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O fim da série sobre Os Eleitos. Mas não o fim da série sobre Cannes

Eis a última tarefa que fiquei de cumprir quando comecei a lista dos dez melhores diretores de cinema da atualidade: o pequeno perfil de todos os apontados na lista, no estilo contagem regressiva. Ah, sim: isso quer dizer que menti quando disse que a lista estava em ordem de lembrança. Já sou péssimo em eleger os dez melhores em qualquer coisa, quanto mais estipular graus a eles. Mas eu havia, sim, tentado fazer a lista em ordem de preferência, e isso deve se mostrar útil pra dar algum suspense ao longo desta leitura.

Outra explicação: o pequeno perfil que trarei aqui não é realmente um pequeno perfil. É pequeno, mas não é um perfil, no sentido mais técnico. Será a minha visão da dimensão de cada diretor no cinema atual e o que representam para mim, também. Para quem procura o perfil puro e simples, com todas as informações sobre a vida e a filmografia de cada diretor, favor ir à Wikipédia. Sem mais delongas:

10º: Pedro Almodóvar

Para quem leu o último artigo, nada de muito diferente: Pedro Almodóvar é um dos cineastas espanhóis mais famosos e reconhecidos de todos os tempos. Conhecido por seus roteiros melodramáticos, com reviravoltas dignas das novelas nas suas últimas semanas, e também pelo grande esmero com que cuida destes mesmos roteiros, com informações visuais ricas e estilisticamente marcantes. As “cores de Almodóvar” transpõem a alma Frida Kahlo – que, no imaginário coletivo, toda espanhola tem – para seus filmes, bem como seu humor deslavado e ácido nunca deixa as pessoas indiferentes: ame-o ou deixe-o. Pena de quem o deixou.

Recomendo: Tudo Sobre Minha Mãe

9º: Apichatpong Weerasethakul

Tão novo e com uma carreira relativamente curta (nasceu em 1970 e só em 2000 fez o seu primeiro filme de longa-metragem, Objeto Estranho ao Meio-Dia, que já mostrava toda a identidade do seu cinema) o último ganhador da Palma de Ouro em Cannes merece estar nesta lista pela maravilhosa sequência de filmes que fez, mesmo que ainda breve. Seu cinema é, sem dúvidas, a maior promessa da nova geração de cineastas. O estilo naturalista, que mescla atores e não-atores em cena e explora elementos bucólicos pra tratar com aspectos muito regionais de temas universais, as conhecidas e longas pausas – nunca com efeito sonífero, mas reflexivo – e o refinamento de um estilo que faz com que o cinema seja menos visto e mais sentido. Algumas das razões pelas quais espero cada vez mais filmes desse cara.

Recomendo: Tio Boonmee, que Pode Recordar Suas Vidas Passadas

8º: Park Chan-Wook

O poço de criatividade (mesmo quando faz três filmes seguidos com o mesmo tema) sul-coreano Park Chan Wook é apenas o mais representativo dos cineastas coreanos atuais. E isso não é pouca coisa: alguns dos nomes mais interessantes do cinema atual vêm da Coreia do Sul, como Bong Joon-Ho, Kim Ki-Duk, Jang Sun-Woo (que certamente merecem textos próprios em artigos posteriores) e outros. A grande mistura de gêneros num mesmo filme contribui pra que muitos chamem o seu cinema de esquisito – além do fato de a cultura oriental ser bastante diferente da nossa. Mas o bom cinema não tem fronteiras: Chan-Wook mostra-se cada vez mais consciente do seu talento, quando mostra que consegue fazer um romance original e completamente fora dos padrões (I’m A Cyborg, But That’s OK), quando explica aos adolescentes desta geração como deveria ser um filme de vampiro (Sede de Sangue) e quando faz um curta-metragem inteiramente com um iPhone e, pasmem, esse curta ganha o Urso de Ouro em Berlim (Nightfishing).

