Desde 2001, quando ainda se chamava Violins And Old Books, e lançava na ocasião um EP em inglês intitulado Wake Up And Dream, a banda goiana liderada por Beto Cupertino vem despertando a atenção no cenário da música independente brasileira. Sem nunca transcender os limites do underground, no entanto, pertence ao Violins uma das discografias mais contundentes do rock nacional feito nas últimas décadas. Parte do sucesso vem do rock muito bem executado ao longo de 5 discos já sem os “livros velhos” no nome e com cem por cento das letras em português, mas muito se deve, também, à inventividade temática e estética da banda em sua carreira.
Nesse sentido, pode ser que o novo trabalho dos rapazes assuste os fãs mais empolgados com a competência conceitual das obras cometidas pelo nome Violins desde então. Mas vamos devagar: há alguns meses, Cupertino já vinha apresentando canções que mais tarde, de uma maneira ou de outra, se tornaram parte de seu novo trabalho. A ideia inicial – lançar um álbum de inéditas ao vivo – foi abortada e a banda optou por seguir seu padrão de lançamento entregando mais um disco de estúdio (gravado no estúdio RockLab, responsável também por acomodar bandas conceituadas do circuito alternativo, como Macaco Bong, Black Drawning Chalks e Lucy And The Popsonics).
O esquema de lançamento virtual dos dois últimos álbuns da banda (A Redenção dos Corpos, de 2008, e Greve das Navalhas, de 2010) obedecia ao padrão conta-gotas: a cada 24 horas, pelo site oficial, uma faixa era liberada para download gratuito até que todo o disco estivesse disponibilizado. Desta vez, no entanto, a diferença veio no formato, oferecendo duas opções: na primeira, o download é gratuito e a qualidade das 10 faixas é média; na segunda, o download custa R$10 e além da qualidade de CD – cuja versão física está a caminho –, o comprador ainda ganha uma faixa bônus, não disponível na versão gratuita.
A maior mudança, contudo, está no conteúdo, e não na forma. Ou melhor, está na essência. Se em A Redenção dos Corpos o Violins promoveu sua mais diferente concepção sonora das canções, em Direito de Ser Nada a novidade está no teor das composições de Beto Cupertino, vocalista e guitarrista do hoje quarteto (que conta com Pedro Saddi nos teclados e Thiago Ricco no baixo, veteranos na formação). Após desmistificar os relacionamentos (Grandes Infieis), a condição humana (Tribunal Surdo), a relação do homem com Deus (A Redenção dos Corpos) e o fim do mundo (Greve das Navalhas), o ácido e debochado letrista apresenta neste trabalho uma competência até então abafada pela preocupação conceitual dos álbuns anteriores: a de escrever canções felizes.
Se mesmo nos discos anteriores, em que um ou outro instante de felicidade surgia, a sensação de vazio existencial vencia no fim, em Direito de Ser Nada a presença do outro como figura fundamental na vida do antes atormentado eu-lírico é cantada em praticamente todas as faixas deste trabalho. Para corroborar a proposta, a sonoridade menos severa de toda a discografia do Violins ainda apresenta o competentíssimo Fred Valle, estreando na bateria, e a nova abordagem de Beto na guitarra, resultando em um som mais suingado e deliciosamente pop.
Das músicas já conhecidas pelos dedicados fãs da banda, “Forasteiros” e “Medo de Dar Certo” despontam como as mais radiofônicas do conjunto (considerando um mundo utópico em que Violins tocaria no rádio) e resumem bastante o tom do álbum: “e eu juro que eu quis te perguntar/como quem pergunta um bom mineiro/quanto tempo você pensa em ficar?/eu não sei/o seu futuro inteiro”, trecho de Forasteiros, é uma das muitas sínteses desta nova fase. Como se pode notar, o despojamento conceitual não necessariamente significa desleixo na concepção.
Não é como se o Violins esquecesse sua trajetória de hinos contestadores e baladas ambíguas. Pelo contrário: esse passado fica evidente em diversas passagens do disco, mas o distanciamento do enunciador para estes enunciados é mais forte e, entendendo este sexto álbum como uma progressão lógica, madura. Ou, num trecho de “O Grande Esforço”: “vou participar sempre da melhor parte de ser eu/é o grande esforço/mas o alívio que te espera não tem preço/não depende de ninguém/mas você mesmo/dá pra se arriscar”.
Se há palavra que possa situar com mais justiça e firmeza o novo momento da banda, esta seria maturidade. Essa sensação acompanha o ouvinte desde a abertura do disco (com a vigorosa linha de baixo em “É Como Está”) até a animada e repetitiva “Perdoar É A Maior das Injustiças”, e ocorre também pela via do texto desde a primeira estrofe do álbum, uma grande sacada de autorreferenciação: “você não imagina do que eu sou capaz/para tirar essa preocupação de mim/eu vou a pé e olha que eu moro em Goiás/eu minto bem, eu roubo banco, eu vendo rim”, do tipo que só quem é fã de Violins conseguirá perceber.
Como dito acima, o despojamento não representa desleixo, e Direito de Ser Nada está longe de provocar esta reflexão, mesmo apostando mais nas canções do que em um tema central. É um álbum muito bem concebido e executado em todas as potencialidades de cada integrante da banda, enxuto em todas as virtuoses que poderia aumentar e comprometer a homogeneidade do trabalho, despretensioso como nunca o Violins soube ser. Mas pudera: após o fim do mundo, sobre o que resta versar? O Violins se deu um tempo, está com a sensação de dever cumprido e nem por isso menos atraente. Aliás, longe disso: este lançamento é um agradável manifesto em prol da maturidade.
O download de Direito de Ser Nada está disponível em http://www.violins.com.br/


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3 mandaram ver
Brayan Carvalho disse:
5 mai, 2011
Valeu, Marcos e Raul
O Violins é daquelas bandas que, apesar de simples, tem capacidade de realizar obras muitíssimo contundentes. Direito de Ser Nada me parece um descanso disso tudo, mas sem abandonar o vigor. Surpreende a todo mundo que acompanha a trajetória deles.
Raul Roque disse:
3 mai, 2011
Violins e Pedro Luis e a Parede são algumas das melhores descobertas que tive por intermédio do Brayão. Muito bons…
Passa algo deles na MTV “coool-psychedelic”? Nunca vi…
Aliás, essas revistas digitais brasileiras “coools-psychedelics” deveriam dar maior visibilidade a gente assim. RRAURL e Move That Jukebox são boas, mas parecem o SBT: cópias dos EUA. Cadê samba, hip-hop, rap, pop, dance e cia? É um conceito pré-estabelecido muito grande e sem versatilidade nenhuma.
Por isso é excelente que você abra espaço pra eles, Brayan. Parabéns.
Marcos Felipe disse:
3 mai, 2011
Muito bom, cara.
Foi o que eu senti quando escutei o disco as primeiras vezes. “Cadê aquela banda cheia de letras (e sons, porque não?) pretensiosas?”
Mas a banda estava lá, tão boa quanto sempre, tão despretensiosa como nunca.