“You’ve been learning
Baby, I been learning
All that good times
Baby, baby, I’ve been yearning
Way, way down inside
Honey, you need it
I’m gonna give you my love
I’m gonna give you my love”
Led Zeppelin
Um.
Dois.
Três.
Quatro.
Batendo uma baqueta contra a outra, a música começa. Um quatro por quatro, básico. O pé direito no bumbo marca o um e o três, a mão esquerda na caixa, o dois e o quatro. A mão direita toca um chimbal dobrado, oito colcheias por compasso – e um e dois e três e quatro – os pratos do chimbal levemente abertos, dando mais peso à música. O resto da banda toca, dois guitarristas – um deles canta – e um baixista. Mas na platéia, Paulo, o garçom, só tem ouvidos e olhos para a bateria. Paulo tem algo entre 35 e 45 anos, pouco importa, aparenta 60. A aparência vem de dentro pra fora. Paulo tocou em muitas bandas quando novo, fracassou em todas elas, engravidou uma namorada, largou a música, foi um péssimo marido e pai, tornou-se alcoólatra, desceu bueiro abaixo, perdeu a guarda do filho, perdeu o contato com a família e perdeu tantos anos na merda que pensou estar morto. Foi ressuscitado por um velho companheiro de banda, que o ajudou a livrar-se do álcool e o chamou para ser garçom em seu bar. Livre do vício, Paulo quase não aceitou: trabalhar como garçom significava conviver com a tentação da bebida. Mas acabou aceitando, era preciso um emprego para uma vida reformada, e Paulo não teria onde conseguir um. Depois de quase seis meses, o amigo decide abrir as noites de sexta para bandas ao vivo. Aquela era a primeira vez que Paulo tinha contato com uma banda e com a música desde os tempos de esgoto. Paulo nunca voltou a tocar, tinha receio do que isso poderia despertar, tinha medo do álcool que sempre se envolvia com sua música. Dia e noite, tudo o que Paulo fazia era sentir saudade de uma vida que levou e de outra que nunca teve oportunidade de levar. Ele era um amontoado de frustrações e saudades. Saudade do filho que não via há anos, saudade de tocar bateria e da inocência de acreditar que seria um rock star, saudade de viver alimentando e saciando seus desejos e, principalmente, saudade do que não viveu e queria viver antes de afogar seu sangue na cachaça.
Tum.
Tá.
Tum.
Tá.
O baterista não era grande coisa, mas era eficiente. Cada toque dele, cada batida, tinha solidez e consistência. Ele não fazia grandes frases e viradas, mas era capaz de manter o tempo – mesmo tocando sem metrônomo – com a precisão de um relógio. Sua consistência era tamanha que o restante da banda podia cair, mas o baterista permaneceria com seu muro de som sólido e invencível, sem perder o compasso. Paulo admirava isso, mas não era seu estilo. Paulo tocava como um lunático. Tocava de modo feroz e descontrolado. Aprendeu a tocar ouvindo Keith Moon e John Bonham, e não precisava de mais nada. Paulo tocava alto, forte como um trem fora do trilho pronto para arrasar uma cidade. E, assim, fora do trilho, entortava todo o andamento da banda, mas ninguém nunca reclamou; nem banda, nem público. A cada toque de Paulo, uma ferida se abria. Castigava as peles da bateria sem qualquer cuidado, chegava a tocar com um charmoso desdém e descuido que fazia com que ele aparentasse ser superior à própria música. Quebrava pratos, rachava surdos e bumbos, deliciava-se com a destruição. Com o tempo, cada porrada de Paulo feria não só a bateria, mas a alma, que ia cansando-se da vida de músico sem sucesso e morrendo pouco a pouco em cada show com 6 pessoas na pláteia e o dobro de doses de cachaça ali, ao lado da bateria.
-Ô, garçom, cadê minha batata frita, porra?