Recomendo: Oldboy

7º: Woody Allen

Gosto de comparar o incontestável mestre Woody Allen com outro mestre, Alfred Hitchcock, não por algum tipo de similaridade artística, mas por conta da incrível regularidade da filmografia de ambos, e isso é particularmente difícil com a quantidade de filmes que eles dirigiram. Woody Allen, com seu Midnight in Paris, chega ao seu 46º trabalho como diretor. A força dos seus diálogos e os temas recorrentes (inseguranças em relacionamentos, digressões engraçadas e intelectualizadas, alternância entre, basicamente, comédia e tragédia – num mesmo filme ou em filmes intercalados) são uma marca do diretor nova-iorquino, cujos fãs já estão há algum tempo mal acostumados com uma produção por ano. Espero que, assim, Allen mantenha o fôlego para alcançar o mestre do suspense, que dirigiu 67 filmes ao todo. Faltam só 21…

Recomendo: Match Point

6º: Paul Thomas Anderson

Paul Thomas Anderson, se deixasse de ser cineasta e virasse cameraman, seria o mais requisitado de Hollywood. A pena seria que perderíamos um grande roteirista e diretor de elenco. Os movimentos de câmera dos seus filmes e o seu gosto por planos-sequência (geralmente sem costuras digitais) são as características técnicas mais marcantes das suas obras – e seria uma injustiça insinuar que a notabilidade do seu cinema só se resume nisso. Com relativamente poucos longas no currículo (cinco, ao todo), tendo eu visto quatro destes – os que todo mundo viu também; só me falta ver Jogada de Risco – posso afirmar que ele tem uma das filmografias recentes mais interessantes da lista, e mesmo que eu goste mais de Boogie Nights, consigo perceber que Sangue Negro é, realmente, sua obra-prima. Mas ao mesmo tempo conheço tantos admiradores de Embriagado de Amor e de Magnólia que fica difícil haver um consenso. Consenso e Magnólia, aliás, não andam juntos: o próprio Paul Thomas Anderson, sobre a emblemática chuva de sapos, alegou: “como eu odeio diretores que tentam explicar seus filmes. Só digo uma coisa: se eu tivesse mais dinheiro, teria feito chover cães e gatos”.

Recomendo: Boogie Nights – Prazer Sem Limites

5º: Joel e Ethan Coen

Os irmãos cineastas mais famosos do mundo (não que haja muitos; e se considerarmos os irmãos Luimère, talvez os Coen fiquem em segundo, mas enfim) são os precursores de um novo estilo de comédia de erros. Se antes os filmes deste subgênero eram conhecidos por serem real e intencionalmente comédias em que seus protagonistas eram pessoas frustradas que passavam por situações absurdas – mas sempre com um tom cômico no lugar do desespero real – com Fargo, os Coen subvertem o gênero, chegando ao ápice do controle do espectador e das viagens pelas mais diversos climas e tons cinematográficos numa só película (e já haviam, desde o início, com Gosto de Sangue, mostrado essa tendência). Seus roteiros cômico-filosóficos (vide O Grande Lebowsky, Barton Fink e Um Homem Sério) também são uma prova da força do cinema americano atual além-blockbuster: atualmente eles dois dos diretores mais com o maior prestígio de crítica e público – mostrando isso tanto aridamente filosófico Onde Os Fracos Não Têm Vez, quanto na comédia nonsense Queime Depois de Ler e no western Bravura Indômita. É inegável o talento dos dois, mesmo que eu ainda tenha restrições quanto a alguns de seus filmes – a exemplo dos três últimos citados. Aliás, o que mais se lê, ouve e vê sobre a obra dos Coen é “apesar de eu não gostar de alguns filmes, estes outros são geniais”, e nunca é um consenso sobre quais são os bons ou os ruins. E a habilidade dos brothers só fica mais evidente.

