Terceiro e último dos artigos sobre Fernando Pessoa é uma breve e ligeira análise sobre espetáculo teatral criado a partir dos versos iniciais de “Autopsicografia” e que, apesar da discussão artística e filosófica, coloca o poeta em situações dignas de uma comédia escrita por Shakespeare.
Há duas semanas, a Estante deu início a sua série sobre Fernando Pessoa com um texto relacionando o poema “Autopsicografia” a pressupostos estéticos existentes desde a Antiguidade Clássica, envolvendo Platão, Aristóteles e um conceito fundamental para o entendimento de toda a arte ocidental (para ler o artigo “Fernando Pessoa e a Mimesis” clique aqui).
Na semana passada, foi a vez de compreender um pouco do processo de criação de seus heterônimos, através da primeira estrofe do mesmo poema. A diferença entre Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro – e o próprio pessoa, Ele-Mesmo – e a chave para o entendimento desta profusão de vidas dentro de uma única pessoa foi a tônica do texto (para ler o artigo “Fernando Pessoa e a Heteronímia” clique aqui).
Desta vez, no entanto, o foco dos (agora mais do que conhecidos) versos “O poeta é um fingidor./Finge tão completamente/que chega a fingir que é dor/a dor que deveras sente” é uma obra literária que não pertence a Fernando Pessoa, mas que jamais existiria se o poeta não tivesse também existido. Trata-se de um texto para teatro – ou, em outras palavras, uma peça teatral – chamada, adivinhem: “O Fingidor”.
Escrita pelo ator, diretor e professor de teatro Samir Yazbek, o texto tem como inspiração nada menos que os quatro versos reproduzidos no parágrafo acima. A presença de Pessoa, contudo, não acaba aí: a trama tem como protagonista o próprio poeta português, em sua última semana de vida, enfrentando cólicas hepáticas (que o levariam a óbito) e dilemas existenciais ao lado de seus mais famosos heterônimos.
A premissa de “O Fingidor” – que estreou em 1999 com a direção do próprio Yazbek e lhe garantiu o Prêmio Shell de Melhor Autor – envolve também personagens e situações fictícias na vida de Fernando Pessoa. A mais evidente das liberdades tomadas pelo autor paulista em seu texto é a criação de mais um heterônimo para o autor, chamado Jorge Madeira (uma junção do prenome do irmão falecido de Pessoa, com apenas um ano de idade, e o nome da ilha na qual o poeta desembarcou assim que saiu da África do Sul, onde morou durante a infância – ambas as informações verídicas).
Jorge é criado pelo poeta como válvula de escape para o tédio que lhe assola na semana em que se passa a trama, além de servir para um plano que tem em mente: trabalhar, em qualquer lugar, sem que pra isso ele tenha de ser ele mesmo. Ou seja, fugir da figura de si mesmo como o poeta que é e se transformar em uma pessoa comum, tão comum que nem poeta seria – diferente da maioria dos heterônimos verdadeiros, todos também escritores. Desta necessidade, nasce Jorge Madeira, um cômico, esquálido e corcunda senhor de meia-idade com pouco interesse pela leitura e sem aptidão para a escrita.
Paralelo a isso, está José Américo, crítico literário que reuniu toda a obra publicada de Fernando Pessoa e, após seis anos de intensa pesquisa, pretende apresentar seu trabalho em evento organizado pela revista literária Presença, cujo diretor é amigo de Pessoa e cede espaço ao autor para publicar poemas inéditos (vale lembrar que Fernando Pessoa Ele-Mesmo publicou apenas um livro em vida, “Mensagem”, e poemas espalhados em publicações, além de 4 livros com textos em inglês).
Fernando Pessoa (ou Jorge Madeira) acaba indo trabalhar como datilógrafo no gabinete de ninguém menos que José Américo, cercado de tarefas na semana conturbada que será a de sua apresentação. Por não conhecer o poeta pessoalmente, Américo sequer desconfia de que seu tosco funcionário é, na verdade, seu maior ídolo. A partir de então, as situações de “O Fingidor” vão se sucedendo como numa comédia de erros shakespeareana, com direito a surpresas e reviravoltas no desenrolar de sua trama.
Yazbek é astuto ao personificar os três heterônimos mais famosos de Pessoa e pontuar passagens de seu texto com a presença dos três ao mesmo tempo, ou de um de cada vez. Com este recurso, o leitor/espectador fica ciente não apenas da existência destes poetas como de suas características: Campos é irritadiço e pessimista; Caeiro é o mais maduro e o próprio Pessoa o chama de mestre; Reis transita entre a serenidade e a seriedade.
Pessoa é repreendido por suas próprias criações, ao criar Jorge. Para eles, é perda de tempo, não se justifica. Sem saber disto, sua irmã, Henriqueta, faz coro a eles ao dizer a Fernando que não há o menor sentido em trabalhar como datilógrafo de seu maior fã. O poeta, no entanto, passa por cima de todos os conselhos e investe em sua perigosa aventura, que se torna ainda mais tensa quando Jorge decide começar a: pois é, escrever.
Ponto para o autor. Ao transformar Jorge em poeta do acaso (uma vez que o próprio diz saber nada de literatura), Samir pode intuir a inúmeras interpretações, mas é impossível não pensar que sua intenção é, também, mostrar que um poeta como Fernando Pessoa não conseguiria viver longe de sua arte, ainda que buscasse justamente o caminho oposto. Desta forma, Jorge é flagrado concebendo poemas que, na história real, foram atribuídos a Fernando Pessoa Ele-Mesmo após sua morte.