No palco, o baterista começa outra música. Outra quatro por quatro. 90% das músicas de rock são quatro por quatro. O andamento sólido e preciso. Cada bumbo do baterista desperta a saudade de Paulo e o frustra. Tum: saudade. Tum: saudade. Do outro lado, oposto a Paulo, uma garota de cabelo azul admira o baterista e aguarda sua coca-cola diet com gelo e limão. Ana toca bateria não faz nem seis meses, mal sabe ler uma partitura, não sabe afinar uma bateria, não tem postura alguma ao sentar-se para tocar e gosta de indie rock, embora nem ela consiga definir o que é isso. Ana sonha em montar uma banda e largar os estudos. Carrega sempre um par de baquetas na mochila – embora nunca mostre para ninguém – e masturbou-se duas ou três vezes usando-as. Ela tem 18 anos. Paulo chutaria 16, mas ali não entram menores de idade. O braço todo coberto por tatuagens coloridas. Paulo as observa e a garota observa as tatuagens pretas e gastas dele, que escapam pela camisa de manga comprida arregaçada até os cotovelos. Paulo entrega a coca-cola e o copo com gelo e limão. A garota olha para ele, tenta falar, seus lábios ficam levemente abertos, chegam a balbuciar algo sobre tatuagens, mas as palavras não saem, ela é tímida demais. Os lábios ficam ali, semi-abertos com o fantasma das palavras e, por um breve momento, Paulo pensa que faz anos que não toca uma boca, que não se enrola em um beijo, que não se conforta nos braços e coxas de uma mulher. No instante seguinte, ele e ela percebem algo constrangedor no ar, ela olha para o chão e desvia dos olhos dele, e ele sai em disparada, envergonhado pelo pensamento e por desejar uma garota que deve ter metade de sua idade, ou menos. Paulo se afasta o máximo que pode, no caminho passa pela banda e tropeça bem na frente do palco, retoma o passo e continua. Maleta, o baterista da banda, vê Paulo tropeçando e e se distrai. Por um instante, sua batida quase sai do tempo, o toque da caixa chega a soar frouxo, mas logo retoma a solidez, e ninguém da banda percebe. Maleta suspira aliviado e amaldiçoa o garçom velho e desajeitado que passou por ali. O solo do guitarrista é tão longo que Maleta, enquanto toca, contempla a platéia e procura um rosto que o admire e encha seu ego – procura por rostos bonitos de garotas bonitas – e encontra Ana. Mede seus peitos muito bem colocados na camiseta baby look dos Pixies e dessa vez perde o ritmo na mesma velocidade que seu pau endurece. Os outros integrantes da banda olham para Maleta, esperando que ele desacelere o ritmo. A bpm - batidas por minuto da música – passou de 90 para 128. O segundo solo interminável do guitarrista está para chegar e ele não está capacitado a fazê-lo nessa velocidade, embora tenha toda a convicção de ser o guitarrista mais rápido do mundo. O baixista pensa que a única vantagem da música estar mais rápida é que o solo de guitarra terminará antes. O solo desanda, Maleta volta ao ritmo normal, o que mais atrapalha do que ajuda, e a música termina em completa desgraça.
Embora ninguém no público tenha notado nada, todos da banda sentem sua virilidade ser extraída. Olham feio para Maleta, mas antes que qualquer comentário fosse feito, ele emenda a próxima música, dessa vez um três por quatro.
Um, dois, três, um, dois, três.
Ana imagina como seria ter uma banda e fazer um show. Maleta fantasia como seria comer Ana em cima do bumbo, sonhando que a cada estocada o bumbo tocasse, cada vez mais alto e rápido. Bum, bum, BUM. Paulo serve as mesas, enquanto olha a garota de cabelo azul e ouve a bateria em três por quatro, a música sendo conduzida no prato vinte polegadas, algumas leves notas fantasmas na caixa dando um certo charme à música, o bumbo firme e marcante. Pela primeira vez, o baterista arrisca alguns rudimentos mais elaborados. Paulo observa as mãos de Ana tentando acompanhar a música com convicção, os pés tocando um bumbo e chimbal imaginários. “Ela deve ser baterista.” Paulo sente falta da sensação de ferir a bateria e imagina como seria se essa música fosse tocada por ele, com toda a banda à sua disposição e com Ana observando. Sente vergonha novamente, por ter um desejo tão adolescente. A vergonha não tarda em transformar-se em tristeza, que chega ao insuportável junto com o ataque final no prato “crash”, no fim da música. Ana vê o velho garçom, mas está envergonhada demais para pedir alguma coisa depois da troca de olhares. Ela adorou suas tatuagens. Paulo continua a observando e sente vontade de chorar, mas ao mesmo tempo sente um tesão incontrolável e uma culpa imensurável. Como castigo, imagina-se cortando o próprio pau e usando como baqueta, mas imediatamente imagina que Ana é quem poderia usar seu pau para tocar, mas ele só tem um pau e são preciso duas baquetas, então imagina ela usando o pau dele e o de Maleta para tocar, e sente-se triste e confuso.
