Relações necessárias entre Um dia de Fúria e a indiferença crônica pelo “outro”.
(Este artigo contém informações que podem ser consideradas Spoiler. Caso ainda não tenha desfrutado do filme, leia por sua conta, se não considerar isso prejudicial à sua futura experiência cinematográfica.)
Um motivo banal pode ser, por vezes, mais que suficiente para fazer com que uma pessoa comum reaja com muito mais hostilidade do que o normal. Todos já presenciamos isto alguma vez, ou mesmo fomos os irritados da vez. E quando estamos justamente neste dia, não nos importamos muito com a possibilidade de alguém próximo, muito próximo, estar num dia ainda pior:
Alguns dizem que o pedido do cliente para colocar bacon no seu lanche foi o que causou isso; a mim, parece que o trabalhador só não queria ser filmado. E se eu estiver correto? Haveria, ainda assim, motivo para uma reação destas? Obviamente, nossas reações a qualquer ato não correspondem apenas ao ato em si; há uma série de leituras – de gestos, de tom e voz, de expressão facial – que fazemos para interpretar uma determinada atitude. Às vezes dispensamos a linguagem corporal e as circunstâncias do momento para interpretar as coisas: a frase “você sabe que eu te amo, né?” vinda da sua amada tem uma conotação substancialmente diferente da mesma frase vinda da sua sogra, e somente a relação de parentesco que se dá é o suficiente para entendermos isso. Logo, há modos e modos de se pedir bacon. E quem recebe a mensagem – que tem a conotação de “ordem”, porque o empregado é obrigado a fazê-lo, e ao mesmo tempo não reconhece quem ordena como uma figura de autoridade, pois, em termos práticos, o ordenante não tem qualquer poder sobre o cargo do ordenado – é uma pessoa, e que carrega consigo, portanto, todo um histórico de ordens de quem não conhece e de desaforos de todo o tipo. Além de que, não nos esqueçamos, um funcionário do KFC ou de qualquer outra rede de fast food geralmente não tem remuneração suficiente pra pagar um analista. Sendo – mesmo ganhando mal, servindo os outros e recebendo xingamentos – um humano, uma hora, ele explode.
O filme Um Dia de Fúria versa, ao menos em princípio, sobre esta linha-limite que todos temos e que define o nosso modus operandi : sobre quando transgredimos a nossa usual e “civilizada” maneira de lidar com o outro e deixamos nosso lobo interior ladrar – e, se preciso, morder.
A obra, surpreendentemente de Joel Schumacher – um dos diretores mais regularmente medíocres de Hollywood -, tem um argumento simples e muito interessante, com um quê de Depois de Horas, de Martin Scorsese: William Foster (Michael Douglas), um trabalhador aparentemente comum decide ir ao encontro da sua filha entregar-lhe um presente de aniversário, mas tudo parece conspirar contra ele em seu caminho para a casa. As semelhanças param aí: após aparentemente toda a sua vida tolerando as sistemáticas hipocrisias que o cotidiano oferece às pessoas comuns, ele resolve que, naquele dia, nada vai impedi-lo de concluir o seu singelo objetivo. Justo, não?
A trama paralela a esta é igualmente interessante: o policial Martin Prendergast (Robert Duvall), no seu último dia de trabalho e em meio à comemoração de praxe dos seus pares pelo colega receber a tão sonhada aposentadoria e estar vivo para usufruir dela, precisa resolver um último caso, com o qual se envolve sem querer. Tudo indica que um homem branco de camisa social branca e gravata anda por aí destruindo algumas coisas, mas pagando por outras. Os jornais frequentemente trazem notícias de policiais mortos em serviço, principalmente naquela região da cidade, e por isso Prendergast hesita. Mas ao contrário dos boatos no departamento, bravura nunca lhe faltou: ele abandonou as ruas atendendo a um pedido da sua mulher, uma pessoa mimada por conta da beleza de outrora. Apesar dos apelos – da mulher e da consciência – para que faça apenas o seu serviço interno até o fim do dia e nunca mais pise naquele lugar novamente, o dever o chama. Afinal, o último dia de trabalho ainda é um dia de trabalho.
O filme é muito bem sucedido em passar o clima de tensão necessário para que cada ato de William não pareça mero overraction. E Michael Douglas, no seu papel mais interessante, consegue também não ser um overactor mesmo quando o roteiro dá margem a essa possibilidade, além de mostrar com perfeição o olhar de um homem desiludido e ao mesmo tempo inconformado com o mundo, e que passa a apenas ver sentido em lutar na sua cruzada egolibertária, caso ninguém entenda que hoje é o seu dia de ficar puto.
