Na semana passada, a Estante retornou ao Tópico Livre, após algumas semanas de hiato, trazendo um assunto recente e bastante curioso: os romances que não acontecem nos livros, mas em plataformas virtuais, como o Google Maps, blogs e contas no Twitter, entre outras URLs (para quem não sabe, é uma sigla cujo significado é Uniform Resource Locator, ou Localizador Padrão de Recursos, em português), ou seja, sites.
Para chegar a este assunto, foi preciso contextualizar um pouco do que ficou conhecido por crise do romance, período em que pensadores e autores julgavam que o gênero literário conhecido por romance (narrativa ficcional escrita em prosa) teria morrido no final do século XIX, transformando-se em alguma coisa que ninguém sabia ao certo dizer o que era, afinal de contas. Um assunto polêmico – considerando a ainda novidade do gênero – que não durou muito tempo, porque os romances continuam sendo produzidos, e em quantidade cada vez maior. Se não acredita, procure por poetas na literatura dos últimos 30 anos: juntos, contabilizam menos de um terço dos romancistas.
Ainda que muitas pessoas escrevam poemas em seus blogs e cadernos, e não romances (o que seria muito estranho, devemos confessar), as livrarias estão cada vez mais habitadas por textos em prosa do que em verso. A narrativa, seja ela de que natureza for (ficcional, biográfica, religiosa), venceu a versificação na atualidade. Já foi dito por aqui também que o formato da canção popular vem abrigando a produção poética brasileira, dada sua condição de poesia presente no texto. Em outras palavras: poesia, no mundo contemporâneo, está nos discos; prosa está nas livrarias.
Caetanearei agora: ou nem sempre, como foi possível constatar na semana passada. Mas o site We Tell Stories não é o único a descentralizar o formato clássico do livro (capa, papel, página, etc). Os e-readers têm representado a maior mudança, nesse sentido, substituindo o papel pela tela, a página pelo touch screen e, de maneira mais abrangente, a relação material do leitor com o livro pela relação simbólica deste indivíduo com seu arquivo. E é sobre um arquivo que a coluna pretende comentar hoje, a saber: o romance policial Balenciaga Torres & Os Corações Pelludos (2009), do jornalista Cláudio Tognolli.
Disponível para download gratuito em versão PDF (Portable Document Format, ou Documento de Formato Portátil), o “livro” de Tognolli é uma narrativa policial clássica, em que assassinato, conspiração e mistério se encontram e deixam o leitor desencontrado. Tognolli, que colaborou na biografia do cantor Lobão e também é músico (guitarrista da banda Bomba Garay), faz de seu romance um exercício de criação e recriação: a partir de cerca de 180 mil palavras coletadas ao longo de sua extensa carreira jornalística, promove em Balenciaga Torres um verdadeiro palimpsesto (“Manuscrito sob cujo texto se desdobram a(s) escrita(s) anteriores”, me diz o Aurélio). Isso sem contar a trilha sonora do romance.
Sim, você leu trilha sonora. Balenciaga Torres & Os Corações Pelludos vai além do texto, e cada uma das quatro partes do romance – dividido em quatro arquivos compactados em extensão RAR (Roshal ARchive, uma referência ao nome do criador do formato, Eugene Roshal) – traz consigo um pequeno setlist, formado por canções, faixas instrumentais e até mesmo narrações, como a de Milton Neves (próximo biografado de Tognolli) na abertura do romance. O próprio autor colabora em algumas faixas, tocando guitarra, além de nomes consagrados como Lobão e Luiz Thunderbird contribuindo para a trilha.
O impressionante trabalho multimídia idealizado por Tognolli ainda conta com o produtor Roy Cicala, que colaborou com John Lennon, Jimi Hendrix e outros medalhões do rock; projeto gráfico e fotografias por Rui Mendes e João Wainer; prefácio por Marcelo Rubens Paiva; prólogo por Jorge Luis Borges; e um interessante texto comprando a briga do download da professora Beth Saad (ECA-USP), especialista em gestão de mídias digitais.
Responsável pelo lançamento do romance de Tognolli, a Editora do Bispo, na verdade um site, é voltada para a venda de livros em formatos digitais (ou não, quando a obra é gratuita – caso de Balenciaga Torres) e revela, ainda que timidamente, o interesse brasileiro neste novo mercado. Não é uma grande referência, como a Amazon ou a Saraiva, mas está fazendo sua parte na fuga da defasagem midiática hospedando desde romances a livros de humor (caso de “José Simão no País da Piada Pronta”, livro de outro famoso jornalista brasileiro, colunista da Folha de S. Paulo).
Tanto o palimpsesto de Tognolli quanto os experimentais romances viabilizados no site We Tell Stories são a prova da existência do que pode ser chamado de “literatura de links” ou “literatura de hyperlinks” – este mais apropriado, talvez –, em que o livro está não na página, mas na tela, e os capítulos se desenvolvem não apenas no texto, mas também na imagem e na trilha sonora (ou seja, cria conexões com elementos que vão além da obra em si, levando a outros textos, relacionados direta ou indiretamente ao conteúdo da matriz). Quer dizer, isto até que outros autores e investidores inventem uma nova maneira de experimentar, o que, convenhamos, não deve demorar muito.
Faça download gratuito do livro Balenciaga Torres & Os Corações Pelludos aqui. Além disto, uma interessante entrevista com Cláudio Tognolli, na ocasião do lançamento de seu livro, foi publicada no site da ISTOÉ, e você pode conferí-la aqui (em vídeo).




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