Continuação do apontamento definitivo e incontestável sobre os maiores do cinema atual – dentre os que eu conheço; na minha opinião; até agora.
Há duas semanas, quando apontei a lista sobre os maiores diretores do cinema (com todas as ressalvas acima) atual, disse que o artigo seguinte serviria para eventuais esclarecimentos ou retificações. Não tinha um plano B, e realmente não precisei de um. Tenho, antes de tudo, uma retificação: o décimo lugar da lista me soou injusto.
Mais de uma pessoa, comentando a lista comigo, disse ter gostado dela de modo geral, mas que achava que eu traíra (pretérito mais-que-perfeito do verbo trair, e não o adjetivo indesejado) as minhas próprias regras no momento em que incluí Martin Scorsese, alegando que ele é um daqueles ex-diretores em atividade que eu havia dito não querer incluir.
Aviso que não mudei de ideia por achar que o velho da sobrancelha engraçada (que não é o Jack Nicholson) já deveria ter pendurado as chuteiras. De modo algum, aliás. Se pensarmos que A Origem concorreu, entre outros, ao Oscar de melhor filme, e que no mesmo ano vimos Ilha do Medo ser ignorado na premiação, a despeito das suas maravilhosas fotografia e direção de arte, e da atuação muito superior de Leonardo DiCaprio neste filme, podemos perceber que o Scorsese está acima de qualquer hype. Nolan, gosto muito de você, mas não dá. Concentre-se no próximo filme do Batman, por favor.
O que me fez reconsiderar a minha última escolha foi justamente ter feito uma retrospectiva parcial da obra de Martin Scorsese, e ter visto que ela definitivamente não está à altura das outras décadas em que ele nos presenteou com seus filmes. Vivendo no Limite, se considerado da década de 2000 – assim como podemos considerar Beleza Americana representante da última década, também -, simboliza a fase menos interessante da sua carreira, que seguiu com Gangues de Nova Iorque (2002), O Aviador (2004), Os Infiltrados (2006) e o já citado Ilha do Medo (2010). Dentre todos estes, não tenho dúvidas em dizer que acho o último o filme mais interessante, justamente por não me parecer ter a pretensão dos outros e cumprir muito bem todos os aspectos propostos.
Scorsese sempre teve problemas com reconhecimento. Não porque não era reconhecido, mas sim porque este reconhecimento quase nunca era oficializado (leia-se Oscar) e porque, quando perceberam que já passava da hora de ele receber a sua estatueta, era justamente nesta fase não muito inspirada em que ele se encontrava. Recebeu o Oscar de melhor diretor por Os Infiltrados, numa premiação já previsível. Afinal, por quem mais George Lucas, Steven Spielberg e Francis Ford Coppola se juntariam para entregar o prêmio de melhor diretor? Ainda bem que a concorrência não foi forte, à época – e Scorsese já precisava ganhar desde 1991 com Os Bons Companheiros, e perdeu para a Dança com Lobos de Kevin Costner. Isso se ignorarmos a antítese taxidriveriana que levou o prêmio de 1977 chamada Rocky, Um Lutador bem no ano de Taxi Driver – que, felizmente, levou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, mostrando que lá não só há os melhores diretores do mundo, mas também quase sempre tem uma das premiações mais justas. Enfim, só citei estas duas chances anteriores à sexta nomeação ao Oscar de melhor diretor de Scorsese pra não me chamarem de fanático.
Com esta grande introdução, só quis deixar maleável o terreno das ideias para defender novamente que: 1) Martin Scorsese é um dos diretores mais reconhecidos por público e crítica de todos os tempos e, dentre eles, um dos menos premiados e 2) Apesar disso, seus filmes desta última década variam entre o completamente dispensável ao forçadamente dispensado (novamente pelas premiações). Logo, infelizmente, concordo com a teoria de que há nomes mais notáveis em se tratando de carreira cinematográfica recente. Mas quem?!
O substituto
Pedro Almodóvar é, de acordo com os parâmetros estabelecidos, o diretor de cinema que merece ficar no lugar de Scorsese nesta ingrata lista. Se analisarmos suas obras desde 1999 até hoje, como fizemos com Scorsese, comprovamos isso facilmente. A sequência de filmes é simplesmente esta: a obra-prima Tudo Sobre Minha Mãe (1999), a quase-obra-prima Fale com Ela (2002), o ótimo filme com ares poeticamente sobrenaturais à la García Márquez Volver (2006) e o filme metalinguístico coberto de referências Abraços Partidos (2009).
Eu poderia ser chato e dizer que vejo uma queda de rendimento ao longo do tempo? Analisando o cinema de Almodóvar somente a partir de onde fizemos, pode ser que sim. Mas tenho quase tanta fé nele quanto tenho em Scorsese – apesar de o segundo, (como bom católico que é – apesar de excomungado por A Última Tentação de Cristo, de 1988) estar precisando bem mais da nossa fé, pelo andar da carruagem. Eu não iria citar o seu novo projeto, que conta novamente com Robert DeNiro, depois de 16 anos desde o último trabalho juntos, em Cassino (1995), por medo de dar algo errado – uma vez que Al Pacino também estará, e que da última vez que tentaram um repeteco assim nasceu o “filme” As Duas Faces da Lei (2008), enfim – mas tenho fé, apesar de tudo. A nova produção, chamada The Irishman, não tem como dar errado. Não é?
Voltando a falar do Manoel Carlos da Espanha, não há dúvidas de que sua posição no lugar de Scorsese é merecida. Agora ele vem aí com La Piel que Habito – na volta da sua parceria, em hiato por 21 anos, com Antonio Banderas, que apesar disso é menos o “Robert DeNiro” dele do que a Penélope Cruz – que parece promissor: um filme de horror “sem gritos ou choques”, segundo o próprio define, e que alguns jornais apostam que estará, como dito na coluna anterior, na seleção oficial do Festival de Cannes de 2011. Mostrando que a premiação reúne alguns dos melhores cineastas do mundo. Eu já disse isso?




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3 mandaram ver
Aliatá disse:
27 mar, 2011
Eu acho que o sonho de todo ator é ser do Almodóvar, nem que seja em um curta.
:p
Rodf disse:
23 mar, 2011
Opa! Eu realmente queria ter feito o perfil dos eleitos, mas primeiro tinha que fazer essa retificação e, quando percebi, já tinha escrito demais, haha. Se eu fizesse ainda o perfil, o post ficaria enorme e ninguém teria saco de ler… Mas, já que eu prometi, posso concentrar minhas energias só em fazer esse perfil, no próximo post “Os melhores diretores do mundo – parte final”.
Valeu pela leitura =)
Thiago disse:
23 mar, 2011
Concordo com a mudança do décimo lugar, o fã do Caetano tem que tá nesse meio mesmo.
Mas que injustiça com a A Ilha do medo, né?! Gostei muito mais dele do que metade dos indicados a melhor filme nesse último Oscar. Já Cannes 2011 promete…
E o “pequeno perfil” de cada um dos 10 eleitos?