Recomendo: Um Homem Sério

4º: Abbas Kiarostami

Abbas Kiarostami é, provavelmente, o mais aclamado diretor em atividade da alta cúpula cinéfila. Ele é o grande responsável pela descoberta do cinema iraniano pelo ocidente, há relativamente pouco tempo. Eu diria que o estilo de cinema de Kiarostami, além de influenciar outros diretores do seu país (que há outros grandes representantes), também deve ter influenciado o já citado Apichatpong Weerasethakul: cada um dos cineastas tem como característica a mesclagem de atores e não-atores nos seus filmes, mostra a realidade e o cotidiano da sua terra de um modo bastante naturalista (daí a utilização dos não-atores) e não se preocupam com um enredo fechado, com início meio e fim convencionais. Apesar das semelhanças, Apichatpong ainda teria que transgredir algumas regras do cinema, assim também muito naturalmente, como Kiarostami fez em mesclar dramatização com documentário, numa recriação da realidade de um homem comum que se passa por um diretor de cinema, em que pessoas reais interpretam a si mesmas e revivem o fato, inclusive o próprio acusado (Close-Up, de 1990), só pra citar um exemplo de transgressão. A metalinguagem de Kiarostami, bem como o seu lirismo, são frequentes. Seus fãs mais xiitas costumam dizer que, se você não gostou de um filme de Kiarostami, é porque não entendeu. Eu prefiro dizer que, se não gostou, foi porque não sentiu. Porque os filmes do diretor não têm um nível de complexidade narrativa de um David Lynch, mas suas histórias não seguem as convenções a que acabamos por nos acostumar. Não há clímax, não há momentos de ação, não há um mote particularmente interessante, o filme só acontece, e não é o fim que diz se ele é bom ou ruim. Também não há propriamente um fim, e a moral da história, apesar de nunca dita, é sempre sentida. E cada um sente de modo só seu.

Recomendo: Gosto de Cereja

3º Quentin Tarantino

O maior bastardo do cinema mundial não precisa realmente ser apresentado: goste ou não desse sujeito, você, que está lendo esta coluna, o conhece muito bem. O controverso gênio do cinema independente americano, que obteve larga atenção da crítica com o seu delicioso primeiro filme, Cães de Aluguel, e fechou o caixão dos detratores com o não menos que absurdo, fenomenal e acachapante Pulp Fiction, sendo reconhecido com a Palma de Ouro em Cannes e, veja só, tendo concorrido a cinco Oscars e ganhando o de melhor roteiro original. Sua filmografia é bastante eclética, apesar de manter alguns elementos bastante característicos em praticamente todos os seus filmes. A narrativa não-linear, os longos diálogos muitas vezes sem muita conexão com o desenrolar do filmes (como se seus personagens também tivessem o direito de ter algumas divagações, assim como nós) e a utilização da violência de modo corriqueiro e estetizado são algumas das maiores marcas. Mesmo a maioria das pessoas que não gostam do cinema de Tarantino reconhecem o seu talento, e os que não admitem nem isso geralmente usam o fraco argumento de que a maioria das suas idéias são roubadas de outros filmes. A verdade é que as referências feitas por Tarantino geralmente elevam as obras homenageadas a patamares que, sozinhas, elas nunca alcançariam. O fato é que a maioria de nós nunca ouviria falar de Lady Snowblood se Kill Bill não tivesse sido feito, e vou além: esta geração de cinéfilos que redescobriu o gênero blaxploitation (eu incluso) nunca teria o feito não fosse a influência de Jackie Brown. E quem tem a coragem de dizer que estas duas obras não são originais? Quando as obras derivadas se tornam maiores do que as inspiradoras, não é um mero caso de plágio. Mas o talento de Tarantino não precisa justificativas: é inegavelmente genuíno.

