidou os amigos Neil e Chris para escreverem uma trilha para um balé, faz seu primeiro vilão de sua carreira, que antes já foi destacada com papeis como o príncipe Siegfried em “O Lago dos Cisnes” e John Cranko em “Onegin,” ambas do compositor russo Tchaikovsky.

A coreografia está por conta do venezuelano Javier De Frutos, que ficou conhecido na Inglaterra pela BBC ter censurado, instantes antes da apresentação, sua peça “Eternal Damnation Of Sancho and Sanchez,” que continha polêmicas figuras como um Papa deformado, freiras grávidas e cenas violentas de sexo. Segundo o editor de Música e Eventos da BBC, não era possível nem sequer editar a peça, pois provavelmente destruiria o trabalho, que requer o complemento destas. Apesar do corte, a BBC ainda manifesta interesse em exibir alguma de suas outras obras, futuramente. Além disso, seu nome circulou bastante na Europa devido a suas chocantes apresentações nu. O choque, para ele, “é apenas um estado temporário: uma vez que a poeira abaixe, as pessoas conseguem ver sobre o que um trabalho realmente é.” Sobre sua nova parceria com Chris e Neil, ele afirma:“É para a família,” diz o também dançarino, e completa “Eu não sabia o que diabos isso significa. E eles não me contaram qual o tipo de família.” Além de Javier, a direção e adaptação da história está nas mãos de Matthew Dunster.
A música, escrita pelo Pet Shop Boys, conduzida por Dominic Wheeler e orquestrada por Sven Helbig, o mesmo a participar também da produção do “Battleship Potemkin,” foi lançada em CD duplo dia 14 de Março e divide o balé em 3 atos separados: o início, com “The Grind” sugerindo o trabalho maçante e pesado sobre o qual o protagonista era submetido, em um período monárquico; “The Challenge,” representando o desafio que o rei propôs ao seu reinado para mostrarem a ele a coisa mais incrível; “Physical Jerks,” mostrando como seria difícil para o frágil rapaz competir com brutamontes – o segundo ato, contextualizando o relógio e como ele funcionava, em quatro faixas separadas, agrupando cada uma, três horas distintas, com melodias e tópicos diferentes e relativos às horas marcadas, além do desfecho com o humilde criador sendo creditado como o vencedor, para em seguida ver ser relógio ser destruído pelo asqueroso perdedor – e o terceiro ato, onde ele volta ao trabalho viril em “Back To The Grind,” mas o milagre surge pouco depois, com a ceriômia – ainda sendo realizada entre o destruidor e a princesa; a revolução, em que o relógio gradualmente se recompõe; a ressureição, com o relógio neutralizando o homem que antes o destruira; Cor e Luz, aludindo ao retorno da esperança e festividade e um reprise de um encontro, entre o plebeu e a princesa. Para então se casarem em “The Wedding,” ao som de uma triunfante sinfonia.
“The Most Incredible Thing” está em cartaz em Londres do dia 17 ao dia 26 de março no teatro Sadler’s Wells, uma das casas mais reconhecidas do Reino Unido e famosa por ser um dos principais locais de danças e produções do mundo, com um grande número de artistas e companias associadas para criarem obras originais do teatro, que existe desde 1683, no mesmo terreno e que inicialmente era tido como um ambiente de boemia.

Com colaborações e aventuras como essa, a mescla entre balé, música clássica e música pop não parece tão distante quanto pensávamos. O abismo se torna ainda menos profundo quando olhamos um pouco para trás e vemos um Kanye West, com sua recente gloriosa “Runaway” nos introduzindo bailarinas em reluzentes atuações, ou então no momento em que nos deparamos com Thom Yorke e sua viral histeria em “Lotus Flower.” A tendência se consolidou quando, recentemente, Paul McCartney disse estar escrevendo uma trilha para um balé contemporâneo, de nome “Ocean’s Kingdom,” que será realizada pela compania New York City Ballet em Setembro.
Concebido como uma das melhores performances no Glastonbury do ano passado, depois de “Together,” recente single da dupla como Pet Shop Boys, produzido por um dos integrantes do grupo de produtores pop inglês Xenomania, Neil e Chris já pensam em um novo álbum e até mesmo em um novo musical. Em entrevista à revista digital “The New Gay,” Neil comentou que a música pop carece atualmente de exuberância, além de tecer algumas observações culturais ao que ele chama, hoje em dia, de cultura “cool.” “A ideia ‘cool’ é sufocante. É muito mais refrescante ser ‘uncool.’ É aí que o bacana começa, e às vezes isso pode então ser ‘cool.’” Perguntado, ao final da entrevista, sobre algum conselho que ele pudesse dar aos leitores, ele disse “Eu realmente não dou conselhos às pessoas. Meu conselho seria para seguirem seus instintos. E é o que tenho feito.”
Confira abaixo o vídeo de divulgação do balé e a tracklist:
“The Most Incredible Thing”
Pet Shop Boys e The Wroclaw Score Orchestra
Act One
1.01 – Prologue
1.02 – The Grind
1.03 – The Challenge
1.04 – Help Me
1.05 – Risk
1.06 – Physical Jerks
1.07 – The Competition
1.08 – The Meeting
Act Two
1.09 – The Clock 1/2/3
1.10 – The Clock 4/5/6
1.11 – The Clock 7/8/9
1.12 – The Clock 10/11/12
1.13 – The Winner
1.14 – Deconstruction
Act Three
2.01 – Back To The Grind
2.02 – The Miracle – Ceremony
2.03 – The Miracle – Revolution
2.04 – The Miracle – Resurrection
2.05 – The Miracle – Colour And Light
2.06 – The Miracle – The Meeting (Reprise)
2.07 – The Wedding
Clique aqui para conferir prévias das músicas acima.

Envie este artigo por e-mail






1 mandou ver
Lia Nakley disse:
20 abr, 2011
Ouvi a trilha e está uma maravilha.