Maleta continua sólido como seu pau, agora empenhado em exibir-se para Ana.
-Ô, garçon, porra véio, cadê a porra da minha batata frita?
Paulo sai para ver o que acontece com as batatas, a cozinha está logo atrás de Ana, ele passa por ela. A garota olha as tatuagens dele de novo. Paulo sente-se péssimo e triste, olha um copo de bebida na mesa de um cliente. Lambe os beiços, segue adiante para a cozinha. De lá, ouve o rufo do início da próxima música.
Trrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr.
O rufar da caixa explode no bumbo e no prato de ataque. Apesar do início bom, o que se segue é uma balada lenta, péssima e cheia de clichês. O cozinheiro diz que as fritas não estão prontas e que precisa ir ao banheiro. Paulo volta sem as fritas. Evita o contato visual com Ana. A garota continua pensando em como seria ter uma banda. O baterista continua despindo Ana com os olhos e Paulo continua servindo as mesas. A balada lenta torna-se insuportável. A tristeza de Paulo transborda.
-Ô velho filho da puta, cadê a batata? Vou reclamar com teu chefe!
Paulo vai verificar as batatas de novo, desejando que elas estivessem queimando no cu do cliente, esbarra em Ana no caminho, engole seco, trocam olhares, ela logo desvia os olhos. Lá do fundo, o cliente bêbado grita qualquer coisa que não se ouve, Paulo entra na cozinha, a balada tocando – “céus, eu nunca ouvi uma música tão ruim” – e Ana espia a cozinha para tentar ver o velho garçom tatuado sem que ele saiba. As batatas estão na panela ainda, fritando, o cozinheiro não está mais lá, o cliente invade a cozinha, esbarrando violentamente em Ana, e grita: CADÊ A BATATA, SEU VELHO VIADO?
Paulo, sem olhar para trás, engole seco e encara a garrafa de bebida ao lado do fogão. Ana olha o que está acontecendo. Lá no palco, Maleta fica indignado pela garota com seios bonitos não estar mais olhando para ele. A batida perde sua consistência e o muro, que parecia invencível, começa a ruir.
-Vou falar pela última vez, seu velho do caralho, cadê minha batata?
A banda começa a tocar uma cover de Led Zeppelin, Whole Lotta Love. Primeiro a guitarra, depois o baixo. You need cooling, baby, I’m not fooling. Paulo pensa “esse batera não vai segurar essa música direito”. Fecha os olhos e contempla a memória, all that good times, baby, I’ve been yearning. Lembra dos velhos tempos, da música, e de como se sentia ao tocar. Sempre que tocava, sentia que estava ocupando o lugar que lhe pertencia. A bateria faz a virada e entra na música. Paulo lembra do filho e se corrói de saudade, lembra dos dias que morou na rua e se emprenha de tristeza, lembra da boca de Ana e se inunda de desejo, tenta em vão lembrar o gosto de um beijo, mas só lembra do gosto do álcool. Way down inside, I’m gonna give you my love. Paulo fecha as mãos – wanna whole lotta love, wanna whole lotta love – ainda lembra como se toca a música do Led, o cliente continua gritando, Ana olhando para Paulo, Maleta indignado porque Ana não olha para ele, e John Bonham revirando-se no túmulo. A banda toca fora do ritmo, Paulo faz os movimentos da música, mão direita no chimbal, mão esquerda na caixa, ele não abre os olhos, a música chega ao meio, uma parte mais viajante, psicodélica, a bateria apenas no chimbal e prato, alguns leves toques nos tons e surdos, o cliente pega uma garrafa e se prepara para atingir o velho garçom na cabeça. Ana grita e Paulo, no momento da virada da bateria, quando a música volta com toda sua porrada, abre a mão e pega a panela das batatas cheia de óleo quente e joga no rosto do cliente. Seu grito dá início ao caos, a briga se espalha pelo bar, a banda pára de tocar, cadeiras voam, Maleta e a banda toda fogem para o banheiro, Paulo vê Ana apavorada e perdida, pega sua mão para tentar tirá-la de lá, os dois se escondem atrás de um balcão, ela ri, mais por medo do que qualquer coisa, e diz a Paulo que gostou das suas tatuagens, ri mais ainda, e chora, ele fica mudo e só consegue pensar que tem que sair daquele lugar. Ele a abraça e conforta, diz que vai ficar tudo bem, “você precisa se acalmar, fique calma, garota”, ela o aperta, ele sente seus peitos e levanta seu rosto pelo queixo para dar-lhe um beijo na boca misturado com lágrimas, e na cabeça de Paulo começa a se formar uma batida, não tão sólida, mas forte, um pouco insegura, mas cheia de nuances e detalhes, bumbo, caixa, chimbal, pratos, surdos e tons misturam-se e formam aos poucos uma batida tribal, e Paulo só pode pensar em uma coisa.