Recomendo: Pulp Fiction

2º: Wong Kar-Wai

Impossível falar de Wong Kar Wai sem pensar nos seus roteiros (que, na verdade, vão aparecendo durante as filmagens, o que faz com que a ideia geral no começo das filmagens possa ser completamente modificada e terminar acontecendo outro filme – fazendo, assim, com que a direção seja crucial, pois obriga o ator a confiar completamente no diretor) que desembocam num lirismo melodramático e altamente alegórico, sua trilha sonora intencionalmente repetitiva (geralmente um bolero bem triste – quizá, quizá,quizá ♫) e sua mise-en-scène, um deleite pra qualquer nível de exigência estética. Mesmo que apenas observar as construções cênicas deste grande diretor bastasse aos amantes do bom cinema, impossível não ser pego de surpresa por uma frase que eventualmente sai da boca de um personagem e pode fazer com que você reflita mais do que naqueles anos todos de terapia (suspiro). O amor é seu assunto, seja a busca de um, seja a perda de um, seja a ilusão de que se tinha um. O desejo é o contraponto: desejar e não poder ter, ou finalmente ter o que sempre se quis e se descobrir insatisfeito com isso. As reflexões do diretor chinês certamente realizaram e inspiraram as mais belas e tristes histórias de amor do cinema atual. Se não podemos ter o que queremos, vemos filmes sobre isso. E ainda bem que vemos os filmes de Wong Kar-Wai.

Recomendo: Amores Expressos

1º: Michael Haneke

O mestre Michael Haneke me assusta. Me choca. Ele me usa, ele abusa dos meus olhos e da minha mente. Eu me sinto frequentemente ultrajado, desafiado e aturdido com seus filmes. E é disso que eu gosto. É isso o que eu busco (e agora vejo: sempre busquei) numa experiência cinematográfica. Não há palavras para descrever o nível de experimentação de seus filmes, não na seara técnica (seus filmes geralmente não têm grandes malabarismos de câmera, pois intencionalmente impõe-nos a condição de observadores e, posteriormente, de cobaias de um experimento), mas na seara conceitual. De uma densidade absurda, parte de uma tese (geralmente psicológica ou social – e, com A Fita Branca, majoritariamente política) para mostrar cinematograficamente como ela se sustenta. Dizer que sou fã deste sujeito cruel é muito pouco, e adiantar que seus filmes frequentarão esta coluna, uma obviedade. Não há um único filme menos do que imperdível na filmografia do diretor austríaco, e no IMDb há uma página sobre seu novo filme, em fase de realização, chamado Amour, com a musa Isabelle Huppert, frequente em suas obras (e que nos proporcionou, em A Professora de Piano, uma das atuações mais brilhantemente perturbadoras de todos os tempos) e com o barítono britânico William Shimmel, que parece estar muito bem acompanhado no cinema, uma vez que seu papel anterior (o primeiro no cinema, pois já havia feito um musical para a TV chamado Hércules, no papel-título) foi no último filme de Abbas Kiarostami, Cópia Fiel. Não preciso dizer que espero que o mundo demore um pouco mais para acabar, já que no site, 2012 é o ano de lançamento do filme. Outubro, pra ser mais exato. Os deuses hão de me compreender.

Recomendo: Caché

Observação final: As indicações dos filmes após os textos sobre os diretores não são necessariamente as que eu considero suas melhores obras. Usei um critério não mais classificável do que “o que eu indicaria nesse momento pra alguém que não conhecesse a obra do diretor”, entende? Acho que todo mundo sabe o que é isso. Eu só não sei explicar direito.

Outra coisa: alguns (vários) resumos, por pura incompetência, saíram muito maiores do que deveriam. Portanto, meu post ficou (bem) mais extenso do que imaginei. Isso, apesar de previsível, faz com que eu fale sobre as mudanças sobre as especulações acerca do Festival de Cannes e a sua verdadeira configuração (que será divulgada no dia 14 de abril, bem na data de entrega desta coluna, que é quarta-feira) numa outra ocasião, não necessariamente na semana que vem. Até a próxima.

Leia aqui a parte 1 e parte 2 de “Os Melhores Diretores do Mundo”.


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