Presença e função da pedra na poesia brasileira através de quatro nomes da nossa literatura. (imagem que ilustra o post por Sandro Fortunato, para o arquivo do Memória Viva)
Você pode não gostar de literatura (embora eu duvide muito que um não fã de literatura esteja lendo esse texto), mas já ouviu falar; você pode não curtir tanto poesia, e preferir prosa, entretanto certamente conhece; você pode confundir o nome do autor, no entanto sabe um ou dois versos inteiros dos dez que formam o poema. A certeza dessas declarações não existiria não fosse pelas mesmerizantes palavras “No meio do caminho tinha uma pedra/Tinha uma pedra no meio do caminho” que abrem “No meio do caminho”, um dos textos mais famosos de Carlos Drummond de Andrade.
Bem: declarar que determinado texto “é um dos mais famosos” de Drummond não é tarefa simples, visto que o poeta mineiro, dono de vastíssima obra, consagrou-se como o maior nome da lírica brasileira do século XX e, portanto, tem pelo menos cinqüenta de seus poemas entre “os mais famosos” da carreira. “No meio do caminho”, contudo, exerce fascínio ímpar sob nossa cultura, seja pela apropriação dos versos citados em nossa sabedoria popular, seja pelo eterno enigma – que não necessariamente é um enigma – do significado real da pedra para o eu-lírico do texto. Porque Drummond enfatiza: “Nunca me esquecerei deste acontecimento/Na vida de minhas retinas tão fatigadas/Nunca me esquecerei de que no meio do caminho/Tinha uma pedra.”
O próprio Drummond gostava de dizer que havia escrito o poema por causa de uma pedra de verdade, como qualquer outra pedra de calcário ou outro minério destes. A dramaticidade do texto, por sua vez, seria apenas uma zombaria com os acontecimentos cotidianos – ora, é só uma pedra, por que renderia um poema? Para o poeta, em sua explicação, rendeu, oras. A insistência das universidades em utilizar textos seus em exames de admissão na década de 80 gerou reclamações do autor, que conseguiu a retirada das questões de interpretação de textos de vestibulares como os do CEFET, da UERJ e da UFRJ (foi quando o CESGRANRIO decidiu utilizar apenas textos de autores já falecidos em suas provas, evitando contestações afinal).
Voltando ao poema: literal ou não, tirada de sarro ou não, o fato é que “No meio do caminho” (também conhecido como “aquele poema da pedra, sabe?!”) permanece sólido em nosso imaginário coletivo, independente do significado. E com o perdão do trocadilho. Mas Drummond, saibam vocês, não é o único a ter dedicado um momento todo especial à pedra em sua poesia. Outros autores de nossa literatura (e mesmo da nossa música popular), estimulados ou não pelo poeta de Itabira, falaram em pedra com um toque especial, um “quê” a mais, um propósito maior. Destaquei alguns exemplos:
“Educação pela pedra”, de João Cabral de Melo Neto
O poema do autor pernambucano, consagrado pelo estruturalismo e pela precisão em seus textos, vem em primeiro por ser, ao mesmo tempo, título de poema e título de livro. Lançado em 1966, “A Educação Pela Pedra” venceu o Prêmio Jabuti daquele ano e inúmeros outros prêmios literários. Para este livro, João Cabral de Melo Neto pulverizou sua poética de modo a alcançar, pela “educação” (na verdade o trabalho formal voltado para a linguagem), a poesia simétrica e resistente, tal como a pedra.
O poema homônimo, por sua vez, concentra em si um caráter didático, como se fosse a cartilha (muda, parafraseando o décimo verso do texto) adotada por Cabral na escritura dos 48 poemas de seu livro. Assertivo, propõe “Uma educação pela pedra: por lições;/Para aprender da pedra, freqüentá-la;/Captar sua voz inenfática, impessoal/[pela de dicção ela começa as aulas].” Captar a voz inenfática do poema (ou seja, não enfática) é o objetivo maior do poeta, através do regime que impõe a si mesmo.
“Paixão” e “A formalística”, de Adélia Prado
Considerada “o Drummond de saias”, a também mineira autora é a principal voz feminina da poesia brasileira no século XX, tendo apenas Cecília Meireles em seu caminho. Mas muitos dizem preferir Adélia justamente pela verve drummondiana e pela sensibilidade divinatória que entrecruza sabedoria empírica, religiosidade e fluxo de consciência, erguendo uma obra pronta desde seu primeiro livro. Adélia não veio construindo-se, apenas experimentando sua própria exegese.
No primeiro dos textos, a poeta é flagrada em um momento de impotência, numa confissão que revela a natureza caótica do mundo, quando este não é reconhecido pelo observador, ou seja, não é interpretado por ele, pois se apresenta como um espaço literal: “De vez em quando Deus me tira a poesia./Olho pedra, vejo pedra mesmo./O mundo, cheio de departamentos, não é a bola bonita caminhando/solta no espaço.”
Em “A formalística”, por outro lado, Adélia encontra afinidade com João Cabral de Melo Neto ao compartilhar com o leitor que “O poeta cerebral tomou café sem açúcar/e foi pro gabinete concentrar-se./Seu lápis é um bisturi/que ele afia na pedra,/na pedra calcinada de palavras,/imagem que elegeu porque ama a dificuldade”. Mas é tudo um pastiche criado pela poeta, pois Adélia nada tem de cabralina, como se nota mais adiante: “O jovem poeta,/fedendo a suicídio e glória,/rouba de todos nós e nem assina:/’Deus é impecável.’/(…)/e o pelejador não entende,/quer escrever as coisas com as palavras.”
“Das pedras”, de Cora Coralina
Essa, infelizmente, poucos conhecem, mas é de uma sensibilidade ímpar em nossa literatura. Também de origem humilde, assim como Adélia Prado, está ligada a Drummond não por uma afinidade temática, e sim por ter sido “apadrinhada” pelo poeta. Seu primeiro livro, “O Poema dos Becos de Goiás e Estórias Mais”, só foi publicado quando Cora tinha 76 anos, e sabe-se lá como, seus escritos chegaram às mãos de Drummond. Este, tocado pelas palavras da goiana, lhe remeteu carta elogiosa que, quando caiu no conhecimento do público, despertou o interesse para sua obra.
O poema destacado não vê a pedra como modelo, tampouco como não-modelo: é a pedra real, bruta, pedra da vida, da dificuldade (“Uma estrada,/um leito,/uma casa,/um companheiro./Tudo de pedra./Entre pedras/cresceu a minha poesia.”). Se em Drummond é anedota, em Cabral é método e em Adélia é observação, em Cora Coralina a pedra é experiência, coeficiente de formação. Não à toa, conclui seu poema com os seguintes versos: “Entre pedras que me esmagavam/Levantei a pedra rude/Dos meus versos.”
Através destes quatro nomes, todos de reconhecida habilidade poética, a pedra figura como elemento de fascínio, seja internamente (ou seja, servindo para a própria poesia que escrevem) ou vista como antagonista do ofício do poeta. A distinção entre pedra-modelo e pedra-obstáculo, embora pareça mais clara, ainda é capaz de render inúmeros estudos acerca de sua presença em nossa poesia, uma vez que carrega em sua constituição física muito do nosso território geográfico – aridez, mas também resistência. Como diz a canção de Chico César e Zeca Baleiro, “é pedra de responsa!”





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1 mandou ver
Helder disse:
5 ago, 2011
Conheci Cora numa exposição do CCBB.
A versão feminina de Manoel de Barros?