Ele interrompe o beijo, olha para Ana e sorri. Ela retribui. Ele pede que ela fique ali, mas diz que estará de olho e cuidará dela. Ela acredita e sorri novamente. A briga ao redor não os afeta mais, e Paulo atravessa a briga, desviando aqui e ali, enquanto ela o observa. Em sua cabeça, ele junta os sons de cadeiras e garrafas quebrando, de pessoas caindo e gritando, e os isola no pensamento, organizando tudo aquilo em um ritmo quebrado. Sobe na bateria, se posiciona, encaixa o pé direito no pedal do bumbo e o esquerdo no do chimbal. Pisa no pedal do chimbal. Os pratos de quatorze polegadas abrem, se afastam e se encontram novamente, e o som deste encontro transforma toda a saudade de Paulo em um arrepio. Pisa no bumbo uma, duas, três vezes. Tum, tum, tum. Sente o som no peito, e Ana também. Ela não tira os olhos dele. Paulo levanta os dois braços o máximo que pode, cruza-os lá em cima, as baquetas formando um “xis”, prontas para descer com toda sua força e vontade. Paulo respira fundo, olha Ana e sussurra para ele mesmo:
Um.
Dois.
Três.
Quatro.
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[imagem que ilustra o post por Gus Vilela]
Confira as outras egotrips sobre a Saudade:
(“Egotrip” é a coluna deste blog com os arroubos literários de seus colunistas. Para saber mais, clique AQUI.)


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12 mandaram ver
grasiele cunha disse:
8 jul, 2011
parabens…pireii valeu ramon por ter me mandado..!!
gus Vilela Fofolete disse:
11 mai, 2011
valeu, mano.
o Maleta aí é mó laranja.
Manzana disse:
11 mai, 2011
Só melhora né mano.
Parabéns.
Gus Vilela Fofolete disse:
30 abr, 2011
Ramon, valeu mesmo, cara! Seu elogio fez meu dia.
Seja sempre bem-vindo pro aqui!
Ramon disse:
28 abr, 2011
Rapaz o que que é isso?! cai aqui de paraquedas li a primeira linha e o ritmo me ganhou na hora, bebi o texto num gole só.
Você termina de ler e o bumbo continua marcando na sua cabeça, parabéns cara! FODA!
gus Vilela Fofolete disse:
16 mar, 2011
“Fofolete, seu lindo” foi foda…auhauhauhauhauhauha
Gus Vilela Fofolete disse:
16 mar, 2011
Orra, Helder, valeu!
Fico feliz que vocês todos tenham gostado. Sério mesmo, quando gente legal gosta do que a gente faz, é um bom sinal.
Helder Dutra disse:
15 mar, 2011
Fofolete, seu lindo.
Acabaste com meu sono.
Puta obra, camarada, como já disse também o Ricardo. Puta obra.
Gus Vilela Fofolete disse:
13 mar, 2011
karol disse:
13 mar, 2011
Escrita Forte! saiu rasgando…
Gus Vilela Fofolete disse:
13 mar, 2011
valeu, Ricardo. desconfiei que quem fosse batera ia curtir.
Ricardo disse:
12 mar, 2011
Que obra, puta que pariu. Fantástico. Chave de ouro fechando a (modéstia à parte) excelente quadrilogia dos personagens que não sabem o que procuram e sofrem pelo que não viveram. E na boa, me identifiquei na hora, não só por ser quase um ex-baterista, mas pel contexto todo. Pobre garçom.