Conheça o disco do ano (até agora [embora eu duvide que outro lançamento de 2011 supere este]).
O novo trabalho do rapper Criolo é mais do que um disco: é um acontecimento. Com a talvez melhor produção musical no Brasil em décadas, Daniel Ganjaman (ex-Planet Hemp e produtor de inúmeros outros artistas, como Otto, Sabotage, Negra Li e Forfun) e Marcelo Cabral alçaram o criador da rinha dos MCs em São Paulo a título de artista do ano, por mais que muitos ainda desconheçam suas músicas. Ignorado este fato, não há outro nome da música brasileira que possa causar tanta reação positiva quanto Criolo em 2011. É o ano dele.
“Nó na Orelha”, por sua vez, é um daqueles álbuns para ficar na memória do percurso de nossa música popular, tal como “Acabou Chorare” ou, fazendo jus ao rap nacional, “Sobrevivendo ao Inferno”. Se os Racionais MCs serviram, em 1997, para popularizar o gênero no país, o disco de Criolo se destaca pela capacidade de “revolucionar” essa estética, criando uma sonoridade híbrida e cheia de intersecções. Uso a palavra entre aspas porque o trabalho de Criolo não propõe rupturas, e sim união. De qualquer forma, é uma obra que vai além. Entendamos:
“Bogotá” é – e não há hesitação em afirmar isto – filha de sangue do afrobeat de Fela Kuti. Um saxofone nervoso rasga uma parede percussiva tipicamente africana, com atabaques e chocalhos, até que Criolo anuncia: “fique atento, irmão, fique atento: quando uma pessoa lhe oferece o caminho mais curto fique atento”. Eis o nó na orelha indicado no título da obra: um rapper veterano, com mais tempo de carreira do que eu tenho de idade, abrindo seu disco com um aviso contra o “caminho mais fácil”. A mensagem, que tem a ver com o tema principal do disco (a cultura das drogas, seus males e suas consequências), cabe também nesta leitura externa do impacto que a audição do álbum provoca.
Criolo, que já se chamara Criolo Doido, se apresenta como MC mas tem competência de cantor: basta conferir qualquer performance ao vivo, principalmente das canções mais lentas de seu repertório. Destaco aqui a apresentação que fez no Auditório Ibirapuera, pelo evento Na Mira da Música Brasileira, cantando “Subirusdoistiozin”, cuja letra repleta de gírias diz: “Licença aqui patrão, eu cresci no mundão, onde o filho chora e a mãe não vê/e covarde são quem tem tudo de bom e fornece o mal pra favela morrer”.
Eu poderia, nesta postagem, destacar inúmeros aspectos de “Nó na Orelha”, desde as competências técnicas dos arranjos até o fato de que Criolo pretendia, com este disco, fazer um último registro de sua longa carreira: ou seja, o cara estava abandonando o rap! São temas que rendem postagens inteiras, portanto fractalizar a discussão é tarefa ingrata – mas terei de fazê-lo. E escolho as composições como assunto de maior ênfase, porque é outro território em que nosso artista principal também é extremamente exitoso.
Os trechos de “Bogotá” e “Subirusdoistiozin” que destaquei acima já dão uma pista do tom de como o MC se manifesta: se testemunhamos, nos últimos meses, o reaquecimento das discussões de classe média sobre legalização da maconha, o que as canções de “Nó na Orelha” revelam são as histórias da população de periferia e de como o contexto do tráfico de drogas presente nessas comunidades invade o cotidiano das pessoas, provocando também um nó – mas no estômago, no coração. Como nota o cantor em “Sucrilhos”: “Calçada pra favela, avenida pra carro/céu pro avião e pro morro descaso/cientista social, Casas Bahia e tragédia/gostam de favelado mais que Nutella”.
A costura existente entre as dez canções do disco reforça a sensação de unidade temática, ainda que o resultado sonoro seja tão multifacetado. Palavras, termos ou mesmo versos inteiros podem ser ouvidos em diferentes momentos do álbum, erguendo um texto único, sólido, embora polifônico. Para se ter uma ideia, há toda uma noção geográfica e cronológica que parece permear a distribuição das faixas, entrecortada por episódios que abrem espaço para outras vozes se pronunciarem sobre o assunto.
