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Trabalho. O escritório, aquele ambiente: gente feia junta pra fazer o que não gosta em troca da sobrevida no fim do mês – e a desesperança constante. Até que ela chega. Ou sempre esteve, e numa esquiva momentânea da apatia que, desde sempre, costumava ter a mim como alvo, eu a vi chegar.

Ela vinha vindo, vindo, e eu a vendo vir e me boquiabrindo, ela num vestido vinho. E eu – a degustar. Linda, um espetáculo. Não aquele tipo gostosa-safada que todo homem que pega adora, e os que não conseguem, invariavelmente pensam que “é piranha, mesmo”. Ela era diferente.

Eu sabia que não tinha chance, um pingo, uma porra de chance, no way. Tira essa ideia da cabeça. Mas também, quem teria chance? Ela era daquelas que faziam os ressentidos pensarem “deve ser lésbica”. E devia mesmo. Afinal, aonde econtraria homem à altura?

Fim do expediente. A hora naquele purgatório setorizado nunca passou tão rápido. Pois eu vagava: a via indo, quando ia, e vindo, quando vinha, e tanto fazia que tinha trabalho atrasado. Papel, papel, papel, porra de papel, pra que tanto papel, eu pensava, mas pensaaaava, há mil anos, ou ontem, na era em que não a conhecia. Hoje não tenho tempo. Quem liga tanto pra papel não viu aquela mulher.

Simpaticíssima. No elevador, puxa conversa comigo. Tinha mais gente lá, outro a respondeu, mas eu vi quando, num momento, ela me viu a vendo. Coitado, o cara não tinha percebido.

O elevador se abre e saímos do prédio. E agora? Será que ela vai pro mesmo lado que eu? Pra que lado eu vou? Nem sei mais. Tento adivinhar o lado pra onde ela vai. Estamos lado a lado, aí finjo falar ao celular pra diminuir o passo. Ela vai indo, nem pra um lado, nem pro o outro: para de frente pro carro na calçada. Carrão. Deve ser do pai. Um coroa sai de lá. Sim, é o pai, é o pai! Parabéns, papai! Sua filha, vou te contar. Meus parabéns, de novo. Você é um gênio que fez uma obra-prima. E que haja obras-irmãs, claro, e que elas venham trabalhar aqui também.

Opa, mas que porra é essa? O pai dando selinho na filha nessa idade. Gente estranha. Tudo bem, eu torceria pra não ter uma filha tão linda e não correr o risco de pensar em coisas incestuosas. Se tiver mesmo feito outras obras irmãs dessa, a casa do velho deve ser um harém. Deus que me perdoe, ainda bem que não sou nem pai.

Ele a conduz à porta do carona e a sua mão enrugadinha desliza da cintura da filha pra… bunda da filha da puta! Pai é o cacete! Sim, aquele cara já devia até ter netos, mas não com ela, e nem dela… E não venha me dizer que isso é amor. Amor é o caralho. Aquilo é putaria, aquela mulher é uma vadia, dessas vadias lindas que eu nunca, nunca vi, e nunca vou voltar a vislumbrar.

O carro é bom e faz vrum-vrum. A menina linda que eu via indo era só uma vaca vã e vil que estava à venda, mas que não valia nada.

Tudo o que não parece é.

A imagem que ilustra o post é do filme Educação (2009), de Lone Scherfig.


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