O que mais chama a atenção no texto, a partir desta primeira reviravolta na trama, é o comportamento de Américo em relação à modesta produção poética de seu empregado. Descobrindo os poemas escritos por Jorge durante os dias de trabalho, o crítico diverte-se com Jorge ao intuir que o mesmo está “inspirado” pelo contato com a obra de um grande poeta como Fernando Pessoa, mas que dá forma a textos desprovidos de muitas qualidades poéticas das mais reles. Jorge, na ótica de Américo, é um mau poeta, ou mais ainda: não chega sequer a ser um poeta.
A partir de então, o texto passa a ironizar cada vez mais os diálogos entre Américo e Jorge, que vai produzindo cada vez mais e deixando seu trabalho de lado. Amália, a governanta de Américo, se torna figura mais presente na trama e passa a servir como uma espécie de musa inspiradora da veia poética de Jorge. Independente do contato entre ambos, Américo não gosta nada de ver seu encarregado trabalhar cada vez menos, além de produzir textos de qualidade tão risível. Jorge acaba sendo despedido.
(curiosidade: um dos textos de ‘qualidade risível’ que Jorge escreve no período em que passa trabalhando para Américo é o que, na vida real, se tornaria um de seus mais famosos poemas, Liberdade, cuja estrofe inicial diz “Ai que prazer/não cumprir um dever./Ter um livro para ler/e não o fazer!/Ler é maçada/estudar é nada./O sol doira/sem literatura.”)
Em dado momento da trama, o diretor da revista Presença convida o próprio Fernando Pessoa a comparecer ao evento para assistir à apresentação de um crítico literário grande fã de sua obra. Pessoa aceita o convite e ainda recebe um pedido de seu amigo: que envie dois poemas inéditos para serem lidos por Américo ao final de seu trabalho. Obviamente, Pessoa envia dois textos com os quais o crítico tivera contato em seu período trabalhando para ele e, com isto, deflagra o clímax da trama: a leitura, em público, dos dois poemas que Américo criticara veementemente a Jorge dias antes.
O desfecho da trama não cabe contar aqui, mas a ironia do texto de Yazbek é refinadíssima ao colocar poeta e crítico na mesma cena, em um diálogo que transita entre a mais pura sinceridade artística e o mais óbvio fingimento – do poeta, do crítico, do autor, de todos nós. É o fingimento como tônica de uma vida, como diz o próprio Pessoa em sua derradeira cena, após recitar um trecho de Hamlet em que o príncipe declara seu “amor extremo” à Ofélia: “Assim falo eu para o universo inteiro. Eu queria ser todos, dona Amália. Tudo!”
Vale indicar a leitura do texto (referências bibliográficas estão ao fim do artigo) ou a montagem em si – a que não assisti, mas que permaneceu cinco anos em cartaz, desde sua estreia, chegando a ser encenada em Portugal nesse período, e reestreou em 2009 em comemoração aos dez anos do espetáculo. No momento, infelizmente, não há nenhuma nova em andamento.
O texto, no entanto, foi adaptado para a TV pela emissora TV Cultura, no programa Direções, com exibição em 2008. Ao final, há também um vídeo do YouTube com cena do especial exibido.
Leia um trecho do texto:
“CENA 18
Henriqueta – Volte lá e converse com ele. Diga que tudo não passa de uma brincadeira. Não é justo com o homem que tem feito tanto por você.
Pessoa – Ele não sabe de nada. E se deixarmos assim, talvez nunca saberá.
Henriqueta – Aí é que você se engana.
Pessoa – Desista, Teca.
Henriqueta – Um dia essa história virá à tona.
Pessoa – Quem irá contar?
Henriqueta – Mas é uma mentira!
Pessoa – Ele não soube me reconhecer naquilo que eu tenho de melhor. Portanto, eu não sou obrigado a reconhecê-lo naquilo que ele tem de pior.
Henriqueta – É justo passar por alguém que você não é?
Pessoa – Todos nós passamos por alguém que não somos. Ou você pensa o quê? Que as pessoas sabem quem elas são? Ou que você mesma saiba quem é? No mais, não foi por má-fé. É verdade quando eu disse que fui até lá para brincar. Mas confesso que me choquei.
Henriqueta – E o que foi que te chocou tanto assim, posso saber?
Pessoa – José Américo me fez pensar que talvez eu seja um poeta de merda.
Henriqueta – Mas como?
Pessoa – Você nunca vai entender. Aquilo tudo, aquela encenação… aquela plateia lotada… Aquilo sim é a mentira que deve ser desmascarada. Porque a verdade, Teca, a verdade está em outro lugar.
Henriqueta – Onde?
Pessoa – No vazio e na solidão em que hoje se transformou a minha vida. E isso eu descobri que não é necessariamente um mal. E além de tudo, há os poemas. E mais do que os poemas, a obra. Que edifique ao menos uma alma no futuro e tudo isto terá valido a pena.
Henriqueta – É isto que você chama de bom humor?
Pessoa – É isto que eu chamo de realidade. E a realidade, cedo ou tarde, acaba se impondo. Não importa o tamanho do sonho, a realidade sempre se impõe.”
O Fingidor, de Samir Yazbek. Ática, 2003. 88 págs.
Site oficial do espetáculo: “O Fingidor”
Histórico da peça (montagens, prêmios): Ofingidor.pdf
Cena do especial “O Fingidor”, exibido na TV Cultura em 2008:



Envie este artigo por e-mail





