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Um breve resumo dos estudos culturais que incluem as letras de música como texto de caráter literário (e a literatura como fenômeno de acepção musical).

Eventualmente a Estante apresentará neste blog, como objeto principal ou secundário de seus temas, uma composição. Uma letra de música. Com isto, espera-se estudar um pouco das relações que se constroem entre música e literatura pela via do texto, do corpo físico da canção, evitando realizar análise de melodias, ritmos ou qualquer outro artifício sonoro, imaterial. Na prática, o uso de uma letra de canção não representa qualquer obstáculo para uma análise literária de seus aspectos, visto que todo texto de caráter artístico é amplo em sua acepção. Pela teoria, no entanto, é importante que se defina o tipo de trabalho empregado na realização de tais observações – e é sobre este assunto que a coluna se voltará hoje.

A primeira questão que surge, ao tratar deste assunto, é: letra de música é texto literário? Ou melhor: letra de música é poema? Com esta pergunta, surge a controvérsia: a letra nem sempre é o elemento primeiro do processo de desenvolvimento da canção, sendo às vezes o último termo adicionado a ela. Sendo assim, ainda seria possível considerar esta letra um texto dotado de valor literário? Independente de ter sido criado após a melodia – e, assim, funcionando como “apenas mais um” elemento da canção em si –, este corpo lingüístico basta a si mesmo?

Para Carlos Rennó (jornalista e um dos maiores letristas em atividade no Brasil), sim e não. Sim para o reconhecimento da letra de música como poema, uma vez que trabalha com a palavra em forma poética, em seu sentido figurado (e polissêmico) como em qualquer texto de Drummond, Bandeira ou Vinícius – este último, aliás, um dos maiores representantes da parceria firmada entre a palavra escrita e a palavra cantada. Ou seja: na concepção de Rennó, a letra de música atende às mesmas exigências de um texto literário, tanto pela estrutura quanto pela organização simbólica de seu conteúdo.

O compositor, por outro lado, faz questão de reforçar a relação intrínseca que se estabelece entre letra e melodia. Rennó, ao mesmo tempo em que reconhece as competências básicas de um poema nos textos para canção, enfatiza a importância do som na produção de sentido destes trabalhos. O ritmo e a melodia cumprem, na música, a mesma função da página na literatura, mas sem nunca valorizar um aspecto em detrimento de outro. O texto, por fim, é importante para o resultado final e contribui na produção de sentido poético, mas depende diretamente da música que o acompanha.

Deve-se entender tanto letra quanto melodia como estruturas interdependentes estabelecendo uma conexão semântica impossível de ser dissociada – mas passíveis de ser analisadas por suas particularidades. Assim, pode-se “desmontar” o todo formado pelo encaixe de texto e som para observar, com mais atenção, os elementos formadores de cada camada simbólica. Em seu “Por uma ontologia da canção: poema e letra”, o ensaísta (e compositor) Francisco Bosco reúne três aspectos externos à canção ao promover um estudo das tensões entre a criticidade de um texto literário contida na letra de música e o aspecto sonoro envolvido, essencial para seu funcionamento pleno.

O ensaio de Bosco, de caráter teórico, é costurado por aprofundadas reflexões culturais e estéticas e se preocupa em explicar a produção de sentido na letra de canção (ele também é semiólogo), mas o leitor pode recorrer a um documentário que utiliza este mesmo diálogo interdisciplinar entre música e literatura com uma linguagem informal e delicada: “Palavra (En)cantada”, de Helena Solberg, coleta depoimentos de intérpretes, compositores e utilizadores da língua em geral para construir um panorama da cultura de “camaradagem” entre poesia e música popular brasileira. No filme, as considerações de Carlos Rennó e Francisco Bosco são reforçadas por outras personalidades e novas perspectivas críticas são apresentadas de maneira descontraída e sincera.

Ainda no campo da ensaística, outra referência é o nome de José Miguel Wisnik. Graduado em Letras pela USP, mestre e doutor em Teoria Literária, o também compositor é autor de títulos cuja contribuição, valiosíssima para o campo da música brasileira de expressão popular, aprofunda-se tanto no estudo separado das canções quanto na fundamentação teórica voltada para esta linha de pesquisa. Estudioso também dos fenômenos culturais, Wisnik confere a alguns de seus trabalhos tonicidade de investigação antropológica ao levantar aspectos diacrônicos da penetração da música popular na cultura erudita (representada pela literatura) e vice-versa.

Em resumo, o reconhecimento da letra de música como material de caráter poético (por admitir o espaço de criação ficcional em um texto que é apenas parte de seu sentido total) é a evidência necessária para que se torne possível utilizar tais obras como objeto de investigação literária e, consequentemente, cultural. Há, ainda, uma discussão maior envolvendo a aceitação ou não de toda letra de música como poesia, uma vez que, na música popular, a ponte entre esta expressão e a clássica nem sempre ocorre – ou ocorre, mas convencionou-se dizer que não por resistência dos círculos acadêmicos a determinadas manifestações culturais.

Com isto, a Estante reserva-se no direito de apresentar, futuramente, letras de canções como objeto de suas análises, uma vez que já foram explicitadas as relações existentes entre literatura e (letra para) música. É válido reforçar o que foi dito no primeiro parágrafo deste texto: não há a intenção de, quando utilizada uma composição, avaliar competências sonoras envolvidas, já que a coluna é sobre literatura e – sendo coerente – todo assunto tratado terá o texto, e apenas o texto, como matriz.

Assista ao trailer de Palavra (En)cantada:


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