Sendo assim, a primeira canção, “Bogotá”, contextualiza o ponto de partida do tráfico de drogas, o momento em que a mercadoria é recolhida tendo o Brasil como destino certo: “Vamos embora para Bogotá/muambar/muambei/vamos cruzar Transamazônica/pra levar/pra freguês/vai ser melhor do que em Pasárgada/agradar até o rei”. Quatro faixas mais à frente, este freguês recebe voz em “Freguês da Meia-Noite”, um bolero propositalmente cafona revelando um homem à espera de sua droga: “Meia-noite/num frio que é um açoite/a confeiteira e seus doces/sempre vem oferecer/furta-cor de prazer/e não há como negar/que o prato a se ofertar/não a faça salivar”.
Já na canção que encerra o álbum, o samba “Linha de Frente”, Criolo executa uma belíssima metáfora da infância na periferia, identificando as crianças como personagens da Turma da Mônica (e a imagem da confeiteira é substituída por uma padaria, sem perder o campo semântico): “e o Cebolinha mandou avisar/’quando a fleguesa chegar/muitos pãezinhos há de degustar’/Magali faz a cadência da situação:/’é que essa padaria nunca vendeu pão/e tudo o que é de ruim sempre cai pra cá/tem pouca gente na fronteira, então é só chegar’”.
Outras conexões estão sugeridas em “Subirusdoistiozin” e “Sucrilhos” (quando Criolo, ao final da primeira, tece um comentário: “acostumado com o Sucrilhos no prato, né moleque” e o retoma no refrão da segunda: “pode colar, mas sem arrastar/se arrastar favela vai cobrar/acostumado som Sucrilhos no prato/morango só é bom com a preta de lado”); “Subirusdoistiozin”, “Mariô” e “Grajauex”, sendo a primeira uma costura de gírias da periferia, a segunda contendo um verso “e fia, eu odeio explicar gíria” e a terceira corporificando o bairro de origem do rapper; “Bogotá” e “Mariô”, uma sendo um afrobeat escancarado e outra sugerindo: “atitudes de amor devemos samplear/Mulatu Astatke e Fela Kuti escutar”.
Estas são apenas algumas das decodificações que “Nó na Orelha” permite realizar – há muitas outras correspondências extremamente bem amarradas, brincando com as letras e as diferentes abordagens sonoras das canções. É possível afirmar que trata-se de um trabalho conceitual, mas ao mesmo tempo a diversidade do próprio material nega qualquer circuito fechado e aponta uma direção contrária: a da integração cada vez maior. Parece trivial a apropriação dos termos, mas é como se Criolo tivesse transformado o rap em uma chave para desvendar o enigma de nossas mazelas sociais – por mais que elas não sejam tão complexas de entender.
Por fim, não há como encerrar esta postagem sem comentar “Não Existe Amor em SP”, canção que já nasceu clássica tanto pelo texto singular e altamente poético (“não existe amor em SP/os bares estão cheios de almas tão vazias/a ganância vibra/a vaidade excita/devolva minha vida/e morra afogada em seu próprio mar de fel/aqui ninguém vai pro céu/não precisa morrer pra ver Deus“) quanto pela sonoridade delicada e arrebatadora que evoca “Roads”, clássico do álbum “Dummy”, do Portishead. Destaco a apresentação da banda no último Altas Horas (16/07), não só por ser a mais recente mas também pelo excelente desempenho do guitarrista Guilherme Held – talvez um dos melhores em atividade no país, falaremos dele futuramente – compensando a ausência do arranjo de cordas no programa.
Hotsite do “Nó na Orelha”: download gratuito.



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2 mandaram ver
Helder disse:
31 jan, 2012
Difícil será eu mesmo me convencer de que esse disco não é do Ganja, mas do Criolo.
Raul disse:
23 jul, 2011
Uma das melhores surpresas do ano. Pena que não muito maior, ainda…