Um interessante e infalível elemento usado para mostrar esta tensão é o calor: a câmera se empenha em mostrar, a cada ato de intolerância de William (ou, numa possível leitura, de intolerância dos outros), o calor do ambiente – seja com um aparelho quebrado de ar-condicionado de carro, seja um ventilador girando tão debilmente que não consegue ventilar. A utilização deste recurso como representação da tensão do ambiente é uma técnica usada também em filmes como Doze Homens e uma Sentença (de Sidney Lumet) e em Faça A Coisa Certa (de Spike Lee) – este último compartilhando ainda outras semelhanças com Um Dia de Fúria. Veja os dois e diga se estou errado.
A interpretação de Robert Duvall merece ser citada: poucos têm dúvidas de seu talento e competência, mas conseguir fazer com que o filme seja tanto dele quanto de Michael Douglas – que, além de estar ótimo, como já dito, tinha em suas mãos um dos personagens mais interessantes da década – é um feito imensurável. E as críticas sociais que o filme faz podem, por vezes, revelar os maneirismos de Joel Schumacher (ou pode ser só birra minha), mas é interessante o discurso que se passa sobre como alguém considerado, de uma hora para a outra, “economicamente inviável”, passa a ser tratado. O manifestante é preso, mas é a partir deste discurso que as coisas ficam mais claras: William, só então, começa a dar mostras de que suas atitudes e pensamentos podem ser um pouco deturpados – apesar de que, ao longo do filme, se pensarmos bem, todas as suas atitudes seguem um padrão lógico e bem definido. Mesmo à nossa frente todo o tempo, não percebemos o outro lado da história, assim como às vezes não ponderamos que há alguém no outro lado do balcão do KFC.
O presente que William compra durante o discurso do manifestante – um globo de vidro com um pônei – é o que ele quer entregar à filha. Já depois de alguns empecilhos devidamente “superados”, surge outro obstáculo: quando o skinhead sujo e intolerante – pelo qual tanto William quanto nós espectadores sentimos repulsa e do qual sabemos ser diferentes – destrói o presente da filha do protagonista, percebemos que aquilo era a representação da ponta de sanidade que ainda havia em William, e que esta, portanto, acabara de se despedaçar. Percebemos também que ele, apesar de se sentir diferente, é (ou torna-se), na verdade, justamente tudo aquilo o que repudiava quando tentava viver uma vida correta. E decreta ao telefone para sua ex-esposa Beth (Barbara Hershey, que, com tanta beleza em 1993, mostra, em Cisne Negro, ter envelhecido um pouco pior do que poderia): “eu estou num ponto sem volta”. E, quando vemos ao fundo a bandeira do Terceiro Reich que pertencia ao falecido (tome-lhe spoiler) skinhead dono da loja, quem ainda tinha dúvidas disso, passa a se convencer.
O desfecho, ao contrário do que muitos podem afirmar, não me parece pouco audacioso ou piegas. Lembramos que o ano do filme é 1993, e imagino que o filme não tenha sido indicado a nenhum prêmio importante nos Estados Unidos justamente pela incorreção política do seu protagonista, mas confesso que não me ocorreu averiguar melhor – e há poucas informações sobre isso. A confirmada – depois de um bom tempo de projeção – insanidade do personagem de William também não me parece, por si só, um argumento definitivo contra tudo o que ele fez diante da incomunicabilidade provocada pelo egoísmo alheio, justamente porque você o viu destruir tudo achando que ele era um cara normal num dia ruim. Então… e se fosse? E se for? Porque, e dane-se o politicamente correto, há dias em que eu tenho o direito de ficar puto; só espero que num desses dias eu não encontre uma pessoa mais ainda.
Título original: Falling Down
Com: Michael Douglas, Robert Duvall, Barbara Hershey
Ano: 1993
Direção: Joel Schumacher
Roteiro: Ebbe Roe Smith
Gênero: Drama/Policial/Suspense
Origem: Estados Unidos
Duração: 113 minutos





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2 mandaram ver
Raul Gonçalves Roque disse:
26 fev, 2011
Bacana filme e bacana texto.
Verdade mesmo esse negócio do calor…
Lembro que assisti esse filme, pela primeira vez, na escola. Só depois de algum tempo liguei a matéria de “Ética e Cidadania” com ele.
Jivago Achkar Jrieje Alcantara disse:
25 fev, 2011
Um dos filmes que mais me cativaram e que fez com que eu pensasse mais sobre a minha pessoa, sobre o que eu estava fazendo. Douglas é fodão nesse filme.
Recomendo muito. Todos nós temos um dia de fúria. Todos.