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Amy Winehouse (1983 – 2011):

“They tried to make me go to rehab / But I said ‘no, no, no’.” Foi assim que aqui no Brasil terminou o Jornal Nacional. E é também bastando esboçar os dizeres “They tried…” que a busca rápida do Google indica trecho do refrão da música de maior sucesso de uma das cantoras mais repercutidas do Reino Unido, Amy Winehouse. Que tem apenas dois álbuns de estúdio: “Frank,” antes de conhecer Blake e a fama, quando ela apenas suspeitava que o amor era cego, e “Back to Black,” depois de Blake e a fama, época em que mandaram ela ir a uma clínica de reabilitação, ela avisou que não era confiável, além de achar o amor um jogo derrotado e disse que suas lágrimas se secavam sozinhas. Winehouse se dizia muito parecida com Blake Fielder-Civil com quem ela era casada desde 2007, mas as brigas passaram a ser constantes após algum tempo juntos, sendo a mais marcante ocorrida em agosto do mesmo ano, em que ambos apareceram machucados pelas ruas depois de um violento desentendimento e visivelmente alterados pelo uso abusivo de drogas e álcool. Com acusasões dos dois lados de traições, era previsível que a relação tomaria rumos ao divórcio. E foi o que aconteceu, com a reluta de Amy que não queria se separar do seu então esposo, que tinha formal desaprovação do seu pai coruja, Mitch Winehouse, alegando que o comportamento transtornado de Amy se sucedeu depois de seu envolvimento com ele. Seu casamento, na realidade, foi descrito por ela depois do divórcio, como um período em que passavam dias e noites usando drogas, pois Blake parece ter sido o precursor de seu vício em cocaína e heroína.

Apesar de dizer “não” à clínica de reabilitação, Winehouse esteve por duas vezes em uma: em 2008, no ápice de seus distúrbios, e em maio (2011), quando ficou por apenas uma semana. Mesmo tendo dito um ano atrás que estava livre das drogas há 3 e sua aparência menos devastada, era comum suas fotos virem acompanhadas por um maço de cigarro ou então seu inseparável copo de bebida presente em suas apresentações. Reg Traviss foi quem apareceu em 2010 como seu novo companheiro, para alívio de seus familiares que reconheciam melhora em Amy depois de sua despedida com Blake, porém os últimos meses deste ano não pareciam tão vitalícios para o novo casal. No início de julho desse ano, a notícia de que Amy queria apagar uma tatuagem que possui com o nome de Blake na altura de seus seios circulou pela internet, no que parecia ser uma insistente tentativa de esquecer um passado que aparentemente a atormentava. Poucos dias depois, 16, semana retrasada, a atual parceira de Blake, Sarah Aspin, com quem hoje eles tem um filho, revelou a alguns tablóides britânicos que Amy continuava mandando mensagens eróticas para o celular dele, mesmo quando na presença dela. A acusação foi rebatida pelo porta-voz de Winehouse, que disse que quem, na verdade, a perturba, é Blake, que liga “mais de dez vezes ao dia.” Como se já não fosse suficiente, a tragédia proveniente de sua turnê pela Europa acontecida em Belgrado, na Sérvia, em junho, fez com que ela voltasse a se afundar com álcool e provavelmente com o uso de drogas, mais uma vez.

Dessa vez nem seus pais ou amigos puderam salvá-la. Por conta de seus abusos, a saúde de Winehouse vinha apresentando sinais de desgaste desde quando seus enfisemas pulmonares foram descobertos, com o diagnóstico de que seu pulmão trabalha 70% de seu funcionamento normal, além de ter adquirido arritmia cardíaca em função do uso danoso de drogas. A última aparição de Amy foi no iTunes Festival 2011, onde divulgou o CD novo de sua afilhada, Dionne Bromfield, mas não cantou nenhuma de suas músicas. O fracasso de sua turnê somado à sua volta à Inglaterra parecem ser o plano de fundo que compuseram sua morte confirmada pouco mais das 4 horas da tarde do dia 23 de julho. Morte a qual ainda não pôde ser confirmada sua causa, apesar de marcada autópsia para esse domingo (24). Com o falecimento, Amy integra o famigerado “Clube dos 27,” com Jimi Hendrix, Kurt Cobain, Jim Morrison e Janis Joplin, todos mortos aos 27 anos. Cobain, ícone de uma geração que sustenta raízes até hoje, já professava desde cedo seu fascínio por morrer jovem, depois de viver uma vida intensamente. Mas o suicídio, como de Cobain, ao menos intencional, não parece ter sido a causa do desfecho de Winehouse, que traz semelhanças com os de Jimi Hendrix e Janis Joplin, que morreram de overdose, esta última marcada por músicas desoladas e pela solidão. Joplin foi encontrada como Winehouse, morta em sua casa, reportada vítima do uso virulento de heroína.

O que fica de Amy Winehouse depois de só dois álbuns, eu me pergunto? O estranho é ter a sensação de que a quantidade de fato representa pouco do grande impacto produzido por ela na cultura. Foram dois que valeram muito mais que 5 ou 10 de diversos artistas que permanecem na ativa na música pop. Seu estilo não só musical, mas estético, embora exótico, inspirou milhares de garotas pelo mundo, além de chamar uma atenção que só se calou com o advento ainda mais estremecedor de Lady GaGa. Blake chegou a ser culpado por parte de seus fãs pelas redes sociais no mundo, mas custa crer que sua morte, premeditada – que chegou a ser descartada após suposta recuperação – tenha fatalmente ocorrido por motivos de cunho amorosos. A hipótese mais certa talvez seja a solidão, nos momentos difíceis, que assombrou Amy a levando de novo para casas noturnas, álcool e drogas, práticas não compartilhadas pelo seu então namorado Traviss, mas seguidas por Blake, explicando assim sua tentativa de reatar o romance nas últimas semanas. O que, na realidade, não configuraria um romance, mas sim uma espécie de súplica desesperadora, de alguém que pudesse ampará-la – não só no afetivo, mas sexualmente – nas suas noites propositalmente vagantes. Bem dizia ela que ele representava sua versão masculina, seja nas qualidades ou, principalmente, nos defeitos. Um ombro – prejudicial ou não – o qual ela não teve nos últimos dias de perdição. Parece que seu desejo era ter alguém por perto que ela se identificasse, como não parecia ser o caso de seu atual companheiro.

Os problemas eram vários, e as soluções cada vez mais distantes, de mais uma artista consumida e ao mesmo tempo idolatrada pela fama, que ganhará tons de eternidade com a morte jovem e inesperada. Não será como Michael Jackson, mas parecido. Por conta do “reality show” rondado acerca dela. O mesmo realizado com Britney Spears há alguns anos atrás. O mesmo que traz personagens públicos que salivam por sua morte e outros que se veem como empáticos pais, formado por fãs que anteveem seu desfecho e tentam de alguma forma impedir a tragédia anunciada. A cultura popular parece mais desalentada do que impressionada com a sua morte, por tomar-se conta de que seu descuido não vislumbrava se excitar, mas sim se esquecer.


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