A Estante está de volta, mas os livros desta imagem estão longe de ser o nosso assunto. Leia e entenda.
A Estante ficou um tanto quanto empoeirada nas últimas semanas – mas é que a casa estava uma bagunça e ela, infelizmente, teve de esperar para ser visitada. Não ficou esquecida, foi sendo alimentada com ideias e sugestões anotadas em um bloco de notas (real ou virtual, deixarei em suspenso) para quando a arrumação finalmente chegasse ao fim. E chegou. Voltemos ao móvel preferido da casa (junto do aparelho de som, da TV e do DVD – certo, colegas do Tópico Livre?).
Pois bem, será um retorno tímido. Até porque são informações tímidas, também, sobre as quais a gente não vê comentarem por aí. Notícias literárias que chegam aos grandes veículos um dia na vida e outro na morte, dos quais só quem frequenta a internet é que fica sabendo – e às vezes nem isso. O assunto da vez é o romance, não o das nossas vidas, mas o literário. Caso o leitor não saiba, embora eu acredite em seu potencial, romance é um gênero literário marcado pela escrita em prosa do texto, ou seja, não é o poema nem o texto teatral, mas aquele composto por uma narrativa longa (porque se for curta é conto) e ficcional (porque se for factual é biografia).
No fim do século XIX, autores e pensadores franceses comentavam acerca da morte do romance como gênero, cujo precursor teria sido o clássico “Dom Quixote De La Mancha”, de Miguel de Cervantes. Popularizado durante o Romantismo como a marca da expressão artística burguesa (sim, o romance é burguês!), enfrentou um período de crise nas décadas finais do século em questão ainda que sendo publicados por nomes como Balzac, Proust, Zola, Kafka e o brasileiro Machado de Assis.
Na década de 50 do século XX, continuaram os franceses a debater sobre o romance, e concluíram que a “morte” seria de caráter simbólico, ou seja, o romance tal como conhecido metamorfoseara-se em outro(s) tipo(s) de texto, em que os pressupostos básicos do romance tradicional (a tríade tempo, espaço e ação, principalmente) já não era mais respeitada como antigamente. Ou melhor: já não era mais seguida. Porque continuavam a produzir, e de maneira muito mais profusa.
O romance atravessou o século XX muito bem, obrigado. E o século XXI já deu amostras do que este gênero é capaz de fazer no mundo globalizado, informatizado, virtualizado. O primeiro dos exemplos é mais recente e tem uma proposta absolutamente intrigante, diferente de qualquer outro formato que (pelo menos para mim) tenha existido. Trata-se de um romance online, ambientado no Google Maps e narrado através dele, em que o leitor/espectador (acho que é possível inserir essa denominação) acompanha o narrador-personagem da trama através do mapa e interage com ele através de cliques nas caixas pop-up que surgem na tela, narrando a história.
“The 21 Steps”, de Charles Cumming, é um dos seis romances hospedados no site inglês We Tell Stories, criado exatamente para esta finalidade: testar a eficiência de um romance em um ambiente absolutamente virtual, utilizando para isso as ferramentas deste serviço na construção da narrativa – isto é, uma “narrativa”, entre aspas. Mas ainda uma narrativa.
Outro título curioso é “Slice”, de Toby Litt. Conta a história de uma adolescente que se muda com a família para uma casa aparentemente mal-assombrada. Até aí tudo bem, mas a trama toda foi contada através do blog e do Twitter da personagem principal, além do blog e do Twitter dos pais da menina (sim, contas reais foram criadas para cada um). A brincadeira durou quatro dias, e o leitor poderia interagir com os personagens comentando nas postagens do blog ou enviando replies via Twitter. A história já chegou ao fim, mas está lá na íntegra para quem quiser conferir.
Blog:
Twitter:
Só vou contar mais uma e parto para a próxima curiosidade: “Your Place And Mine”, de Nicci French (pseudônimo do casal de escritores Nicci Gerrard e Sean French), é um romance sobre um relacionamento, narrado em tempo real através de 5 dias na vida dos personagens principais, Laurence e Terry. O texto, dividido em duas colunas, uma para cada personagem, era escrito de acordo com o que realizavam dentro da trama, separados por blocos em que o horário da ação registrava e relacionava um ao outro.
A segunda, última e hilária informação que gostaria de compartilhar neste retorno é o da matéria publicada na Revista Trip sobre um site de cultura em geral, Flavorwire, que publicou os trinta maiores insultos literários da história. Tem Nietzsche chamando Dante de hiena, Byron implorando para que queimem Keats, Baudelaire chamando Voltaire de “príncipe da superficialidade” e até mesmo Virginia Woolf dizendo que “Ulisses” (a obra-prima de James Joyce) não passa de um “trabalho de um estudante universitário enjoado coçando as espinhas”. Vale a pena!
Na próxima semana fico de falar mais um pouco os novos formatos de romance, além de uma ou outra novidade que pintar no caminho. Até lá!







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3 mandaram ver
Rodf disse:
1 jul, 2011
Interessantíssimo post, Brayan!
Aline Gualda disse:
30 jun, 2011
Muito legal. Deu vontade de ler mais! Abçs, Brayan =)
Fernanda Martins disse:
29 jun, 2011
Parabéns Brayan!!!Muito bom.