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Segundo disco de Fabio Góes reafirma a engenhosidade pop do cantor paulista e aprofunda ainda mais o painel multirreferencial de suas canções.

Ouvir Fabio Góes é um constante exercício de reconhecimento do que está ausente. Escondem-se (e ao mesmo tempo são revelados de forma latente) ecos de diversas sonoridades em cada uma de suas canções, de modo que a familiaridade entre obra e ouvinte ocorre de forma instantânea. Não cabe estabelecer parâmetro algum citando um ou outro nome da música, levando em conta o caráter amplamente subjetivo destas percepções, mas o ouvinte é certamente conduzido por caminhos que remetem desde a música popular brasileira setentista até o chamado post-rock, passando pelo pop-rock nacional e uma ou outra vertente do rock inglês. Que fique bem claro: é ainda mais do que isso.

A estreia de Fabio aconteceu há muitos anos, na tímida colaboração em trilhas sonoras como a de Cidade de Deus e Abril Despedaçado. Seu debut como cantor e compositor solo, no entanto, só ocorreu em 2007 com o lançamento de Sol no Escuro, um dos discos mais sublimes de nossa música em muitos anos. Angariou, por este trabalho, participação em trilha sonora de seriado da HBO (Alice, com a canção Sem Mentira) e até mesmo um rockão de estrada para comercial de automóvel. Em sua estreia, deixou mais do que evidente seu potencial criativo, filtrando influências que iam desde o clássico Clube da Esquina ao apurado senso estético de bandas como o Radiohead – o leitor pode imaginar a beleza desta herança. Mas repito: é ainda mais do que isso.

O Destino Vestido de Noiva, o disco em questão nesta postagem, foi lançado virtualmente no site oficial do cantor pela módica quantia de R$6,81 (garantindo o download dos dois álbuns a 320kbps) e também em versão física (R$24,33 pelo download dos dois álbuns + o CD do novo título). Quanto ao conteúdo, atende de forma exitosa a todas as responsabilidades direcionadas ao segundo trabalho de carreira de qualquer artista da música. Principalmente se o álbum de estreia tem o peso de Sol no Escuro. Fabio, nesse sentido, se sai muito bem no desafio dando um passo além: atualiza sua linguagem, incrementa sua receita, amplia seu campo de atuação – tudo com extrema segurança.

É importante chamar a atenção para o domínio do cantor sobre a produção de seus discos. Fabio assume os mais diversos instrumentos, estuda os timbres, insiste em melodias: é, de fato, um engenheiro de canções (só para o leitor ter uma ideia: são pelo menos 10 instrumentos que Góes executa em todas as 12 faixas do disco). Para O Destino Vestido de Noiva, decidiu apostar em um, digamos, design mais arrojado, escapando da verve mpbística do primeiro álbum. A bateria percussiva do primeiro disco é substituída por eficientes diálogos entre o instrumento acústico e leves camadas eletrônicas; a orquestração dá lugar a arranjos de teclado mais potentes e novas formatações do trabalho com a guitarra, mais dedilhada. Em resumo, pode-se afirmar que Fabio Góes está mais pop, sem nunca abandonar o impressionante potencial cinematográfico de suas canções.

Porque sim, a capacidade de Fabio em provocar imagens mentais é imensa, e O Destino Vestido de Noiva já denota isto desde seu título (uma figura pomposa, mas casta, carregando expectativas). Não há como escapar dos curta-metragens contidos em canções como A Escolha, em que o cantor abre dizendo: “A escolha é meu sítio/descanso escolhendo/se a fala do gato/é um riso engraçado/ou a pata doendo/a escolha é meu vício/com as unhas roendo/aponto uma sala/com o piso molhado e o teto cedendo”. Ou ainda o flagra surrealista em Domingo e As Plantas (talvez a preferida deste escriba): “A porta da sala vai dar/numa nuvem/tão alta/nem frio, nem calor demais/pequena mas tão bem vinda/e adivinha quem vai gostar/de estar lá/ouvindo/cada passarinho/cantar”.

Ser cidadão do mundo é tema que já vinha sendo explorado no trabalho anterior (em Mundo Acumulado e Surfista, principalmente) e o novo trabalho retoma este ponto de articulação na delicada Fugindo, em uma sucessão de imagens que poderia dar vida a um rap, mas ergue uma etérea balada: “Um sonho cego com a França/a guerra podre com a América/um estádio fúnebre na Espanha/nada mais lindo ver um touro sangrar/a noite é desigual em Berlim/mas de manhã eu venho a pé pra cá/e se tudo estiver no lugar/antes do despertador tocar/já fui de novo/e não sei quando vou voltar”. Há espaço para pequenas reflexões críticas, como no samba-rock A Rua, em que Fabio divide os vocais com Curumim: “Na rua meus pais ficavam/na rua meus pais brincavam/na rua meus pais choravam/(…)/a rua não tem mais meus filhos pra criar”.

O painel construído em O Destino Vestido de Noiva é dos mais honestos na música brasileira: distribuindo amor ou confessando vontades, Fabio Góes é igualitariamente assertivo, edificando uma obra que só faz crescer em todas as direções com extrema delicadeza. Não à toa esta serena personalidade musical lhe rendeu um convite para participar do show em homenagem ao clássico disco de Milton Nascimento e Lô Borges, conquista que inspirou a letra de Na Pele: “E os ventos já se atiçam/de arrepiar/cada vez que eu for estar/na pele/de um cavaleiro dessa esquina“. Honra mais que merecida.

Site oficial

Single – Tão Alto e Fora do Lugar

Mini-documentário sobre O Destino Vestido de Noiva


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